Errar o português pode tirar pontos no Enem. Esse domínio é avaliado na Competência 1 na correção da prova da Redação e, por isso, os candidatos precisam estar atentos a algumas “armadilhas” nas quais muitos estudantes caem.
— Pontuação, por exemplo, merece bastante atenção, porque às vezes uma vírgula mal empregada pode comprometer a organização sintática e até a construção de sentidos dentro de um período do parágrafo — afirma Nathan Sena, professor e coordenador de Linguagens do Elite Rede de Ensino, parceiro da Amplia Plataforma de Ensino.
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Dados da correção do Enem mostram que a Competência 1, que avalia o domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa, tem uma das menores médias de pontuação da prova, ficando à frente apenas da 5, que pede para o aluno apresentar uma solução para o problema proposto no tema. Além disso, essa nota está praticamente estagnada nos últimos dez anos em torno dos 120 pontos.
De acordo com Sena, no entanto, não é recomendável revisar toda a gramática neste momento. Segundo ele, o candidato precisa compreender que um deslize pontual não deve ser tratado da mesma forma que um padrão recorrente de desvios.
— Pegue as suas próprias redações, identifique os erros que mais se repetem e crie um pequeno checklist pessoal do que você precisa melhorar. E tire cinco minutinhos olhando para alguns tópicos mais sensíveis como concordância, regência, crase e paralelismo — recomenda.
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1 – Uso de vírgula
Não se separa, em nenhuma hipótese, sujeito e verbo. Os termos obrigatórios do verbo (sujeito e objetos) também nunca podem ser separados por uma vírgula.
Forma correta: “Os dados estatísticos (sujeito) dão (verbo) credibilidade (objeto direto) às informações (objeto indireto)”.
Por outro lado, é preciso usar vírgula para isolar termos deslocados, como operadores argumentativos e adjuntos adverbiais, como “nesse sentido”, “diante disso”, “nessa perspectiva”, “infelizmente”, “lamentavelmente”.
2 – Vírgulas em orações adjetivas
O uso indevido de vírgulas em orações adjetivas pode trocar completamente o sentido da frase. Por isso, atenção! Veja o caso abaixo.
No primeiro, o emprego de vírgulas para marcar a oração subordinada indica que todos os brasileiros são inconscientes. Depois, sem as vírgulas, a ideia exposta é a de que apenas os brasileiros inconscientes não preservam o meio ambiente.
Forma incorreta: Os brasileiros, que são inconscientes, não preservam o meio ambiente.
Forma correta: Os brasileiros que são inconscientes não preservam o meio ambiente.
3 – Crase
O principal uso de crase ocorre antes de palavras femininas, ocasionando uma combinação da preposição “a” com o artigo “a” da palavra feminina sob análise. Na prática, a substituição dessa palavra por outra equivalente é um teste eficaz para verificar esse fenômeno: quando a troca resulta no surgimento de “ao”, pode-se perceber a crase na estrutura feminina.
Forma correta: “O governo iniciou o combate à dengue”.
Repare: a frase acima pode ser substituída por “O governo iniciou o combate ao mosquito”.
4 – Por que, porque, porquê, por quê
Separado e sem acento (por que). Tem a ver com as perguntas:
Forma correta: Por que você não veio à aula hoje?
Separado e sem acento (por que) também pode ser usado em frases que não são interrogativas, quando a expressão puder ser substituída por “por que motivo” ou “por qual razão”, por exemplo.
Forma correta: Gostaria de entender por que a reunião foi cancelada.
Junto e sem acento (porque). Tem a ver com as respostas. Usado, em geral, para causa ou explicação.
Forma correta: Eu não fui à aula hoje porque estava doente (causa)
Forma correta: Não grite porque minha mãe está doente (explicação)
Junto e com acento (porquê) equivale ao substantivo razão, motivo. Ao virar substantivo, é precedido do artigo “o”.
Forma correta: Eu não entendi o porquê de não termos conseguido aquela aprovação (o motivo, a razão)
Separado e com acento (por quê). Assemelha-se ao separado sem acento, mas só pode ser utilizado no final da frase.
Forma correta: Hoje, você não foi a aula. Por quê?
5 – Há x a
Quando o termo introduz uma expressão referente a tempo passado, usa-se o verbo “haver”.
Quando o termo é empregado antes de uma expressão de tempo futuro, o correto é a utilização da preposição “a” (sem crase!).
