A Tapeçaria de Bayeux está em exibição pública no Reino Unido pela primeira vez desde que foi produzida, há quase mil anos. A obra de quase 70 metros de comprimento está exposta no Museu Britânico, em Londres, em uma mostra que teve todos os ingressos vendidos até o fim de 2026.
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Na manhã da abertura, visitantes formaram filas diante do museu, segundo reportagem da BBC, acompanhados por recriadores históricos vestidos com roupas e equipamentos inspirados no período retratado pela peça.
O que é a Tapeçaria de Bayeux
Apesar do nome, a peça é tecnicamente um bordado feito sobre linho com fios de lã tingidos com plantas. Produzida há quase mil anos, ela apresenta os acontecimentos que antecederam a invasão normanda da Inglaterra e a Batalha de Hastings, em 1066.
A batalha terminou com Guilherme, duque da Normandia, assumindo o trono inglês depois de derrotar Harold Godwinson e se tornando o primeiro rei normando da Inglaterra. A obra é frequentemente comparada a uma espécie de “história em quadrinhos” medieval, porque reúne uma sequência de imagens acompanhadas por textos em latim.
Acredita-se que o bordado tenha sido produzido na década de 1070 por mulheres inglesas, já sob o domínio dos novos governantes normandos. Sua narrativa, porém, não é considerada uma descrição incontestável de todos os acontecimentos, e há debates históricos sobre alguns dos episódios representados.
A peça tem cerca de 70 metros de comprimento e reúne 58 cenas, 627 figuras humanas, 737 animais, 37 navios e 23 árvores. As imagens são acompanhadas por uma narrativa em latim.
Uma viagem que levou décadas para ser viabilizada
A chegada da Tapeçaria de Bayeux a Londres foi resultado de um empréstimo da França ao Museu Britânico considerado sem precedentes. O Reino Unido havia tentado obter a peça em 1931, 1953, 1966, 1972 e 1980, sem sucesso.
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Um acordo foi anunciado em 2018 pelo presidente francês Emmanuel Macron e pela então primeira-ministra britânica Theresa May. O projeto enfrentou dificuldades nas relações entre os dois países depois do Brexit, mas Macron retomou a iniciativa durante o governo de Keir Starmer. A decisão enfrentou resistência na França, onde uma petição chegou a classificar o empréstimo como um “crime contra o patrimônio”.
A secretária britânica de Cultura, Lisa Nandy, classificou o empréstimo como “o mais extraordinário ato de amizade por parte do governo francês”.
Como a peça foi transportada
A Tapeçaria deixou Bayeux, na Normandia, e seguiu para Londres pelo Túnel da Mancha durante a madrugada, com escolta policial. Para reduzir os riscos, foi mantida dobrada em formato de sanfona dentro de um estojo especialmente desenvolvido para a viagem.
O recipiente tinha controle das condições ambientais e foi projetado para reduzir os efeitos do deslocamento.
Caminhão que transportou a Tapeçaria de Bayeux permanece vazio após ser descarregado no Museu Britânico, no centro de Londres, na madrugada de 10 de julho de 2026
RICHARD A. BROOKS / AFP
A peça ficou presa a um suporte dobrável dentro de uma caixa climatizada, com molas destinadas a absorver impactos e diminuir os efeitos das vibrações causadas pelo transporte rodoviário. Também foram realizados testes para avaliar os impactos que as condições das estradas poderiam provocar no objeto.
O enviado especial britânico para a tapeçaria, Peter Ricketts, classificou a operação como “território completamente desconhecido” e a comparou a um “balé cuidadosamente coordenado”.
Corrida por ingressos
A procura pela exposição foi tão intensa que a BBC comparou a disputa pelos ingressos à fila para o festival de Glastonbury. As entradas se esgotaram para o restante de 2026.
Uma das visitantes, Serena Smith, chegou a ocupar a 4.000ª posição na fila virtual para conseguir um ingresso. Ela levou 24 páginas de anotações para tentar identificar elementos representados na peça, incluindo os normandos pelos cortes de cabelo e os barcos usados durante a chegada à Inglaterra.
Operários preparam-se para descarregar uma caixa especialmente concebida (à direita) que transporta a Tapeçaria de Bayeux
RICHARD A. BROOKS / AFP
Antes da abertura, recriadores históricos apareceram diante do Museu Britânico vestidos como personagens e combatentes do período retratado. Hannah Mounser, que viajou de Norwich, participou caracterizada com elementos ligados aos saxões.
Os recriadores também haviam participado de uma cena de batalha filmada dentro do próprio Museu Britânico para um trailer da exposição.
A narrativa começa com Harold Godwinson, então o conde mais poderoso da Inglaterra e cunhado do rei Eduardo, o Confessor. Por volta de 1064, Harold viajou para a França em uma missão cuja finalidade não é totalmente definida.
Na versão normanda, ele teria sido enviado para encontrar Guilherme, duque da Normandia, que também reivindicava o trono inglês. Outras fontes consideram que Harold poderia estar em uma missão para resgatar parentes mantidos como reféns por Guilherme.
Harold acabou capturado e entregue ao duque, mas os dois aparecem na narrativa como aliados. Harold acompanhou Guilherme em uma campanha militar na Bretanha, recebeu armas do duque e, em Bayeux, aparece prestando um juramento sagrado que supostamente reconhecia a reivindicação de Guilherme ao trono inglês. A própria narrativa é objeto de disputa histórica.
Como franceses e britânicos enxergam a obra
Na Inglaterra, a Tapeçaria de Bayeux tem forte relação com a história nacional por retratar diretamente os acontecimentos de 1066. Na França, a peça ocupa um espaço menor no imaginário nacional e é vista principalmente como patrimônio regional da Normandia, onde permaneceu guardada e para onde deverá retornar.
A saída da obra provocou preocupação e oposição na França, principalmente por causa dos riscos envolvidos no transporte. Depois da chegada a Londres e da abertura da exposição, porém, essa resistência perdeu espaço na atenção pública francesa.
Ao longo dos séculos, a Tapeçaria de Bayeux nem sempre recebeu cuidados adequados. Acredita-se que as cenas finais tenham sido perdidas ou destruídas.
Durante a Revolução Francesa, no século XVIII, ela chegou a correr o risco de ser cortada para ser usada na fabricação de coberturas para carroças militares. A atual operação de transporte para o Reino Unido foi cercada de medidas de conservação para evitar novos danos.
A exposição permite agora que o público britânico veja a obra completa em sua extensão original, ao mesmo tempo em que revisita os acontecimentos de 1066 e os debates históricos sobre os episódios representados no bordado.
Tapeçaria de Bayeux é exibida no Reino Unido pela primeira vez em quase mil anos; conheça a história da obra
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