Salas sem Wi-Fi, com acesso ultrarrestrito e protegidas por portas blindadas e homens fortemente armados. É assim, nos chamados “bunkers cripto”, que parte do crescente mercado de criptomoedas garante a confiança de investidores e a segurança de bilhões em ativos digitais, como o Bitcoin.
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Estruturas de diferentes tamanhos, com arquitetura e tecnologia pensadas para formar muitas camadas de segurança têm sido instaladas em várias partes do mundo — a maioria sem localização revelada — para proteger o acesso às chaves que permitem movimentar criptoativos que valem muito dinheiro.
O objetivo é o mesmo dos cofres de bancos, mas adaptado ao século XXI: impedir acessos indesejados (principalmente de hackers) a bens de alto valor, mas que não têm uma forma física.
Chamado de custódia fria, o modelo de proteção off-line da indústria cripto existe há anos, mas, com a entrada neste mercado de investidores institucionais como bancos, gestoras e fundos, surgem verdadeiras fortalezas com níveis de seguranças inéditos. O avanço da regulação de criptoativos em vários países, que passaram a exigir salvaguardas, alavanca esse tipo de serviço no mundo.
Não se sabe ao certo quanto dinheiro está assegurado nesses bunkers, mas, globalmente, o mercado de segurança para criptoativos movimentou US$ 3,52 bilhões em 2023, segundo a Global Insight Services. A expectativa é chegar a US$ 16,05 bilhões até 2030, impulsionado pela necessidade de proteger criptoativos de ciberataques cada vez mais sofisticados, facilitados pela inteligência artificial. (IA).
Esses bunkers guardam dispositivos, alguns similares a pendrives, que armazenam chaves virtuais, os códigos únicos que dão acesso às carteiras digitais. Ali também costuma ficar a “fechadura”, ou seja, o equipamento que, com as chaves, permite movimentar os ativos na rede blockchain (tecnologia por trás das criptomoedas). A custódia também pode ser on-line (chamada quente), mas os bunkers atraem pelo isolamento físico.
A Suíça é um dos países conhecidos por abrigar bunkers cripto, mas não há informações detalhadas sobre quantas estruturas existem no mundo nem onde elas estão. Uma das poucas expostas é a da Xapo Bank, instalada em um ex-bunker militar à prova de ataque nuclear, já visitado por jornalistas, nos Alpes suíços.
Outros bunkers sobre os quais há relatos são os de mineração de moedas digitais em países como Rússia, China e Ucrânia, muitos subterrâneos e frios, que aproveitam a energia local disponível para manter milhares de máquinas conectadas validando transações de criptoativos, também sob vigilância armada. Bunkers cripto são ainda mais discretos. Alguns não compartilham a localização exata nem com os clientes, que são transportados até eles com vendas que só tiram lá dentro.
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O GLOBO teve acesso exclusivo a um bunker cripto criado em São Paulo. O prédio, por fora, é discreto, mas não secreto. As portas de mais de 30 centímetros de espessura e a segurança armada deixam claro que se trata de um local para objetos de valor. É um centro logístico da empresa de segurança espanhola Prosegur para processamento de cédulas e moedas, de ondem partem carros-fortes e caminhões escoltados com cargas valorizadas. O bunker cripto fica em uma das salas de numerário.
A estrutura no Brasil está pronta desde 2023, mas a Prosegur aguarda o avanço da regulação de criptoativos pelo Banco Central (BC) para iniciar a operação comercial com custódia de grandes volumes. A expectativa da empresa e de outros agentes desse mercado é que, com a regulação brasileira, instituições financeiras com aplicações em criptomoedas demandem o serviço. Sérgio França, diretor comercial da Prosegur Cash, diz haver dezenas de clientes potenciais, sem estrutura própria.
Antes de visitar um bunker de custódia de criptoativos, é fácil imaginar algo saído de um filme de ação: portas de aço, scanner biométrico para identificação, homens com armas pesadas e cofres escondidos atrás de paredes blindadas.
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A realidade do único bunker cripto brasileiro conhecido, em São Paulo, embora mais contida, não deixa de impressionar. O edifício que o abriga é pouco ostensivo, mas a presença de carros-fortes indica que por ali passam muitos valores. A segurança vai além do que é visível. O abrigo das chaves cripto é protegido por ao menos quatro portas blindadas por onde só passam pessoas autorizadas, que deixam seus pertences em armários.
A sala, pequena, formada por paredes com isolamento balístico, é toda preta, tem uma porta e a inscrição que indica ali um portal para rede blockchain. Só autorizados podem acessar o equipamento que conecta à rede as chaves físicas de ativos digitais que ficam trancafiadas em cofres de outro espaço, dentro de maletas com proteções próprias.
Além de monitorado por câmeras, há mecanismos de proteção específicos como um alarme sísmico projetado para detectar escavações e um sistema de neblina densa que pode ser acionado em caso de invasão. Em segundos, a sala fica intransitável, sem visibilidade.
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O ambiente regulatório mais claro, já com um marco brasileiro para criptos, tem atraído instituições tradicionais, como Itaú e BTG. Segundo a empresa de análises Chainalysis, o valor mensal de transações institucionais no setor — acima de US$ 1 milhão — subiu 48% entre 2023 e 2024.
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A perspectiva de tokenização da economia brasileira, com a implementação do Drex, a versão digital do real em desenvolvimento pelo BC, também amplia as apostas.
O relatório Global Crypto Adoption Index de 2024, da Chainalysis, diz que o Brasil é o décimo mercado cripto do mundo e o primeiro da América Latina, onde o setor cresceu 42,5% no ano passado. O interesse pela custódia fria segue a tendência internacional de exigências regulatórias mais altas de segurança, incluindo ter parte das reservas desconectadas da internet.
