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Israel afirma que retomou os ataques contra Gaza porque o Hamas descumpriu o cessar-fogo. Qual sua opinião?
A motivação do retorno à guerra é política. É claro que quando você quer retomar um ataque, sempre há motivos, como o show de horrores promovido pelo Hamas ao libertar os reféns, a exposição de caixões com corpos de crianças, mas nada que justificasse o retorno dos ataques, a não ser uma derrota política muito clara de Netanyahu, que prometeu a destruição do Hamas — e a gente viu o Hamas vivo. Ele percebe que o retorno à guerra pode ser uma motivação absolutamente clara para a manutenção dele no poder.
Mas não há uma preocupação por parte do governo com os reféns?
Nenhuma. Na verdade, os reféns prejudicam muito mais a vida política de Netanyahu. Ele poderia ter libertado os reféns há um ano, mais ou menos com o mesmo acordo que aceitou [em janeiro]. Quando Netanyahu decide romper o acordo e avançar nesse ataque, ele está produzindo a morte dos reféns. Está mais claro do que nunca que Netanyahu não tem nenhum interesse nos reféns.
Que interesses são esses? Tem a ver com os avanços recentes contra o Shin Bet e o Judiciário?
Netanyahu quer destruir a democracia de Israel porque tem medo de ser preso. É muito importante entender que a guerra de Netanyahu não é só contra o Hamas em Gaza. É contra Israel. Sua grande questão é controlar as instituições para que possa salvar não só a sua carreira política, como a própria liberdade.
Que problemas ele enfrenta com a Justiça atualmente?
Resumidamente, ele está sendo levado a julgamento por tentar enfraquecer a democracia israelense a partir de intervenções econômicas em meios de comunicação. Mas tem outros dois casos pelos quais ele ainda não foi a julgamento. Em um, ele é acusado de autorizar a venda (pela Alemanha) de submarinos ao Egito, sem permissão das estruturas de segurança israelenses. O outro, apelidado de ‘Catargate’, aponta que pessoas muito próximas de Netanyahu mantiveram relações financeiras com o Catar, um Estado inimigo. Vamos ver se isso chega a Netanyahu ou não.
Mesmo sendo alvo de pressão popular, Netanyahu conseguiu aumentar sua coalizão durante a guerra, ganhando cadeiras no Parlamento, e se aproximou de extremistas. O apoio obtido é circunstancial ou pode ser duradouro?
Netanyahu está se fortalecendo eleitoralmente com os grupos políticos que não têm alternativa. A extrema direita está vivendo o sonho. Ela nunca vai ter os mesmos poderes que tem hoje. Então esse governo não pode cair de jeito algum na perspectiva deles. E como não pode cair, ele está mostrando para [Itamar] Ben Gvir e outros que a situação é de ‘no choice’, porque fora ele tem 80% de crítica. Politicamente ele está em declínio fora do parlamento. Dentro do parlamento ele conseguiu uma coalizão que não vai cair até as próximas eleições.

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Existe hoje alguma iniciativa, seja de oposição ou da sociedade civil, que tenha chances reais de frear essa agenda?
Não. Quer dizer, você tem uma oposição gritando no Parlamento, mas ela é minoritária, e você tem uma rua em chamas. O que há no momento é um potencial de crise política, mas a Knesset (Parlamento) está controlada.
O ministro da Defesa Israel Katz disse ter instruído o Exército a ocupar territórios em Gaza, mencionando a possibilidade de anexação. A ocupação do território era uma pauta anterior à guerra?
Gaza vira um projeto depois do 7 de outubro (dia do ataque do Hamas a Israel em 2023), mas reproduz o que já acontecia na Cisjordânia. Quando Katz, que é Netanyahu, fala isso, ele, na verdade, está investindo numa cultura genocida. E a cultura genocida acontece com o projeto, mas também acontece com a prática dos soldados no campo de batalha. Quando o ministro da Defesa fala, os soldados escutam, e o controle sobre eles diminui.
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Com relação à política externa, qual é a principal preocupação?
Eu costumo dizer que Israel não tem política externa, tem política interna. Netanyahu está preocupado com a própria vida.
Nem o risco de acusarem o país de promover uma ‘cultura genocida’, como o senhor mencionou, preocupa?
Ele não consegue entender a necessidade de negar o genocídio. Hoje, ele é o maior inimigo de Israel. Netanyahu é uma ameaça à existência de Israel.