Quando a expressão seguinte é de espaço, deve-se empregar apenas a preposição “a”. Veja exemplos:
Forma correta: O Brasil encontra-se polarizado há alguns anos.
Forma correta: Ocorrerão novas eleições daqui a dois anos.
Forma correta: O colégio fica a poucos metros de uma padaria.
6 – Onde x aonde
Como as próprias palavras indicam, a diferença entre “onde” e “aonde” é o “a”. Para saber quando usar um ou outro, portanto, é preciso verificar se o verbo demanda a preposição “a” ou não. Normalmente, os verbos com essa regência indicam movimento, por isso normalmente “aonde” carrega essa ideia. Vale lembrar que ambos os casos devem ser utilizados apenas para fazer referência a lugares. Veja os exemplos abaixo:
Forma correta: O Brasil é um país onde surgem denúncias diárias.
Forma correta: A cidade aonde a comitiva foi jamais será a mesma.
7 – Houve x Houveram
O verbo “haver”, no sentido de existir, é conjugado somente na terceira pessoa do singular, ou seja, houve.
Forma correta: Houve diversas reclamações sobre o novo funcionário.
Já “houveram” pode ser usado no sentido de ter, não com o de existir.
Forma correta: Eles houveram (tiveram) de ir à reunião em pleno domingo.
8 – Cerca de x Acerca de
A expressão “cerca de” tem o mesmo sentido de outras do mesmo campo semântico, como “em torno de”, “por volta de”. Ou seja, significa “aproximadamente”. A expressão “acerca de” é uma locução prepositiva equivalente a “sobre”. Veja exemplos do uso correto:
Forma correta: O Brasil tem cerca de 210 milhões de habitantes.
Forma correta: Todos os convidados falavam acerca da polêmica.
9 – A fim x Afim
As duas expressões existem, mas são empregadas para gerar sentidos diferentes. Quando separada (“a fim”), a expressão indica finalidade (“fim” é sinônimo de finalidade). Quando grafada “afim”, a palavra indica “afinidade” (ou semelhança). Na maior parte dos casos nas Redações do Enem, o correto é o emprego de “a fim”. Exemplos:
Forma correta: Luta-se contra a intolerância a fim de inibir práticas excludentes.
Forma correta: Esse filme é afim do outro.
10 – À medida que x na medida em que
As duas expressões existem, mas têm significados distintos: “à medida que” indica proporção; “na medida em que” tem o sentido causal equivalente a “já que” ou “visto que”, por exemplo. Entenda abaixo:
Forma correta: À medida que o tempo passou, a situação se agravou.
Forma correta: Deve-se combater a miséria, na medida em que essa mazela afeta milhões.
11 – Sob x Sobre
“Sob” é uma preposição e indica posição abaixo.
Forma correta: Achei o copo sob a mesa. (embaixo da mesa)
“Sobre” também é uma preposição e indica “acima de” ou “em cima de”.
Forma correta: Por favor, coloque o vaso de flores sobre a mesa.
12 – Descriminar x Discriminar
Descriminar significa tirar da condição de crime, sinônimo de descriminalizar. Discriminar é, muitas vezes, o oposto. Pode ser considerado como perceber as diferenças, distinguir ou até estereotipar alguém em razão da cor da pele, questão socioeconômica, gênero ou outra condição social qualquer.
Forma correta: Era favorável à descriminação das drogas.
Forma correta: O governo decidiu descriminar determinadas condutas, retirando delas o caráter de crime.
Forma correta: É muito importante não discriminar pessoas por sua origem, cor da pele ou condição social.
Forma correta: O funcionário discriminou o cliente por causa da roupa que vestia.
13 – À medida que x na medida em que
As duas expressões existem, mas têm significados distintos: “à medida que” indica proporção; “na medida em que” tem o sentido causal equivalente a “já que” ou “visto que”, por exemplo. Entenda abaixo:
Forma correta: À medida que o tempo passou, a situação se agravou.
Forma correta: Deve-se combater a miséria, na medida em que essa mazela afeta milhões.
14 – Chegar e Ir
Estes verbos são regidos pela preposição “a”.
Forma incorreta: O militar chegou cedo no Batalhão.
Forma correta: O militar chegou cedo ao Batalhão.
Forma incorreta: O militar foi no Batalhão.
Forma correta: O militar foi ao Batalhão.
15 – Mal x Mau
“Mal” é, em geral, o contrário de “bem”. “Mau” é o contrário de “bom”. Uma dica é observar se a palavra está caracterizando um substantivo ou se indica a maneira como algo é feito.