O Japão, por exemplo, exige 95% das carteiras cripto off-line. A Coreia do Sul, 80%. Tudo para que o investidor não veja seu dinheiro sumir num golpe digital. Só criptoativos transacionados com regularidade por corretoras ficam em soluções de custódia quente (on-line).
Em 2024, os prejuízos do setor com roubo cresceram 21% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 2,2 bilhões. Desde 2015, perdas com ciberataques somam US$ 13,6 bilhões, estima a Chainalysis.
Na Coinbase, uma das maiores plataformas de negociação de criptoativos do mundo, a proteção tem sistemas de isolamento físico de dados como os militares, diz Philip Martin, diretor de Segurança da empresa. Chaves são fragmentadas e distribuídas entre locais geograficamente distantes.
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— Conforme as jurisdições de cada país introduzem regras mais claras sobre custódia e proteção ao investidor, instituições financeiras tradicionais e gestores de ativos sentem-se mais confiantes em entrar nesse mercado. E essas instituições são obrigadas a cumprir obrigações fiduciárias e regulatórias rígidas — diz Martin.
Gestora brasileira especializada em criptomoedas no mercado regulador, com R$ 1,3 bilhão sob gestão, a QR Asset Management mantém 99% dos ativos dos seus ETFs (fundos de índice) de criptoativos em carteiras frias. Murilo Cortina, diretor de Novos Negócios da gestora, no entanto, diz que as soluções de custódia física têm evoluído em relação ao início da utilização de bunkers, em 2018:
— Era uma operação quase que militar, em um forte, com gente armada. Hoje nós temos muito mais ferramentas que impedem que aconteçam casos como o da Bybit — diz Cortina, citando o ataque hacker contra a corretora de Dubai, que perdeu o equivalente a US$ 1,4 bilhão com o roubo de 400 mil unidades da moeda digital Ether (ETH), em fevereiro, na hora em que o CEO e cofundador, Ben Zhou, iria transferir valores da carteira fria para uma quente (conectada à internet).
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Na espanhola Bit2Me, os locais para armazenar e movimentar carteiras frias não são chamados de bunkers, mas de locais de “segurança máxima”, segundo o brasileiro João Augusto Teixeira, diretor de Compliance da corretora, que adotou um processo próprio há dois anos. As instalações contam com autenticação biométrica, segurança armada, redundância de energia e internet e controle de acesso por níveis.
— Hoje temos instalações de alta segurança em países diferentes e localizações secretas. Nem todos os funcionários sabem onde ficam — afirma Teixeira, que acrescenta que a regulação europeia tem impulsionado padronização da segurança em empresas de criptoativos.—O risco emergente é o de novas tecnologias para ataque como inteligência artificial.
No Mercado Bitcoin, uma das maiores corretoras de criptomoedas brasileiras, a movimentação das carteiras frias segue uma “cerimônia”, como chamam internamente. Envolve múltiplos responsáveis, autenticação multifator e registro formal de cada etapa.
As estruturas físicas são altamente controladas, segundo Fabrício Tota, diretor de Novos Negócios do MB. Ele diz que empresa aguarda a regulamentação do BC para atuar no mercado de custódia. A avaliação dele, no entanto, é que dificilmente o Brasil vai replicar modelos que exigem percentuais mínimos de ativos off-line:
— Um percentual como os 95% exigidos no Japão seria inviável por aqui. O mercado brasileiro ainda está em amadurecimento, e uma exigência desse porte comprometeria a liquidez e a agilidade nas operações — avalia.
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Para Bernardo Srur, diretor-presidente da Associação Brasileira de Criptoeconomia (Abcripto), o BC deveria focar mais nas regras de segurança e governança das operações do que em como elas devem ser feitas. Para ele, a tendência é que o setor avance para modelos mais tecnológicos, apesar dos bunkers seguirem requisitados:
— Existe espaço para inovação e para o uso de novas tecnologias. Nem sempre será um bunker. A tendência é a combinação de diferentes tecnologias, com foco em segurança, escalabilidade e agilidade operacional.
Jorge Borges, diretor da Fireblocks na América Latina, diz que a demanda por soluções de custódia tem crescido com a entrada de instituições financeiras no setor, mas isso não significa que ela será absorvida apenas por bunkers. A companhia fornece tecnologia para custódia, incluindo um sistema que distribui as chaves privadas em diferentes ambientes, como computação em nuvem e servidores físicos.
— Mais do que onde a chave está, importa a segurança e a governança do processo de acesso — avalia ele, destacando que a indústria cripto tem buscado se adequar ao nível de exigência de instituições tradicionais.
As criptomoedas são ativos digitais cujas transações têm por trás a criptografia (comunicação por meio de códigos). Diferentemente do dólar ou do real, não são emitidas por bancos centrais de governos. No caso do Bitcoin, a autenticidade é garantida pelo blockchain, rede descentralizada que registra todas as transações. Veja abaixo como investir.
- O investidor abre uma conta em uma plataforma ou corretora especializada (exchange)
- Por meio de um app, dá ordem para a compra de determinada quantidade de uma criptomoeda
- A plataforma credita o saldo do cliente e guarda os criptoativos em carteiras digitais, que podem ser individuais ou fundos com vários cotistas
- Uma chave digital privada (uma espécie de senha) é criada virtualmente para cada carteira, que pode ser armazenada on-line (na nuvem) ou off-line
- A plataforma consolida as operações e as registra na rede blockchain

