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Do celular às políticas educacionais: entenda as hipóteses de especialistas para a queda de líderes globais no Pisa

“Em Leitura e Matemática, as notícias são ruins”. Foi assim que Mathias Cormann, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), começou a apresentar os dados que chocariam educadores ao redor do mundo. Nas nações desenvolvidas, a aprendizagem caiu para o menor patamar já registrado pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). […]

Do celular às políticas educacionais: entenda as hipóteses de especialistas para a queda de líderes globais no Pisa


“Em Leitura e Matemática, as notícias são ruins”. Foi assim que Mathias Cormann, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), começou a apresentar os dados que chocariam educadores ao redor do mundo. Nas nações desenvolvidas, a aprendizagem caiu para o menor patamar já registrado pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).
Para piorar, as antigas referências globais (caso da Finlândia) e os novos líderes de desempenho (notadamente os asiáticos, como Cingapura) também têm experimentado quedas significativas — dando sinal de que há poucas pistas para reverter esse cenário.
— A crise não é porque a escola não está fazendo o seu trabalho. É que outras coisas estão acontecendo fora da escola e tornando o trabalho dela e do professor muito mais difícil, muito mais complexo — aponta Paulo Blikstein, professor titular da Universidade de Columbia (EUA).
O Pisa é uma prova internacional aplicada pela OCDE a cada três anos. Mede o aprendizado em Leitura, Matemática e Ciências de jovens de 15 anos. Em 2025, 91 países participaram, com 760 mil alunos fazendo o teste. Essa amostra representa 33 milhões de estudantes pelo mundo.
O resultado revelou o segundo triênio consecutivo de quedas generalizadas — uma das poucas exceções, o Brasil está estagnado há dez anos, mas num patamar de aprendizagem ainda bem abaixo de países ricos. Em 2022, o problema se explicava pela pandemia. Três anos depois, esperava-se alguma reação.

O que se viu, no entanto, foi uma perda de aprendizagem ainda maior em alguns casos. A média da OCDE, por exemplo, nunca foi tão baixa em Leitura e Matemática desde que a prova começou a ser aplicada, em 2000. Países como a Alemanha, a Coreia do Sul e os Estados Unidos também chegaram aos menores patamares de aprendizagem de suas séries históricas.
Um artigo da revista The Economist da última semana culpou a Finlândia pela queda dos resultados globais.
“Os críticos do país sustentam que as notas altas registradas em 2000, na verdade, refletiam abordagens educacionais tradicionais que ainda predominavam nas escolas durante boa parte da década de 1990 — e não as políticas ‘progressistas’ mais recentes pelas quais o país ficou famoso. Se for esse o caso, o erro pode ter colocado dezenas de sistemas educacionais no caminho errado”, diz o texto.
A Finlândia, que no começo dos anos 2000 recebeu educadores de todos os cantos do planeta para conhecer o que fez o país escandinavo liderar o Pisa, perdeu 72 pontos em Leitura (passou de 546 para 474) desde 2000 — sendo 72% dessa queda nos últimos dez anos. Isso fez com que o país europeu fosse deixado para trás pelos asiáticos. No entanto, Cingapura, atual líder em Leitura, teve queda de 14 pontos (de 549 para 535) desde 2018.
A tese das telas
A tese mais difundida para isso foi a responsabilidade de celulares e redes sociais. A própria OCDE apontou para essa direção.
— A gente não vê no Pisa nada positivo no uso de mídias sociais, infelizmente. Basicamente, há uma forte relação entre uso de dispositivos digitais para lazer e resultados acadêmicos ou socioemocionais — afirmou Andreas Schleicher, diretor de Educação e Competências da OCDE, que perde as certezas quando o assunto é futuro: — Agora, se devemos proibir ou reforçar nosso investimento em educação midiática é uma pergunta que continua em aberto. Mas claramente nós precisamos lidar com essa situação.
O problema, diz Blikstein, é que ainda não se sabe qual é a parcela de culpa dos celulares e quais outros fatores também influenciam esses resultados. No entanto, algumas medidas precisam ser adotadas. Uma delas é, aparentemente, muito simples:
— Uma pista que temos é que a gente precisa voltar a algumas mídias um pouco mais antigas, como ler livros físicos e fazer anotações em papel, porque a gente sabe pelas pesquisas que há uma retenção muito melhor — diz o professor de Columbia. — E também não adianta mudar a política educacional a cada Pisa por causa do país que está no topo. A gente precisa ter uma visão de longo prazo e buscar em todos os lugares boas práticas.
Em busca do básico
Enquanto isso, o Brasil caminha de lado há dez anos — o que, segundo especialistas, tem algum mérito dada a cena global. No entanto, o cenário é de urgência. Mais da metade dos alunos (51%) brasileiros não chegam ao nível básico de Leitura.
Isso significa que o país vai precisar lidar com os mesmos desafios de outros lugares do mundo enquanto corre atrás para fazer com que seus alunos cheguem ao básico.
De acordo com a doutoranda da USP Ingrid Torquato, que pesquisa o sistema de educação chinês, o resultado das províncias de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang (que, desde 2018, tiveram queda de 28 pontos em Leitura e crescimento de 21 em Matemática) passa, sim, por uma cultura local de valorização da educação, mas também por um trabalho intenso de qualificação do professor, cuja carga horária em sala de aula é de 10 a 12 horas semanais, enquanto passa o restante do tempo planejando aula, analisando o desempenho de seus alunos, orientando os estudantes e se qualificando de forma individual ou coletiva.
— Entre os alunos, há uma competição muito forte. Mas as escolas trabalham de forma colaborativa umas com as outras. E há intenso rodízio de professores entre as unidades para compartilhar o conhecimento — diz a especialista, que está atualmente na China.
Outra inspiração pode ser a Turquia. O país, que foi um dos poucos que comemorou a divulgação do resultado, registrou 44 pontos a mais em 2025 do que na edição de 2015 em Leitura e chegou ao patamar de países desenvolvidos em queda.
Analistas turcos apontam que o país adaptou suas provas internas para o modelo do Pisa e investiu pesadamente no aumento do número e na qualificação de professores.

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Autor

BRCOM