Em meio a um conflito que já dura quase seis semanas e provocou impactos diretos no equilíbrio geopolítico e no mercado global de energia, Estados Unidos, Irã e Israel anunciaram um cessar-fogo provisório de duas semanas na noite desta terça-feira . A decisão foi formalizada pelo presidente Donald Trump às vésperas do prazo final imposto a Teerã para reabrir o Estreito de Ormuz, em um movimento que surpreendeu aliados e críticos. Segundo a The Associated Press, a mudança de posição ocorre após pressões diplomáticas e avaliações militares sobre os custos de uma eventual ocupação prolongada da região.
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Horas após o início da trégua, o Estreito de Ormuz já voltou a registrar movimentação intensa de navios, indicando a reabertura prática da rota estratégica para o comércio global de energia. Dados de monitoramento marítimo mostraram dezenas de embarcações cruzando a passagem na manhã desta quarta-feira, após o Irã se comprometer a permitir a circulação durante o período do cessar-fogo.
Primeiros navios cruzam o Estreito de Ormuz após cessar-fogo e sinalizam retomada gradual do tráfego
Reprodução/Marine Traffic
A trégua, no entanto, surge cercada de incertezas e questionamentos sobre sua viabilidade, especialmente diante de propostas consideradas conflitantes entre as partes envolvidas.
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Pressão, ultimato e mudança de postura
De acordo com a AP News, Trump passou, ao longo de um único dia, de ameaçar a “aniquilação” do Irã — chegando a afirmar que “uma civilização inteira morreria” caso suas exigências não fossem atendidas — a anunciar que considerava “viável” um plano apresentado pela liderança iraniana. O acordo foi divulgado cerca de 90 minutos antes do prazo final estabelecido pelos Estados Unidos.
Trump ameaça Irã e diz que ‘uma civilização inteira vai morrer esta noite’ caso República Islâmica não chegue a acordo com os EUA
Reprodução: Truth Social
A escalada retórica ocorreu em paralelo a uma intensa movimentação diplomática. O Paquistão, sob liderança do primeiro-ministro Shehbaz Sharif, atuou como principal mediador, solicitando a extensão do prazo por duas semanas para permitir o avanço das negociações. Ao mesmo tempo, a China — maior parceira comercial do Irã — mobilizou esforços discretos para evitar a ampliação do conflito, segundo fontes governamentais ouvidas pela AP.
Iranianos formam correntes humanas em torno de pontes e centrais elétricas horas antes de fim de ultimato de Trump
Reprodução / Mehr News Agency
Pouco antes do anúncio do cessar-fogo, o governo iraniano havia indicado que poderia abandonar as negociações após as ameaças públicas feitas por Trump.
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Em resposta, o regime convocou manifestações, com civis formando um escudo humano ao redor de usinas termelétricas. Posteriormente, o chanceler iraniano sinalizou disposição para reabrir o estreito durante o período da trégua.
Iranianos reagem após o anúncio de um cessar-fogo na praça Enqelab, em Teerã
AFP
O tema deve dominar a reunião prevista entre Trump e o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, na Casa Branca.
O cálculo militar: uma guerra longa e custosa
A AP News aponta que um dos fatores centrais para o recuo foi o custo estratégico de tentar retirar o controle iraniano do Estreito de Ormuz. A passagem, localizada entre o Irã e Omã, concentra cerca de 20% do fluxo global de petróleo, sendo considerada vital para a economia internacional.
Especialistas ouvidos pela The Associated Press avaliam que, embora os Estados Unidos tenham capacidade de assumir rapidamente o controle da região, manter essa posição exigiria um compromisso militar de grande escala e longa duração. O analista Ben Connable, do Battle Research Group, afirmou que seria necessário controlar aproximadamente 600 quilômetros de território iraniano — da ilha de Kish até Bandar Abbas — para evitar ataques com mísseis contra embarcações.
