Se estivesse vivo, o cearense Belchior (1946-2017) completaria 80 anos em outubro. Mas, de certa forma, ele está. Em 2019, o “AmarElo” de Emicida conquistou o Brasil com os versos de “Sujeito de sorte”; em 2021, Ana Cañas revisitou o repertório do artista em um dos 50 melhores discos brasileiros daquele ano, segundo a APCA. Isso sem falar nos relançamentos de discos e nas biografias do autor de “Apenas um rapaz latino-americano”. Neste sábado (8), ele ganha mais uma homenagem: os amigos Chico Chico e Juliana Linhares celebram a força, a lucidez e a atualidade da sua obra em um show inédito no festival Doce Maravilha, no Rio de Janeiro.
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— Belchior nunca escreveu para confortar ninguém. Ele escrevia para inquietar. É isso que faz com que a obra continue tão viva. As perguntas que ele fazia ainda estão abertas: o que fazemos com os nossos sonhos quando a realidade é tão dura? Como envelhecemos sem envelhecer a nossa capacidade de desejar a renovação das coisas? — acredita Juliana. — Mesmo exausto e marginal, ele tinha sempre uma esperança voraz de transformação. E isso dialoga com o país que vive sempre numa corda bamba da necessidade de se sustentar politicamente, socialmente e artisticamente.
Chico Chico concorda no que diz respeito às “críticas sociais que ainda cabem no mundo de hoje” e vai além:
— Ele também retrata os acontecimentos e dilemas da vida, (que são) questões inerentes a qualquer pessoa, então as músicas sempre serão atuais. Além da memória afetiva que elas trazem.
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Das marcas deixadas pelo artista, Chico destaca “a sinceridade nas letras e a sonoridade que ele e os artistas conhecidos como ‘pessoal do Ceará’ trouxeram para a música brasileira”. Para Juliana, Belchior a ensinou que uma canção “pode fazer pensar”:
— Ela pode carregar filosofia, literatura, política e ser profundamente popular. Isso é uma das coisas que mais amo na obra dele: o quanto a voz pode ser um canto “feito faca”, fazer denúncias e ser uma poesia muito verdadeira.
Representante da “nova geração da MPB” — ou melhor, de uma das tantas novas gerações —, a potiguar Juliana, de 36 anos, tem conquistado crítica e público desde o começo da carreira. Seu trabalho de estreia, “Nordeste ficção”, assim como o álbum de Ana Cañas com versões de Belchior, também esteve entre os 50 melhores álbuns brasileiros de 2021 da APCA. Recentemente, Juliana lançou “Até cansar o cansaço”, álbum com uma regravação de… “A palo seco”, de Belchior.
Sobre a música brasileira feita hoje, a artista defende que é possível reverenciar a tradição sem acreditar que os melhores tempos ficaram para trás.
— Como dizia o próprio Belchior, “o novo sempre vem”. E o novo está aí, né? Eu não sou saudosista, não. Referencio a minha obra com o devido cuidado e reverencio os meus mestres e mestras da música brasileira. Acredito que a música está muito viva. O que mudou são os meios de fazer e de mostrar. Mas tenho muita certeza, desde que comecei, do quanto a gente, hoje, continua fazendo uma obra muito bonita da música brasileira. Tem muita gente fazendo música brasileira de qualidade, contemporânea — garante.
E conclui:
— Então acho que é mais sobre a gente buscar formas de fomentar e de colocar isso para as pessoas, assim como o Belchior conseguiu se tornar popular. As pessoas às vezes ficam com um pensamento equivocado porque consomem muito o que está sendo mais promovido, mas isso não quer dizer que a música morreu. Acredito muito na música brasileira hoje. Acredito porque vivo.