Forma correta: O candidato se sentiu mal depois da prova. (contrário de bem)
Forma correta: Ele teve um mau desempenho na redação. (contrário de bom)
16 – Pagar
Quando o complemento do verbo for uma pessoa, deve-se empregar a preposição “a”. Se o complemento não se referir a uma pessoa, não se emprega preposição.
Forma incorreta: As empreiteiras não pagaram os pedreiros ontem.
Forma correta: As empreiteiras não pagaram aos pedreiros ontem.
Forma incorreta: Os alunos pagaram ao curso.
Forma correta: Os alunos pagaram o curso.
17 – Querer
Se o verbo aparecer no sentido de desejar, usa-se sem preposição. No sentido de estimar, ter afeto, com a preposição “a”.
Forma incorreta: O aluno quer ao seu diploma.
Forma correta: O aluno quer o seu diploma.
Forma incorreta: Quero muito os meus amigos.
Forma correta: Quero muito aos meus amigos.
18 – Lembrar e Esquecer
Quando se apresentam nas formas pronominais — aqueles que são conjugados juntamente com um pronome oblíquo átono (me, te, se, nos, vos, se) —, os verbos “esquecer” e “lembrar” são transitivos indiretos, pedindo a preposição “de”.
Forma incorreta: A professora lembrou de que não haveria prova.
Forma correta: A professora se lembrou de que haveria prova.
Forma incorreta: Esqueci-me completamente do nome da sua esposa.
Forma correta: Esqueci-me completamente do nome da sua esposa.
19 – Obedecer e Desobedecer
Estes verbos exigem a preposição “a”.
Forma incorreta: Ele sempre obedece os sinais de trânsito.
Forma correta: Ele sempre obedece aos sinais de trânsito.
Forma incorreta: O soldado desobedeceu o tenente.
Forma correta: O soldado desobedeceu ao tenente.
20 – Preferir
Este verbo pede como regência a preposição “a” antes do objeto menos estimado. Não é correto o uso de “do que”.
Forma incorreta: Prefiro consumir todo o meu salário no restaurante do que gastá-lo na farmácia.
Forma correta: Prefiro consumir todo o meu salário no restaurante a gastá-lo na farmácia.
21 – Intervir
O verbo “intervir”, bastante comum na redação do Enem (que exige uma “proposta de intervenção”), é quase sempre empregado de maneira equivocada. Esse verbo é derivado do verbo “vir”, e não do verbo “ver”, por isso funciona como o verbo “vir” (com “inter” na frente). Veja exemplos:
Forma incorreta: A polícia interviu para afastar os manifestantes.
Forma correta: A segurança interveio para acalmar os ânimos.
Forma correta: As Forças Armadas intervieram para encerrar os protestos.
22 – Possuir
É muito comum verificar, no texto escrito, o uso indevido do verbo possuir, que deve ser empregado, a rigor, com sentido de posse de algo concreto. É preciso, portanto, desmistificar a ideia de que o verbo ter é coloquial. Veja exemplos:
Forma incorreta: Muitos jovens possuem o desejo de ingressar na faculdade.
Forma correta: Muitos jovens têm o desejo de ingressar na faculdade.
Forma correta: Muitos brasileiros ainda não possuem casa própria.
23 – Assistir
O verbo assistir apresenta dois sentidos diferentes, um deles como transitivo indireto (com preposição), outro como transitivo direto (sem preposição). No primeiro caso, que é o mais comum no dia a dia e nas redações do Enem, esse verbo demanda a preposição “a” (assistir a algo) e é sinônimo de “ver”. No segundo caso, sem preposição, o verbo assume o significado de “prestar assistência”, “ajudar”. Veja os exemplos:
Forma correta: O público assistiu incrédulo ao último episódio da série.
Forma correta: A equipe médica assistiu o paciente na emergência.
24 – Aspirar
O verbo “aspirar” é mais um que apresenta dois sentidos e duas regências diferentes. Quando empregado como transitivo direto (sem preposição), ele significa “inalar” ou “respirar”. Quando empregado como transitivo indireto (com preposição), significa “pretender” ou “desejar”. Veja esses usos:
Forma correta: O soldado aspirou um gás tóxico.
Forma correta: Aquela cientista aspira a um cargo no Ministério da Saúde.
Forma correta: A economista aspira à posição de presidente da empresa.
