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A Vircos levou a inteligência artificial ao RH da NUV Brasil e encontrou a pergunta que ninguém fazia

Quase três em cada quatro profissionais que usam inteligência artificial com regularidade, 74% deles, hoje levam a um chatbot perguntas que antes dirigiriam a um colega de trabalho. O dado vem de um levantamento da MyIQ com mais de 22 mil trabalhadores em dez regiões do mundo, realizado em junho e julho deste ano. No […]

A Vircos levou a inteligência artificial ao RH da NUV Brasil e encontrou a pergunta que ninguém fazia


Quase três em cada quatro profissionais que usam inteligência artificial com regularidade, 74% deles, hoje levam a um chatbot perguntas que antes dirigiriam a um colega de trabalho. O dado vem de um levantamento da MyIQ com mais de 22 mil trabalhadores em dez regiões do mundo, realizado em junho e julho deste ano. No mesmo estudo, 71% relatam ter ficado mais autossuficientes no último ano e 62% dizem sentir mais confiança para decidir sozinhos. Do outro lado da conta, 59% pedem uma segunda opinião a colegas com menos frequência do que antes e 48% notaram queda nas conversas espontâneas ao longo do expediente.
A leitura corrente desses números é de perda de convívio. Foi ao trabalhar dentro de uma operação de recursos humanos, porém, que a Vircos, companhia de engenharia de inteligência artificial corporativa, esbarrou em uma leitura diferente. Quando implementou o Friol.ai como base de conhecimento interna na NUV Brasil, a empresa esperava reduzir o volume de perguntas repetidas. O que apareceu foi uma categoria de dúvida que não estava migrando de canal, porque nunca havia sido feita a ninguém.
O departamento de recursos humanos é o endereço padrão da dúvida operacional do dia a dia: regra de vestimenta, hora extra, cobertura do plano de saúde, prazo de reembolso, política de férias, funcionamento de cada benefício. São perguntas repetidas todos os dias, por pessoas diferentes, com respostas que já existem escritas em algum documento interno. Elas ocupam o RH, o administrativo e o financeiro em um trabalho de balcão que consome o tempo que deveria ir para o que exige julgamento humano. Em paralelo, existe a categoria silenciosa: a pergunta que o colaborador não faz porque acredita que já deveria saber a resposta, ou porque não quer que fique registrado que perguntou.
Na NUV Brasil, a Vircos estruturou o Friol.ai, que roda em infraestrutura em solo capixaba, com bases de conhecimento separadas por área e por grupo de acesso, de modo que políticas e processos internos passassem a responder dentro do aplicativo que o funcionário já utiliza. As dúvidas de rotina passaram a ser resolvidas em segundos, sem fila e sem exposição, e as equipes administrativas voltaram a se dedicar ao que exige análise caso a caso. O ganho previsto era de tempo. O ganho que chamou atenção do cliente foi outro: perguntas que nunca haviam chegado ao RH, algumas delas com valor de sinal. Um colaborador que começa a pesquisar sobre processos de desligamento, por exemplo, está dizendo algo sobre engajamento que antes não chegava a ninguém.
“O ganho de tempo era o resultado esperado. O que surpreendeu foi o colaborador que finalmente perguntou, inclusive o que nunca perguntaria ao RH. Quando alguém começa a pesquisar sobre desligamento, isso é um sinal de alerta para a gestão de pessoas. A tecnologia consegue identificar esse comportamento. O que ela não consegue fazer é compreender, sozinha, as razões por trás dele”, afirma Guilherme Friol, CEO da Vircos.
O contraste com o cenário geral do mercado ajuda a dimensionar o ponto. Pesquisa da Gartner divulgada em outubro de 2025 apontou que 88% dos líderes de RH afirmam que suas organizações ainda não obtiveram valor de negócio significativo com ferramentas de inteligência artificial. Não por resistência do time: no mesmo conjunto de dados, com quase 3 mil funcionários ouvidos, 65% se dizem entusiasmados em usar IA no trabalho, e 37% dos que têm acesso não usam porque percebem que os colegas também não usam. A barreira, nesses casos, é de implantação e de desenho, não de vontade.
É nesse ponto que a Vircos concentra o trabalho. Uma base de conhecimento interna carrega informação sensível, de faixa salarial a laudo médico, passando por regras que valem para um grupo e não para outro. Sem separação por área e por permissão de acesso, a mesma ferramenta que desafoga o RH vira um problema de privacidade e de conformidade. E a permissão não é um ajuste que se faz uma vez: cargo muda, projeto termina, contrato encerra, e o acesso precisa acompanhar. A escolha do modelo de linguagem, nesse desenho, é a decisão menos crítica do projeto.
“Uma base de conhecimento sem regras e sem políticas não é uma ferramenta de RH, é só um vazamento esperando acontecer. O trabalho começa em decidir quem enxerga o quê e manter essa política atualizada dentro do sistema. Escolher qual modelo de linguagem vai ser utilizado é a parte fácil. O mais difícil é definir quem vê o quê e até quando”, afirma Guilherme Friol, CEO da Vircos.
Nada disso resolve a preocupação que abre a discussão. O levantamento da MyIQ registra que 46% dos entrevistados dizem conhecer menos como os colegas pensam e resolvem problemas, 43% acham os pares mais difíceis de ler profissionalmente e 38% avaliam que profissionais em início de carreira têm hoje menos oportunidades naturais de construir relações, porque parte das interações de rotina deixou de existir. Os próprios autores fazem a ressalva de que os dados não provam que a inteligência artificial enfraquece relações no trabalho, apenas mostram que os funcionários associam o uso maior da tecnologia a uma mudança na frequência com que se consultam. Uma empresa que empurra para a máquina toda conversa que incomoda troca um problema visível por um invisível.
“Um dos erros mais comuns na adoção de inteligência artificial é acreditar que ela pode substituir o julgamento humano em qualquer contexto. Ela não pode. Existem situações em que o problema não é falta de dados, é falta de contexto humano. Em conflito entre pessoas, a IA pode sugerir caminhos e organizar informações, mas não tem empatia nem capacidade de interpretar nuances. Quanto mais a situação envolve confiança, relacionamento, cultura ou emoção, mais importante se torna o papel humano. A responsabilidade pela decisão continua sendo das pessoas”, conclui o executivo.
Fica então a pergunta que interessa a qualquer área de gente: agora que uma parte das dúvidas silenciosas finalmente foi digitada em algum lugar, o que elas dizem sobre a clareza das políticas da empresa, e quantas delas nunca deveriam ter dependido de coragem para serem feitas?

A Vircos levou a inteligência artificial ao RH da NUV Brasil e encontrou a pergunta que ninguém fazia

Autor

BRCOM