É fácil entender o sucesso mundial de “A última casa”, suspense da Netflix que estreou neste início de agosto de 2026 e logo pulou para o primeiro lugar entre os filmes mais vistos da plataforma no mundo. A premissa, sobre uma família impedida de sair de casa por eventos misteriosos, desperta aquela vontade de ver até o final, nem que seja só para saber o que acontece. Além disso, aos olhos dos espectadores internacionais, os protagonistas Wagner Moura (de “O agente secreto”) e Greta Lee (de “Vidas passadas”) são talentos que furaram a bolha da cultura indie e colocaram o pé no mainstream. É o tipo de filme que atrai públicos muito variados por motivos diferentes: vai desde o espectador cabeça que acha que vai assistir a uma variação de “O anjo exterminador” (1962), de Luis Buñuel, até o adolescente que adorou “Um lugar silencioso” (2018), de John Krasinski.
No entanto, é frustrante testemunhar uma receita tão promissora dar tão errado.
Dirigido por Louis Leterrier (o mesmo de “Carga explosiva”, “Truque de mestre” e “Velozes & Furiosos 10”), “A última casa” até começa bem, mostrando como o casal Ann (Greta Lee) e Jason (Wagner Moura), sua filha, seu filho e seu cachorro simplesmente ficam trancados dentro de casa num dia qualquer de chuva. Portas e janelas não abrem; vidros e madeiras não quebram. Todos vão percebendo aos poucos que estão numa prisão, sem previsão de liberdade, mas com prazo para a comida acabar.
Dali em diante, o filme explora os gatilhos que a situação oferece. Há um momento, por exemplo, em que alguém precisa de remédio, mas não pode ir à farmácia buscá-lo. Outro em que bate o desespero porque a comida está perto de acabar. Seus personagens enfileiram sentimentos e estados de espírito. Uma hora é medo, na seguinte é delírio. Às vezes a família toda se diverte ouvindo The Cure; pouco depois, todos beiram a depressão e querem quebrar tudo.
Há, sim, o início de uma boa reflexão sobre convivência e confinamento, que parece ser o caminho a seguir. Mas aí a história faz uma curva e abraça o gênero da fantasia com “surpresinha”, que lembra mais o cinema de M. Night Shyamalan. É um desperdício. O longa-metragem abandona a possibilidade de ser uma obra existencialista sobre o sentido da vida e se transforma num terror light de mensagem ambiental, com sequências de ação que lembram os filmes B dos anos 1970.
Apesar das boas atuações, Wagner Moura e Greta Lee constroem protagonistas estranhos. Jason e Ann são perfeitinhos demais: bons pais, cidadãos e amigos, que se amam e parecem ter tudo no lugar. Como a trama é pouco densa, seus conflitos familiares se repetem e se resolvem rapidamente. Em meio a tanta normalidade, o roteiro tenta compensar com habilidades improváveis: Jason fabrica parafernálias para caçar pela chaminé, enquanto Ann aprende a cultivar uma horta dentro de casa a partir de restos de comida. É tudo tão sem pé nem cabeça que fica a impressão de que algum roteirista adorava assistir à antiga série “MacGyver”.
Então vêm a conclusão e a grande explicação que todos esperavam. E só piora. “A última casa” passa os 50 minutos finais dando voltas em torno das mesmas (falta de) ideias, tentando justificar um desfecho decepcionante.
Só que, quanto mais o filme explica, menos sentido ele faz.