25 – Mesmo
A palavra “mesmo” pode, entre outras classificações, ser um pronome demonstrativo que atua como acompanhante de um substantivo ou outro pronome. No entanto, muitos falantes, equivocadamente, utilizam essa palavra para substituir os pronomes pessoais “ele” e “o”. Veja os exemplos:
Forma incorreta: Percebe-se, no mundo e, em especial, no Brasil, um profundo descontentamento com a política. Desse modo, deixou-se de acreditar que ela (mesma) fosse capaz de melhorar as vidas das pessoas.
Forma correta: Percebe-se, no mundo e, em especial, no Brasil, um profundo descontentamento com a política. Desse modo, deixou-se de acreditar que a mesma fosse capaz de melhorar as vidas das pessoas.
26 – Contudo
É comum encontrar, em redações e textos de outros gêneros, o conectivo adversativo “contudo“ sendo empregado como conclusivo, no fechamento do texto ou mesmo em alguma passagem em que se pretende encerrar uma ideia. Veja exemplos:
Forma incorreta: O preconceito linguístico nada mais é que uma manifestação de ignorância, visto que não existe nenhuma razão para considerarmos um dialeto diferente do nosso inferior ou errado. Contudo, devemos ter a clareza de que nosso idioma é heterogêneo e de que todas as variantes regionais, ainda que sejam distintas, são manifestações adequadas da nossa língua.
Forma correta: O preconceito linguístico nada mais é que uma manifestação de ignorância, visto que não existe nenhuma razão para considerarmos um dialeto diferente do nosso inferior ou errado. Portanto, devemos ter a clareza de que nosso idioma é heterogêneo e de que todas as variantes regionais, ainda que sejam distintas, são manifestações adequadas da nossa língua.
27 – Conectivos
Alguns conectivos são polissêmicos (podem apresentar mais de um valor). A conjunção “como”, por exemplo, manifesta valor de causa, comparação ou conformidade. Entretanto, é preciso respeitar o valor da conjunção quando ela não é polissêmica. Um exemplo desse uso inadequado tem ocorrido com a conjunção “conforme”, que muitos passaram a usar como sinônimo de “à medida que”, que tem valor proporcional.
Forma incorreta: Conforme se investe na educação e na formação de capital intelectual, as sociedades tendem a progredir.
Forma correta: À medida que se investe na educação e na formação de capital intelectual, as sociedades tendem a progredir.
28 – Bastante
O bastante se apresenta de duas formas. Primeiro como um advérbio, situação em que ele é invariável e, portanto, não tem plural. Neste caso, ele está sempre ligado a verbos ou a adjetivos, sempre com valor de intensidade.
Na outra forma, comporta-se como um pronome adjetivo, razão pela qual ele é flexionado em número, apenas. Basta que esteja ligado a um substantivo para ganhar variação. Não tem a ver com a intensidade, mas com a quantidade. Uma boa dica é trocar o bastante pelo muito, que se comporta da mesma forma.
Forma correta: Nós ontem comemos bastante (ligado a um verbo).
Forma correta: Aquelas explicações ficaram bastante claras para mim (ligado ao “claras”, adjetivo).
Forma correta: Eu li bastantes livros (ligado a livros, substantivo).
29 – Cujo
Os pronomes relativos têm uma função de retomar um termo e conectar orações. Têm função de pronome, mas também de conjunção, porque unem orações. Há vários, mas o “cujo” é o mais peculiar, avaliam professores. Ele retoma um termo antecedente, mas também cria uma relação de posse entre o termo antecedente e o consequente, o que vem antes e depois.
Forma correta: O homem cujo carro comprei é meu amigo.
No exemplo, a frase poderia ser dita: “Eu comprei o carro do homem”. “O homem cujo o carro” equivale a dizer “O carro do homem”. Ao mesmo tempo que esse cujo retoma a palavra homem também cria uma relação de posse com a palavra carro que vem na sequência. Ou seja, o termo que vem antes passa a ser o possuidor do termo que vem depois.
Forma incorreta: O homem cujo o carro comprei.
Ele já marca o gênero do termo que vem depois. Por isso, ele concorda com esse termo.
Forma correta: O homem cuja moto comprei.
Forma correta: A matéria cujas minúcias são difíceis é a minha preferida.
30 – Meio x Meia
“Meio” é a expressão empregada no sentido de “um pouco”. “Meia” pode ter o significado de peça de roupa (meia que se coloca no pé), metade ou numeral.
Forma correta: A candidata saiu meio confusa da sala.
Forma correta: Comi meia maçã antes de sair.
Forma correta: A reunião está marcada para meio-dia e meia. (metade da hora)
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