Muito se fala sobre etarismo, uma palavra que até pouco tempo ninguém sabia que existia. Em alguns países orientais os mais velhos são reverenciados como pessoas sábias. Mas no Brasil não importa quanto sucesso você fez ou o quanto contribuiu com algo: quando chega numa certa idade todo mundo tem que seguir a cartilha do envelhecer. Especialmente se você é mulher. Caso não siga a cartilha, ou seja, não atenda às expectativas impostas pela sociedade de envelhecer dentro dos padrões da moralidade, se prepare pra zerar o dicionário de xingamentos machistas e misóginos.
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O que se viu nesses últimos dias, com tantos julgamentos sobre o corpo e as roupas da Xuxa em seu show “O Último Voo da Nave”, diz muito sobre nós. Digo “nós” porque boa parte dessa cartilha e fiscalização muitas vezes vem das próprias mulheres. Das que se escondem nos comentários até as ditas “influencers da moral” que fingem um discurso de crítica social só pra lacrar e ganhar likes em cima das atitudes de outras mulheres. A internet virou um refúgio de gente frustrada que arrumou um lugar pra destilar ódio disfarçado de opinião, usando o moralismo e a política pra angariar pessoas igualmente frustradas e desinformadas.
Mulheres reféns dos padrões, com seus procedimentos e magreza extrema, que se acham revolucionárias por julgarem corpos alheios. A verdadeira cafonice do Brasil. E o mais triste: ver outras mulheres curtindo, comentando e se sentindo importantes porque alguém destilou todo o preconceito que elas não tiveram coragem de mostrar.
Enquanto isso, nas escolas, meninas seguem fazendo bullying com as outras, os pais permanecem omissos e os educadores seguem preocupados com a relação violenta entre elas. Tenho uma filha adolescente e vejo claramente como a rivalidade feminina começa cedo. Comentários maldosos sobre os corpos das outras, adjetivos num tom pejorativo, exclusão de grupos, falta de empatia e dificuldade de aceitar quem é diferente. Muitas vezes com meninos incentivando tudo de camarote. Já falei pra minha filha que, cada vez que as meninas brigam entre si, os meninos se sentem mais à vontade pra julgá-las. Um grupo de meninas unidas é o melhor antídoto contra qualquer dominação.
Feminicídio, voto feminino sendo ameaçado, crianças sendo abusadas, violência doméstica e vocês, caras amigas, gastam tempo e voz falando do corpo de outra mulher?
Xuxa lotou, aos 63 anos, um estádio por duas noites com pessoas 40+ relembrando uma época e a própria história. Era uma comemoração. E o olhar pro deslize foi o que ficou? Que olhar adoentado é esse, caras amigas, que ignora uma superprodução e foca na virilha de alguém que resolveu envelhecer celebrando a vida? O que isso traz de bom pra alguém? Qual o exemplo que vocês querem deixar pra esse mundo? Não só para as meninas mas também para os meninos que se sentem no direito de criticar o corpo feminino e achar isso normal.
Porque o elogio também é uma forma de transformação. Seus filhos aprendem gentileza com vocês e é assim que, futuramente, vão saber viver relações gentis. As críticas que viralizam não servirão em nada pra criar seres humanos melhores e nem ajudam a sociedade a entender que os corpos das meninas não pertencem aos homens.
Espero que os likes preencham a alma dessas pessoas e façam valer a pena uma existência tão medíocre. Gastar uma vida diminuindo quem vive e envelhece com as mesmas dores que você é de uma pequenez de espírito sem tamanho.
Vocês poderiam ter visto alegria e liberdade no palco. Mas enquanto uma geração inteira olhava para o céu, vendo a nave voar, vocês escolheram olhar pra baixo. E Xuxa, rainha que é, seguiu cumprindo a cartilha do envelhecer em que eu acredito: continuar voando.

