Nas últimas décadas, grandes torres de aço e vidro de frente para o mar ajudaram a moldar a imagem que muitas pessoas têm da Grande Miami. Mas, num ponto específico da região, a tradição continua sendo sinônimo de luxo. Estamos falando de South Beach, o bairro mais charmoso de Miami Beach, onde a herança art déco sobrevive em centenas de edifícios dos mais variados portes e usos, e ganha novo fôlego com uma recente onda de renovações de hotéis históricos, como o Delano Miami Beach, que voltou a funcionar em junho, e o The Shelborne by Proper, reaberto em 2025.
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Apresentado ao mundo em 1925, durante a Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, em Paris, o art déco ganhou o mundo nas décadas de 1930 e 1940 com sua combinação de elementos que valorizava formas geométricas bem definidas, linhas retas, materiais nobres e elementos decorativos que faziam uma conexão entre civilizações antigas e o momento de inovações tecnológicas do começo do século XX.
Destruída por um furacão de enormes proporções em setembro de 1926, Miami Beach encontrou no art déco um caminho para sua reconstrução, nas décadas seguintes. Por isso a cidade, em especial South Beach, concentra hoje uma das maiores coleções de prédios art déco no mundo, com cerca de 800 exemplares, protegidos dentro do chamado Art Deco District. A região é considerada um “museu vivo do design do século XX” por Sierra Manno, gerente de operações da Miami Design Preservation League, entidade criada nos anos 1970 para preservar os estilos arquitetônicos tradicionais da região.
— O grande diferencial de Miami é o nascimento do chamado “tropical déco”. Enquanto o art déco em outras cidades focava frequentemente em materiais como cromo e mármore, com uma estética mais austera, o estilo de Miami é lúdico e náutico. Os arquitetos da época entenderam que o estilo precisava dialogar com o clima quente e a atmosfera costeira. Em vez de restringir a arquitetura a materiais rígidos, eles incorporaram uma paleta de cores pastel: tons de rosa, azul, roxo, verde e amarelo que refletem a luz solar tropical — explica Sierra. — E o Delano é um marco fundamental do estilo, um ícone máximo do glamour e da elegância do movimento na cidade.
Torre do hotel Delano, que reabriu ao público após seis anos em reforma: prédio é um dos mais conhecidos exemplares de Art Déco em Miami Beach
Eduardo Maia/O Globo
Inaugurado em 1947, o Delano consolidou o movimento que transformou South Beach num dos destinos mais glamourosos dos Estados Unidos da época, atraindo artistas, estrelas de Hollywood e figurões de todo o tipo. Esse clima de sofisticação e elegância foi mantido no hotel, que preservou importantes elementos do art déco, como sua icônica torre, que pode ser vista de boa parte da cidade. Mas também ganhou ares mais modernos após a reforma completa, que levou seis anos e custou US$ 100 milhões. O hotel reabriu oficialmente em junho, agora com 171 quartos e suítes, incluindo as duas novas Pent ouse Suites, que ocupam a toda a cobertura, no 14º andar, com vistas privilegiadas para a cidade e para o mar.
Outra aposta é a oferta gastronômica. Além da volta do clássico Rose Bar, que volta renovado no lobby, o hotel apresentará os novos restaurantes Mimi Kakushi e Gigi Rigolatto, que, assim como o próprio art déco, surgiram em Paris e chegam para suas primeiras unidades nos Estados Unidos. O primeiro se inspira na Osaka dos anos 1920 para oferecer culinária japonesa tradicional e contemporânea, num ambiente exclusivo para os hóspedes. Já o segundo ocupa tanto um salão interno quanto uma área ao ar livre ao redor da piscinas, com cardápio italiano. O hotel conta ainda com o spa Source by Delano e um clube privado, que pretende reunir a nata da cidade.
De centro de treinamento militar aos Beatles
Entrada do hotel The Shelborne by Proper, um dos endereços mais tradicionais de South Beach, em Miami Beach
Eduardo Maia/O Globo
O Delano é o nome mais do trecho da Collins Avenue onde se concentram os maiores e mais sofisticados hotéis de South Beach, e que oferecem as melhores opções para quem quer uma imersão no state of mind de Miami Beach, com entrada principal pela avenida e acesso exclusivo para o calçadão de pedestres que leva à praia, além de serviço próprio na areia.
