Às 17h47 de sábado, o trânsito estava lento na Rua Mariz e Barros, em Icaraí, Niterói. Uma câmera de segurança capta neste momento três motocicletas. Na primeira, está o pizzaiolo Danilo Jander Francisco Alves, de 26 anos, que seguia para o trabalho. Logo atrás, emparelhando com o jovem, vêm dois policiais militares, cada um em uma moto. Danilo parece diminuir a velocidade, e o que acontece a partir dali dura apenas cinco segundos: os agentes se aproximam, o primeiro lança um jato de spray de pimenta contra o motociclista e, quase imediatamente, o segundo faz um disparo. Danilo cai, baleado na cabeça. Cerca de 20 minutos depois, enquanto populares se amontoavam junto à cena, uma equipe do Corpo de Bombeiros chega ao local.
Spray de pimenta e tiro à queima-roupa: veja vídeo da abordagem que terminou com motociclista baleado por PM em Niterói
Entenda: motociclista é baleado por PM durante abordagem em Icaraí, em Niterói; estado de saúde é grave
As imagens, obtidas pelo GLOBO, integram a investigação da abordagem que deixou o jovem em estado grave no Hospital Estadual Azevedo Lima, no Fonseca. O policial responsável pelo tiro, um sargento do Batalhão de Choque que trabalhava para o Niterói Presente naquele dia, afirmou em depoimento que o disparo ocorreu de forma involuntária. Uma testemunha ouvida pela Polícia Civil deu uma versão diferente: disse que Danilo já havia parado a motocicleta e levantado as mãos antes de ser atingido pelo spray e, em seguida, pelo tiro.
O Segurança Presente, há seis meses sob o comando da Secretaria de Polícia Militar, informou que os agentes faziam patrulhamento em Icaraí e realizaram um cerco ao motociclista depois que ele teria desobedecido a uma ordem de parada. Segundo o órgão, o militar responsável pelo disparo foi preso e levado para uma unidade prisional da corporação. A Corregedoria da PM instaurou um procedimento para investigar as circunstâncias do caso.
Uma virada na vida de Alvinho: menino deixa abrigo com a mãe e ganha bolsa para voltar à escola
Danilo Jander tinha 26 anos e foi baleado na cabeça
Reprodução
‘Tentou matar meu filho’
Enquanto investigadores tentam reconstituir os poucos segundos registrados pela câmera, a família de Danilo se reveza no Azevedo Lima. O pai, o professor de educação física Jander Luiz de Souza Alves, contou neste domingo que o filho passava por exames para verificar se ainda havia atividade cerebral. Para ele, a versão de disparo acidental não se sustenta.
— Não teve nada de sem querer, não. Ele tentou matar meu filho mesmo — afirmou Jander, com os olhos marejados. — Espero que não coloquem meu filho como bandido, porque ele era trabalhador, assim como toda a nossa família, que tem muitas mulheres professoras e homens militares.
Apagão: Furto de cabos deixa 109 escolas estaduais do Rio sem luz; algumas ficaram até dez meses no escuro
Jander também contesta a descrição feita pelos policiais sobre a condução da moto. Diz que o filho era habilitado, que o veículo estava regular e que a motocicleta foi devolvida à família depois da perícia.
— Não tinha como ele fazer isso numa via que tem muita movimentação de carros. Mesmo assim, isso não justificaria um tiro na cabeça. Ele estava de capacete, que agora está em casa com o furo da bala — desabafou. — Na mochila dele, havia uma garrafa de café e uma peça de roupa.
O tio de Danilo, Douglas William Souza Alves, suboficial da Marinha, também acompanhou a família no hospital. Ele descreveu o sobrinho como um jovem reservado, próximo dos parentes e trabalhador:
Economia sequestrada pelo crime: do ovo ao tijolo, tráfico e milícias do Rio instauram monopólio sobre produtos do dia a dia da população
— Achei que ele tivesse se acidentado. Nunca iria imaginar que tinha tomado um tiro na cabeça de um policial. E ainda não consigo acreditar.
Danilo, morador do bairro Gradim, em São Gonçalo, trabalha em uma franquia do Sushi Rão, na própria rua em que foi baleado. A guarnição que o abordou era formada ainda por um sargento do Batalhão Tático de Motocicletas (BTM), aquele que usou o spray de pimenta.
Em depoimento à Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), os policiais disseram que perceberam Danilo avançando um sinal vermelho, em alta velocidade, e que ele teria empinado a motocicleta durante a tentativa de fuga. Os agentes afirmaram que passaram a acompanhá-lo e só conseguiram alcançá-lo quando o trânsito obrigou o motociclista a reduzir a velocidade.
Tribunal do tráfico no Rio usa punições para dominar territórios: castigos vão de humilhação a espancamento até a morte
‘Disparo involuntário’
Um dos PMs declarou ter usado o spray de pimenta com o objetivo de impedir que Danilo prosseguisse. O sargento que fez o disparo contou que, ao desembarcar, viu o rapaz levar uma das mãos em direção à cintura. Disse então ter sacado a pistola e que a arma disparou involuntariamente no momento em que descia da motocicleta.
O relato do colega de farda não confirma esse ponto. Em seu depoimento, ele afirmou não ter conseguido ver se Danilo fez algum movimento com a mão em direção à cintura naquele instante. Depois do tiro, os policiais revistaram o pizzaiolo. Nenhum objeto ilícito foi encontrado com a vítima.
A testemunha contou que Danilo vinha diminuindo a velocidade até parar e, ao ser cercado pelos policiais, levantou as mãos. Um dos agentes teria então lançado o spray de pimenta em seu rosto e, quase imediatamente, o outro efetuou o disparo. Ela afirmou não ter percebido qualquer atitude suspeita do motociclista.
Primeiro Comando do Golpe: grupo formado nos presídios pode virar quinta facção do Rio
Ainda segundo esse depoimento, um PM desceu da motocicleta, tocou Danilo com o pé e revistou os bolsos dele. A testemunha ponderou que o movimento com o pé não lhe pareceu uma agressão, mas uma tentativa de verificar se o jovem estava consciente.
Os policiais relataram ainda que, após o disparo, moradores começaram a se aglomerar no local e houve aumento da tensão. Segundo eles, o spray de pimenta também foi usado para afastar quem se aproximava.
Danilo foi socorrido e levado ao Azevedo Lima, onde permanecia internado em estado grave ontem à noite. O caso é investigado pela DHNSGI. Testemunhas já foram ouvidas, e a polícia analisa imagens de câmeras de segurança para esclarecer a sequência da perseguição, da abordagem e do tiro.
Initial plugin text
'Ele estava de capacete, que agora está em casa com o furo da bala', diz pai de rapaz baleado na cabeça em abordagem da PM
Às 17h47 de sábado, o trânsito estava lento na Rua Mariz e Barros, em Icaraí, Niterói. Uma câmera de segurança capta neste momento três motocicletas. Na primeira, está o pizzaiolo Danilo Jander Francisco Alves, de 26 anos, que seguia para o trabalho. Logo atrás, emparelhando com o jovem, vêm dois policiais militares, cada um em […]