Quando Dino Cantelli e Juliana Peres ouviram de Renata Sorrah, de 79 anos, que ela sempre fica nervosa com um novo personagem, respiraram aliviados.
— O Zé de Abreu também falou: “Estou com 80 anos e, a cada trabalho, é como se tivesse 15. Parece o primeiro” — conta Juliana.
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Estava liberado, então, sentir ansiedade pelo dia de amanhã, quando estreia “Por você”, nova novela das 19h da TV Globo e primeira da dupla como autores.
A história, com direção artística de André Câmara, gira em torno de Bela (Sheron Menezzes), obstetra do Hospital & Maternidade Luz. A médica nunca quis ser mãe, mas se vê obrigada a cuidar dos filhos da melhor amiga, Juli (Lucy Ramos), morta num acidente. E filhos no plural mesmo. Quatro ao todo: Peixe (Cauê Campos), Glorinha (Laura Luz), Ítalo (Fabrício Assis) e Samuca (Kadu Spinola).
‘Por você’: a nova família de Bela (Sheron Menezzes), com, da esquerda para direita, Peixe (Cauê Campos), Ítalo (Fabrício Assis), Glorinha (Laura Luz) e Samuca (Kadu Spinola)
Manoella Mello/Divulgação
— Era um desejo falar da maternidade contemporânea, da mulher que não quer ser mãe ou não tem isso como o primeiro desejo da vida, pois olha antes para a carreira e adia os planos. Muitas estão começando a ter filho com 40 e poucos anos — diz Juliana, carioca de 48.
Em parte, este foi o caso da autora. Ela teve uma filha aos 30, mas estritamente programada para nascer entre um trabalho e outro na TV. Embora assine pela primeira vez uma novela como titular, Juliana trabalha em folhetins desde “Mulheres apaixonadas”, de Manoel Carlos (1933-2026), exibida em 2003. Começou como pesquisadora (“se eu pesquisava sobre um parto, pedia para mandar já roteirizado, em forma de cena”, diz) e depois foi efetivada como colaboradora em “Páginas da vida”, em 2006, do mesmo Maneco, seu grande incentivador e mestre. Dali, foi passando por vários programas até esbarrar com Dino Cantelli em 2016, na elaboração da sinopse de “Malhação — Pro dia nascer feliz”, de Emanuel Jacobina.
A novelinha adolescente onde começou a parceria foi um dos primeiros trabalhos na Globo do catarinense, de 42 anos, nascido na pequeníssima Jacinto Macedo, cidade com dez mil habitantes.
— Era redator publicitário (em Florianópolis) e grande parte da minha vida foi fazendo anúncios de supermercado. Em 2008, entrei no Twitter para desovar minha criatividade e, então, comecei a ter contato com jornalistas do Sudeste, que me convidaram para trabalhos freelancer. Mudei-me para o Rio há 15 anos e tive uma chance na oficina de variedades da Globo — diz Dino, que começou no “Domingão do Faustão”, já passou por séries como “Tapas e beijos” (2015) e novelas como “Mar do sertão” (2022), e escreveu seu primeiro longa no ano passado, “Vítimas do dia”, disponível no Globoplay.
Oficina é um lugar que os dois conhecem bem. “Por você”, aliás, foi gestada em uma. Apesar de a ideia central da novela ter sido desenvolvida para uma série em 2019 (que não foi para a frente por causa da pandemia), a expansão da trama só ganhou corpo quando a dupla foi selecionada para o Cria Globo.
Sabendo que ninguém vira novelista da noite para o dia — e Janete Clair, que trabalhava em vários folhetins ao mesmo tempo, morreu em 1983 —, a emissora carioca desenvolveu essa iniciativa para preparar colaboradores para assumir a função. Veteranos são destacados para ajudar os selecionados a preparar um projeto, que pode ou não ir para a fila de produção. Duca Rachid foi a mentora e deu o suporte necessário para expandir a ideia de “Por você”.
—Antes do Cria, não conhecia o trabalho deles — diz Duca, uma das autoras de “A nobreza do amor”, no ar na faixa das 18h. —Quando os encontrei, fiquei encantada com a proposta da novela. Meu conselho foi que seguissem acreditando.
“Por você” tem a missão de superar os índices de “Coração acelerado”, que teve média geral, até segunda-feira passada em São Paulo, de 19,5 pontos. À mesma época, as antecessoras “Dona de mim” (2025) e “Volta por cima” (2024) tinham respectivamente 21,4 e 19,7. Para atiçar a curiosidade do público e garantir uma boa largada, os estúdios lançaram, na semana passada, uma novelinha vertical para as redes sociais da emissora.
