O historiador britânico Niall Ferguson afirmou, nesta quinta-feira, que a economia brasileira recebeu um “choque adicional” com a extensão da guerra entre Estados Unidos e Irã, conflito classificado por ele de “Terceira Guerra do Golfo”. A declaração foi feita durante a Expert XP, em São Paulo. Na avaliação do autor de “A ascensão do dinheiro”, com o fechamento do Estreito de Ormuz e o barril do petróleo próximo de US$ 100, o conflito provoca um efeito inflacionário global que pode desencadear uma crise da dívida na América Latina.
— Não é apenas o fornecimento de fertilizantes que é afetado. Não somente a indústria petroquímica da Ásia é afetada. A economia global também é afetada. E estamos aqui no Brasil, que é um país bastante intensivo em commodities, e que está se tornando mais intensivo a cada ano, e já tem algumas das taxas de juros reais mais altas do mundo. Vocês estão recebendo um choque adicional com a extensão desta guerra e o impacto que ela está tendo na inflação global.
O vencedor do Emmy de melhor série documental em 2010, por sua adaptação audiovisual de ” A ascensão do dinheiro” e estrela do Hoover Institution da Universidade Stanford avalia que as consequências do prolongamento do conflito “me fazem olhar para esta parte do mundo e perguntar: estamos no caminho certo?”.
— Construímos um sistema complexo e um choque no Estreito de Ormuz tem a capacidade de desencadear uma crise da dívida do outro lado do mundo — afirmou
Ferguson lembrou que parte da administração do presidente Donald Trump consideravam de fato ser possível replicar no Irã a mesma estratégia adotada na Venezuela após a ação militar que depôs o ditador Nicolás Maduro, hoje encarcerado em Nova York, com o objetivo de “encontrar uma versão iraniana de Delcy Rodríguez”, em referência à presidente interina da Venezuela.
O resultado, no entanto, foi o fortalecimento da linha-dura miitar do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC):
— Ouvi conversas sobre isso com certa incredulidade, pois parecia bastante improvável que funcionasse em um contexto tão diferente quanto o do Irã. Obviamente, deu muito errado.
Ferguson destacou ainda que o novo governo iraniano tomou medidas que surpreenderam Washington. A primeira foi o uso de drones e mísseis para consolidar o controle sobre o Estreito de Ormuz. A segunda foi a retaliação contra países vizinhos do Golfo, especialmente os Emirados Árabes Unidos, expondo a vulnerabilidade da região a ataques aéreos.