É exatamente o caso do The Shelborne by Proper, hotel repleto de História que representa bem a transição entre o art déco e o MiMo, o Miami Modern, movimento arquitetônico que surgiu logo em seguida, se popularizando nos anos 1950 e 1960.
A charmosa piscina no estilo anos 1950 é um dos destaques do hotel The Shelborne by Proper, em Miami Beach
Eduardo Maia/O Globo
Inaugurado em 1941, foi usado como base de treinamento para militares americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Com o fim do conflito, passou por sua primeira ampliação, quando ganhou a célebre marquise redonda e se transformou num dos endereços mais badalados da cidade, com hóspedes como Frank Sinatra, Marilyn Monroe e os Beatles nos anos 1960.
Após anos menos brilhantes, a propriedade foi adquirida pelo grupo californiano Proper Hospitality, que realizou uma grande reforma, também no valor de US$ 100 milhões. Ao final das obras, em maio de 2025, o que se viu foi um equilíbrio entre a elegância vintage e sofisticação contemporânea.
Bar Little Torch, que combina ambiente convidativo e bons drinques junto ao lobby do hotel The Shelborne by Proper, em Miami Beach
Eduardo Maia/O Globo
A fachada, com a marquise arredondada, e área da piscina, com um trampolim estiloso, guarda-sóis e espreguiçadeiras em tons verdes e um bar anexo, preservam o charme dos anos 1950. Já as áreas comuns do lobby, do restaurante e a decoração dos 251 quartos (todos com vista para o mar ou para a piscina) dão um ar contemporâneo ao hotel.
A combinação de mármore rosado, tons pastéis e móveis de madeira clara se espalha pela recepção, pelo convidativo bar Little Torch, pelo restaurante de frutos do mar Pauline (ambos supervisionados pelo estrelado chef Abram Bissell) e pelos quartos e suítes. E por todos os lados, hóspedes e visitantes podem apreciar diversas obras de artistas latino-americanos.
Um dos 251 quartos do hotel The Shelborne by Proper, em Miami Beach
Eduardo Maia/O Globo
O hotel conta ainda com serviço exclusivo na areia, academia 24 horas, bicicletas à disposição e carros elétricos que dão carona para os hóspedes num raio de três quilômetros, o suficiente para levar até qualquer ponto do Art Deco District.
Canteiro de obra à beira-mar
A praia de South Beach, em Miami, vista a partir de um dos quartos do hotel The Shelborne by Proper
Eduardo Maia/O Globo
Delano e Shelborne são dois exemplos da onda de renovação de hotéis tradicionais de South Beach, um movimento que se intensificou ao longo desta última década. Na própria Collins Avenue é possível encontrar outros endereços clássicos que estão passando ou passaram recentemente por reformas importantes.
Em 2020, por exemplo, o icônico Ritz-Carlton South Beach reabriu após uma grande reforma, levada a cabo após o cinco estrelas ser bastante danificado pelo Furacão Irma, de 2017. Já o National Hotel, de 1939, aproveitou a pandemia para uma pequena renovação, que deixou brilhando sua herança art déco em 2021. Em 2022 foi a vez do Kimpton Surfcomber, outro exemplar dos anos 1940, passar por uma repaginada. Obras também andaram acontecendo no Sagamore, que não chegou a fechar as portas, mas nos últimos anos renovou parte de seus quartos e modernizou sua piscina.
O canteiro de obras ainda segue em outros hotéis da avenida. No Nautilus, os trabalhos estão num estágio mais adiantado, com previsão de conclusão para o final do ano, quando reabrirá com 250 apartamentos, seguindo a mesma fórmula de combinar a arquitetura original, do começo dos anos 1950, com elementos contemporâneos. Já o Raleigh, um dos hotéis mais célebres da Grande Miami, a situação parece ser mais complicada, sem previsão de reabertura.
Eduardo Maia viajou a convite da Norwegian Cruise Line e com apoio de The Shelborne by Proper.