O foco é a amizade de Juli e Bela antes do acidente que altera a vida da obstetra. A estratégia tem sido constante na dramaturgia: personagens de sucesso de uma novela são aproveitados nos microdramas, expandindo as possibilidades de consumo do que antes ficava só na televisão. Um exemplo de sucesso foi a novelinha do casal Loquinha, de “Três Graças”, focada na vida de Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky). Com a nova trama das 19h, porém, é a primeira vez que uma novelinha antecede a “novelona”.
— Nunca se consumiu tanto audiovisual como hoje — diz Dino. — Os 70 pontos dos anos 1980 já não significam a mesma coisa hoje. Sucesso hoje leva em conta várias coisas: audiência tradicional, rede social e boca a boca. Mas um bom balizador, para mim, é estar no barbeiro e alguém falar espontaneamente da médica da novela das 19h. Aí, acho que vencemos na vida.
A história de Bela (Sheron Menezzes) na Maternidade Luz se cruza com a de Vanessa (Alinne Moraes), filha do fundador do hospital e sucessora natural nos negócios. Sentindo-se ameaçada pelo trabalho da filha da empregada que virou colega de profissão, a nepobaby vai virar sua arquirrival.
—A nossa vilã é uma mulher competente, que faz acontecer, mas é competitiva e cheia de mágoas. É uma cabeça confusa com pensamentos equivocados —define Juliana.
‘Por você’: Vanessa (Alinne Moraes), Pérola (Renata Sorrah) e Leandra (Giovanna Grigio)
Divulgação
Alinne Moraes era um “nome grande demais” quando a dupla pensou numa possível escalação de atores. E não só ela. Os autores brincam que não sabiam ser autorizado pensar, por exemplo, num Antônio Pitanga para o papel de Clemente, dono do bar que leva seu nome e concorrente do vizinho Bar do Próspero (do personagem de José de Abreu).
—Nem nos melhores sonhos, esperávamos ter Pitanga, Zé de Abreu, Renata Sorrah, Ana Rosa, Reginaldo Faria — diz a autora.
Uma forte característica do elenco é justamente essa trupe 80+, em plena atividade. “Seu Pitanga”, por exemplo, tem 87 anos e, depois de participar do capítulo de estreia de “Vale tudo”, em 2025, está pronto para encarar meses de estúdio.
— Nosso diretor artístico e a diretora de elenco (Patrícia Rache) conseguiram trazer veteranos e gente que não fazia novela há muito tempo — diz Juliana. — Isso aciona a memória afetiva do público.
Por você: Próspero (José de Abreu) e Clemente (Antonio Pitanga)
Divulgação
Está aí outra característica de “Por você”, a volta dos “sumidos”. Mauricio Mattar, por exemplo, apareceu na Globo pela última vez em 2010 e agora está de volta como um aliado da vilã Vanessa. O “núcleo do bem” resgata Paulo Vilhena, cujo última novela foi “O sétimo guardião”, de 2018, como o cardiologista do hospital.
Mas a história pensada pela dupla Dino e Juliana nem sempre foi assim, com médicos para lá e para cá. Em 2019, quando tiveram o sinal verde da série, a ideia era que protagonista e antagonista fossem chefs de cozinha e a arena de embate, um restaurante.
— O universo hospitalar traz possibilidades de dramas que podem ir além das histórias principais — diz Juliana.
Pensemos numa série médica, que traz, em cada episódio, uma história de um paciente que passa pelo hospital. É um caso que começa, evolui e se encerra rapidamente, com personagens transitórios. “Por você” vai ter isso também.
O que nunca mudou, lá atrás e hoje, era o desejo de ter Sheron Menezzes estrelando a história. Desde os primeiros lampejos, o nome da atriz não saía da cabeça de nenhum dos dois.
—Queríamos uma mulher forte, com personalidade, em que pudéssemos explorar tanto drama quanto humor — diz Dino.
Por mais que a premissa da trama parta da morte de Juli, os autores dizem se preocupar, desde o primeiro dia, em não perder a noção de “aconchego” que a história precisa trazer para o horário.
— Existe a questão da classificação indicativa, que realmente coloca alguns balizadores na novela — diz Juliana. — Mas acredito que a gente consiga abordar qualquer tema, se fizermos o balanço da profundidade dramática com a leveza. Aí, sim, dá para falar sobre quase tudo.

