O futebol brasileiro conhece muito bem seus adversários latino-americanos, embora quase sempre só faça isso na manhã seguinte à eliminação. Antes do jogo, eles cabem em rótulos: o time da altitude, o argentino aguerrido, o peruano que complica em casa. Depois da derrota surgem nomes, títulos e movimentos ensaiados, e descobrimos que altitude, raça e pressão de caldeirão também vestem camisa e têm centroavante.
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O Botafogo repetiu esse ritual em quatro temporadas seguidas, e o capítulo mais recente ganhou forma aos 37 minutos em Cusco, quando o Cienciano já fazia 4 a 0. Franclim Carvalho chamou Arthur Cabral e Kauan Toledo para desfazer escolhas tomadas meia hora antes. O jogo terminaria em 6 a 1, com quatro gols surgidos de bolas levantadas ou jogadas laterais, justamente o tipo de ataque que o treinador disse ter considerado ao trocar os dois laterais. O plano não chegou vivo ao intervalo.
Além de fazer do Botafogo o primeiro brasileiro a sofrer seis gols de um adversário estrangeiro em competições da Conmebol, a derrota completou uma história em quatro tempos, todos com técnicos estrangeiros, e expôs uma soberba bem-comportada nas coletivas. O treinador elogia o rival e prega respeito, enquanto a súmula deixa titulares no banco, põe um garoto no lugar do centroavante experiente ou guarda a força máxima para uma partida que merece mais respeito. O adversário recebe elogios nas palavras e desconto na escalação.
Em 2023, o português Bruno Lage começou em casa uma quarta de final de Sul-Americana contra o Defensa y Justicia com oito reservas, com o Botafogo 11 pontos à frente no Brasileiro e ainda carente de títulos. O empate no Rio e a derrota na Argentina fizeram desaparecer uma chance de taça que teria dado outra moldura à temporada. Em 2024, Artur Jorge deixou quatro pilares no banco contra o Pachuca, do México, na Intercontinental. O cansaço da viagem ao Catar era brutal, mas os jogadores disponíveis estavam liberados pelo departamento físico e dosar o desgaste foi uma escolha. Ao planejar a rota que ainda passaria pelo Al Ahly antes de talvez terminar no Real Madrid, Artur escalou o futuro e perdeu o presente por 3 a 0.
O Botafogo repetiu esse ritual em quatro temporadas seguidas, e o capítulo mais recente ganhou forma aos 37 minutos em Cusco, quando o Cienciano já fazia 4 a 0. Franclim Carvalho chamou Arthur Cabral e Kauan Toledo para desfazer escolhas tomadas meia hora antes. O jogo terminaria em 6 a 1, com quatro gols surgidos de bolas levantadas ou jogadas laterais, justamente o tipo de ataque que o treinador disse ter considerado ao trocar os dois laterais. O plano não chegou vivo ao intervalo.
Além de fazer do Botafogo o primeiro brasileiro a sofrer seis gols de um adversário estrangeiro em competições da Conmebol, a derrota completou uma história em quatro tempos, todos com técnicos estrangeiros, e expôs uma soberba bem-comportada nas coletivas. O treinador elogia o rival e prega respeito, enquanto a súmula deixa titulares no banco, põe um garoto no lugar do centroavante experiente ou guarda a força máxima para uma partida que merece mais respeito. O adversário recebe elogios nas palavras e desconto na escalação.
Em 2023, o português Bruno Lage começou em casa uma quarta de final de Sul-Americana contra o Defensa y Justicia com oito reservas, com o Botafogo 11 pontos à frente no Brasileiro e ainda carente de títulos. O empate no Rio e a derrota na Argentina fizeram desaparecer uma chance de taça que teria dado outra moldura à temporada. Em 2024, Artur Jorge deixou quatro pilares no banco contra o Pachuca, do México, na Intercontinental. O cansaço da viagem ao Catar era brutal, mas os jogadores disponíveis estavam liberados pelo departamento físico e dosar o desgaste foi uma escolha. Ao planejar a rota que ainda passaria pelo Al Ahly antes de talvez terminar no Real Madrid, Artur escalou o futuro e perdeu o presente por 3 a 0.
Franclim Carvalho durante derrota histórica do Botafogo para o Cienciano
Vitor Silva/Botafogo
Veja mais: Botafogo iguala maior goleada e é 1° brasileiro a sofrer seis gols de time estrangeiro em competições da Conmebol
A sequência pertence ao Botafogo, mas o hábito circula por todo o país. Quando o adversário é River Plate ou Boca Juniors, nossa análise começa pelo time; diante de boa parte do continente, começa pelo acidente geográfico. A LDU vira altitude, o Cienciano vira Cusco, o Pachuca vira 31 dias de descanso e o Defensa, apenas um argentino esforçado. É um conforto, porque atribuir a derrota ao juiz, ao gramado, à viagem ou ao calendário preserva a hierarquia: o brasileiro continua superior no mundo abstrato, e ninguém precisa rever a preparação. O tropeço vira acidente e a certeza permanece intacta.
Altitude e cansaço pesam, mas nenhum deles cruza uma bola, organiza uma pressão ou escolhe onde atacar. O Cienciano acabara de devolver 4 a 0 ao então campeão Lanús; LDU, Defensa e Pachuca também carregavam títulos continentais. Eram adversários reais antes de derrotar o Botafogo, embora, no Brasil, só tenham conquistado esse direito depois.
Tem uma ironia particular nos quatro episódios, todos sob técnicos estrangeiros (três portugueses e o italiano Davide). A reconstrução recente do Botafogo deve muito a quem veio de fora, ampliou repertórios e, com Artur Jorge, conduziu o clube aos maiores títulos recentes. Junto com essas qualidades, veio uma segurança europeia no método que encontrou por aqui um vício antigo. Controle de carga, adaptação específica, convicção no modelo e gestão de elenco são ferramentas sérias, mas viram álibis quando conduzem à mesma conclusão: diante deste adversário, dá para oferecer um pouco menos.
Essa mistura cobrou sua conta em quatro oportunidades: uma Sul-Americana possível em 2023, o caminho até o Real Madrid em 2024, o bi da Libertadores em 2025 e uma chave até uma final redentora em 2026. A imprensa ajuda a sustentar a certeza ao discutir o adversário seguinte com conhecimento raso sobre o atual e usar orçamento, camisa e cotação para resolver a previsão. Se o brasileiro perde, buscamos altitude, juiz, gramado ou viagem. Matías Succar precisou marcar três vezes para boa parte do Brasil aprender seu nome. Se você ainda não conhece, ele é do Cienciano.
O favoritismo dos brasileiros é real, mas deveria descrever uma probabilidade, não funcionar como direito adquirido. A superioridade econômica deveria aumentar a responsabilidade de estudar, preparar e competir, enquanto muitas vezes serve como autorização para improvisar, poupar, não ligar. Nosso futebol gosta de explicar derrotas pela altitude, pelo juiz, pelo gramado e pela viagem, fatores reais. O que ele quase nunca admite é a existência do adversário. Em Cusco, ele precisou aparecer seis vezes no placar.
Botafogo sofreu goleada histórica do Cienciano
Jose Angulo / AFP

