A avó que busca os netos na escola, prepara o almoço ou ajuda nos cuidados da família pode representar muito mais do que uma figura de afeto. Para a ciência, ela pode ter desempenhado um papel decisivo na própria evolução humana.
Essa é a chamada Hipótese da avó (“Grandmother hypothesis”), proposta pela antropóloga Kristen Hawkes e colaboradores em um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), em 1998, mas que segue sendo respeitada até hoje.
A ideia tenta responder a uma pergunta que intriga os cientistas há décadas: por que as mulheres vivem tantos anos após o seu período fértil, algo raro no mundo animal?
Segundo a hipótese, mulheres que já não podiam mais ter filhos aumentavam as chances de sobrevivência de seus genes ao ajudar na criação dos netos. Ao cuidar das crianças e contribuir para a obtenção de alimentos, elas permitiam que suas filhas tivessem novos filhos em intervalos menores. O resultado seria um aumento no número de descendentes sobreviventes ao longo das gerações.
Os pesquisadores basearam a teoria em observações de populações caçadoras-coletoras Hadza, na Tanzânia. Nessas comunidades, as avós continuam produtivas por muitos anos após a menopausa e desempenham um papel importante na alimentação das crianças que já deixaram de mamar, mas ainda não conseguem obter comida sozinhas.
A hipótese continua sendo objeto de pesquisas e debates. Em uma revisão publicada em 2021 na PNAS, pesquisadores concluíram que o papel das avós provavelmente é apenas uma das peças que explicam a longa vida das mulheres após a menopausa. Segundo os autores, fatores como o apoio de outros familiares, mudanças na história de vida humana e diferentes pressões evolutivas também devem ser considerados. Ainda assim, eles destacam que a hipótese da avó permanece como uma das explicações mais influentes para esse fenômeno.
Embora não exista consenso de que a atuação das avós explique sozinha esse fenômeno, a ideia mudou a forma como cientistas enxergam o envelhecimento humano. Em vez de considerar os anos após a menopausa apenas como um período sem função reprodutiva, a hipótese sugere que essa fase pode ter trazido vantagens evolutivas importantes para toda a família — e, possivelmente, para a própria espécie.
Vários estudos matemáticos, simulações de computador e análises de dados históricos (como registros de famílias dos séculos XVIII e XIX) comprovaram que a presença de uma avó materna aumentava significativamente a chance de sobrevivência dos netos e permitia que as filhas tivessem mais filhos.
Críticas e outras hipóteses
Hoje, a Hipótese da Avó é considerada uma das principais explicações para a evolução da menopausa humana, mas está longe de ser a única. Ao longo dos anos, surgiram novas evidências e outras teorias para explicar por que as mulheres vivem décadas após o fim da vida reprodutiva.
Um estudo publicado na revista Science mostrou que algumas populações de chimpanzés selvagens também passam pela menopausa. Como as fêmeas mais velhas não participam da criação dos netos, a descoberta sugere que a Hipótese da Avó pode não explicar, sozinha, a origem da menopausa. Em outras palavras, o fenômeno pode ter surgido por diferentes pressões evolutivas.
Outra explicação é a hipótese do conflito reprodutivo. Segundo essa teoria, a menopausa teria evoluído para reduzir a competição entre mulheres de diferentes gerações — como mãe e filha ou sogra e nora — pelos recursos necessários para criar filhos ao mesmo tempo.
Há ainda pesquisadores que defendem que a maior longevidade humana está ligada à evolução de cérebros maiores e de um ciclo de vida mais longo. Nesse cenário, a menopausa seria consequência do fato de as mulheres nascerem com um número finito de óvulos: como passaram a viver muito mais do que seus ancestrais, a capacidade reprodutiva simplesmente termina antes do fim da vida, sem que isso tenha sido uma adaptação evolutiva específica.

