
A Finlândia confirmou nesta segunda-feira a adesão a uma iniciativa de dissuasão nuclear regional, liderada pela França, afirmando que a proposta “reforça a responsabilidade da Europa pela sua própria defesa e ajuda a prevenir uma escalada”. Embora as declarações feitas no Palácio do Eliseu não tenham mencionado ameaças, o anúncio reflete a preocupação crescente dos países europeus com a agressividade da Rússia e também com a postura hesitante dos EUA sobre seu compromisso com a defesa do continente.
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Segundo o comunicado, a Finlândia afirma que a decisão “constitui um passo importante para a segurança europeia e para a cooperação bilateral”, e que “fortalecerá a parceria entre as duas nações e oferecerá oportunidades para a sinalização estratégica, bem como a capacidade de gerir a escalada abaixo do limiar nuclear”. Em publicação na rede social X, o presidente finlandês, Alexander Stubb, disse ainda que a iniciativa “reforça a responsabilidade da Europa por sua própria defesa e ajuda a prevenir escaladas”.
A antiga ideia de usar o arsenal nuclear francês como ferramenta de defesa coletiva foi retomada com força no ano passado pelo presidente Emmanuel Macron. Em março, ele lançou a Iniciativa de Dissuasão Nuclear Avançada, nome oficial do plano, destacando que diante dos “tempos conturbados que vivemos, também será necessário repensar as regras que regem a segurança do nosso continente e do mundo”. Até o momento, 10 governos aderiram, em algum grau, contando com a Finlândia.
De acordo com a Associação para o Controle de Armas, uma organização baseada nos EUA dedicada à promoção de políticas para arsenais, a França tem hoje cerca de 370 ogivas, desenvolvidas internamente. Um número considerável, mas aquém dos ostentados por Rússia, 5.420, e Estados Unidos, 5.042, incluindo ogivas operacionais, armazenadas e que aguardam desmantelamento.
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Ao contrário de mecanismos de defesa como o Artigo 5º da Otan, que trata um ataque contra um de seus membros como um ataque a todos, a iniciativa francesa não tenta ser um “guarda-chuva nuclear”, como os oferecidos por EUA e Rússia. Não há, por exemplo, a previsão de posicionamento permanente de ogivas em outros países — algo ressaltado por Stubb nesta segunda-feira —, mas sim a ênfase em treinamentos conjuntos e planos de contingência para o pior dos cenários, uma guerra total contra um adversário nuclear.
— A próxima metade do século será uma era de armas nucleares. A França, determinada, livre e confiante, desempenhará plenamente o seu papel. Ela continuará a se fortalecer e, em seu próprio benefício, ligará este promontório no Oceano Atlântico ao coração da Europa — declarou Macron em março.
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Um ponto destacado por Macron, Stubb e demais líderes que aderiram à iniciativa é que ela não é uma alternativa aos compromissos dos europeus com a Otan, e que a aliança — à qual a Finlândia se juntou em 2023, após décadas de neutralidade e como resultado da agressividade russa —, mas sim uma forma de reforçar as capacidades de dissuasão no continente. Contudo, ela é um reflexo direto das mudanças no ambiente regional de segurança desde a década passada.
A começar pela chegada de Donald Trump à Casa Branca. Desde seu primeiro mandato, o republicano cobra seus aliados para que gastem mais dinheiro com Defesa (o que ele conseguiu no ano passado), e com perigosa frequência ameaça retirar os EUA da aliança militar. Em fevereiro de 2024, quando ainda tentava voltar ao poder, disse que se os países do continente “não pagassem por proteção”, incentivaria os russos “a fazer o que diabos quisessem”. A fala causou calafrios em Bruxelas, e obrigou muitos líderes a mudarem seus orçamentos e a adotar uma abordagem mais “suave” nos diálogos com Trump, algo que o atual secretário-geral da Otan, Mark Rutte, levou ao extremo em várias ocasiões.
— No passado, quando a França fez sinalizações (sobre a extensão da proteção nuclear), outros países relutaram em responder. Eles não queriam passar a impressão de que não depositavam total confiança nos EUA e na Otan — disse Pierre Haroche, da Universidade Católica de Lille, ouvido pela rede BBC em 2025. — Não é que os americanos estejam falando em retirar sua dissuasão nuclear, que fique claro: isso não parece estar em pauta no momento. Mas a credibilidade da dissuasão nuclear dos EUA não é mais a mesma.
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O cenário complexo quando um velho rival, a Rússia, retomou uma agressividade vista em outros tempos de crise no continente europeu. A invasão da Ucrânia, em 2022, não produziu os resultados que o Kremlin esperava, e levou a uma onda de solidariedade dos países da região com Kiev, em termos políticos e militares.
Mas com a guerra em seu quinto ano, sem chances concretas de um acordo a curto prazo, analistas temem que Vladimir Putin lance um ataque direto a algum país da Otan nos próximos anos, de forma a testar a coesão da aliança militar. O uso de mísseis balísticos em território ucraniano e as recorrentes ameaças nucleares vindas de Moscou já não são tratados como mera retórica. A afeição de Trump pelo longevo líder tampouco acalma nervos de Lisboa a Bucareste.
— Assim como a França cria novos dilemas estratégicos para os adversários da Europa por meio da dissuasão avançada, nossos parceiros contribuem, em contrapartida, para a segurança coletiva e, consequentemente, para a segurança da França — disse Macron, em março. — Essa é a própria natureza do apoio mútuo entre capacidades nucleares e convencionais.
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