Analistas de defesa concordaram em grande parte que as forças armadas dos EUA poderiam assumir rapidamente o controle do Estreito de Ormuz
Fazry Ismail/AFP
Essa operação demandaria entre 30 mil e 45 mil soldados americanos, o equivalente a três divisões de infantaria. Ainda segundo Connable, o envolvimento poderia se estender por décadas. “Esta seria uma operação por tempo indeterminado — pense em algo como 20 anos”, afirmou, ao comparar o cenário com conflitos anteriores enfrentados pelos EUA, como no Afeganistão, Vietnã e Iraque.
A avaliação de risco é reforçada pelo histórico da República Islâmica. Ao longo de 47 anos, o país demonstrou disposição para sustentar conflitos prolongados, como na crise dos reféns entre 1979 e 1981, que durou 444 dias, e na guerra contra o Iraque. Além disso, o Irã manteve alianças com grupos como Hamas e Hezbollah, e apoiou o governo de Bashar al-Assad.
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Mesmo enfraquecida militarmente, a liderança iraniana indicava confiança de que poderia prolongar o conflito e impor custos elevados aos Estados Unidos, ainda que não conseguisse derrotar diretamente suas forças armadas.
Termos do acordo e reações internacionais
O cessar-fogo provisório prevê uma medida inédita: a autorização para que Irã e Omã cobrem taxas de embarcações que atravessem o Estreito de Ormuz. De acordo com um funcionário regional ouvido pela AP, o governo iraniano pretende utilizar esses recursos para financiar a reconstrução do país. Não há clareza, até o momento, sobre a destinação da arrecadação por parte de Omã.
Historicamente, o estreito sempre foi considerado uma via marítima internacional sem cobrança de pedágios, o que torna a medida alvo de críticas. O senador democrata Chris Murphy afirmou que o acordo representa, na prática, a concessão de controle estratégico ao Irã, classificando a decisão como uma “vitória histórica” para Teerã.
No campo político, Trump também enfrentou resistência interna. Parlamentares democratas criticaram as ameaças iniciais do presidente, classificando-as como uma “falha moral”. O papa Leão XIV, por sua vez, alertou que ataques contra infraestrutura civil violariam o direito internacional, considerando as declarações “verdadeiramente inaceitáveis”.
Apesar das críticas, a Casa Branca defendeu a estratégia adotada. A secretária de imprensa Karoline Leavitt afirmou que o desempenho militar dos Estados Unidos criou condições favoráveis para a negociação. Segundo ela, a combinação de pressão e diplomacia abriu caminho para uma solução de longo prazo.
A lógica do confronto e da negociação
De acordo com a The Associated Press, o episódio também reforça um padrão já observado na atuação de Trump: a adoção de posições iniciais maximalistas, seguidas de recuos estratégicos. O presidente já utilizou prazos semelhantes em outras ocasiões, como em decisões militares e negociações internacionais, incluindo tratativas sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia.
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Esse comportamento também se repetiu em políticas econômicas. Após anunciar tarifas amplas em 2025, Trump voltou atrás diante da reação negativa dos mercados. Situação semelhante ocorreu durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, quando sugeriu o controle da Groenlândia e posteriormente abandonou a proposta.
Manifestantes no Irã comemoram o cessar-fogo
Reprodução/Redes sociais
No caso atual, a escolha por um cessar-fogo temporário parece refletir não apenas pressões diplomáticas, mas também a tentativa de evitar o envolvimento dos Estados Unidos em um novo conflito de longa duração — cenário que o próprio presidente havia prometido evitar.
Ainda assim, persistem dúvidas sobre os desdobramentos. O Irã mantém sua posição de continuar o enriquecimento de urânio e exige garantias de que não será alvo de novos ataques, além de compensações pelos danos sofridos. Ao mesmo tempo, a manutenção do controle sobre o Estreito de Ormuz segue como ponto central de tensão.

