A fala de Jorge Jesus e a complacência de Ancelotti com Neymar — não apenas ao convocá-lo, mas ao colocá-lo em campo num jogo decisivo — põem um elefante do tamanho do Atlântico entre os técnicos de Portugal e Brasil para o próximo ciclo.
Porque uma das duas avaliações está profundamente errada. Ou Jorge Jesus foi irresponsável e exagerado ao falar de um ex-jogador seu, com quem trabalhou há menos de dois anos e que, menos de uma semana antes, ainda disputava uma oitava de final de Copa do Mundo. Ou Ancelotti cometeu um erro crasso, difícil de conciliar com a experiência de um homem que passou a vida avaliando jogadores, limites físicos e vestiários.
Não há muito espaço para conciliação. Jesus não pode estar apenas um pouco certo, nem Ancelotti apenas um pouco errado. São dois treinadores com décadas de bola. Sabem que um jogador não pode estar, ao mesmo tempo, acabado para o alto nível e apto a entrar pela seleção brasileira numa partida decisiva de Copa.
É isso que torna a frase de Jesus tão pesada. Ela não prova nada além do que foi dito, nem autoriza atalhos conspiratórios. Mas obriga a reabrir perguntas que a eliminação já havia colocado sobre a mesa: quais foram os critérios da convocação, quanto pesou o nome de Neymar e em que momento a memória do jogador se sobrepôs ao jogador que ainda existia.
A vantagem de Jorge Jesus é o momento. Falou agora, diante dos microfones, enquanto o Brasil ainda tenta organizar os cacos da eliminação. Ancelotti foi descansar no Canadá. Num debate assim, quem ocupa primeiro o silêncio quase sempre larga na frente.

