No primeiro verso de sua mais conhecida parceria com o músico Maurício Tapajós, o poeta Aldir Blanc diz que “o Brazil não conhece o Brasil”. O cenário hoje é diferente daquele de 1978, quando a clássica “Querelas do Brasil” foi lançada. Em 2025, muita gente que escreve o nome de nosso país com “z” exibe intimidade cada vez maior com o que encontra por aqui. E, modéstia à parte, o fã-clube internacional se interessa especialmente pelo Rio de Janeiro. Os números vêm crescendo: em 2024, segundo a Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur), chegaram ao estado 1.528.133 viajantes internacionais, o que representa um total 28,1% maior do que o de 2023. Neste ano, só em janeiro e fevereiro foram 502.259 estrangeiros, contra 333.903 no mesmo período do ano passado — um aumento de 50,4%.
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Diante de tanto encanto, até a sempre lembrada sensação de insegurança é minimizada. A portuguesa Maria do Mundo viralizou com um vídeo na orla do Leblon, além de um alerta fake com 500 mil visualizações no Instagram e outras 400 mil no TikTok. O título era “Roubada no Rio de Janeiro”, e o conteúdo, um deboche: “Cuidado quando vocês vierem para o Rio de Janeiro. Acabaram de levar toda a minha vontade de ir embora!”.
Frederikke Gjedde Palmgren, nascida na Dinamarca, também foi transformada pela cidade: aqui se casou, teve uma filha e adotou o nome artístico Fefe Life. No Instagram, um vídeo em que elogia o Sistema Único de Saúde (SUS) teve 9,7 milhões de visualizações.
— Agora estou morando na Suécia e o tratamento médico não é como o que tive num hospital público do Rio. Sobre a violência, é comum a gente receber alertas. Pensava que seria mais perigoso — diz Fefe, que é produtora musical, se tornou funkeira e planeja vir morar em uma comunidade carioca em breve.
Seduzido pelo estilo de vida carioca, Regan Hart Zanes trocou os Estados Unidos e 12 horas diárias de trabalho no mercado financeiro pela rotina de influenciador.
— O meu maior público é de brasileiros, uns 60%, mas o interesse dos gringos é alto e tem subido. Os outros 40%, em sua maioria, são de pessoas que falam inglês — diz o morador de Ipanema.
Atenta à forma como o conteúdo de influenciadores estrangeiros impacta o turismo, a secretária municipal da pasta, Daniela Maia, criou em 2021, ainda na Riotur, o edital Rio Digital Influencer, que fazia de blogueiros embaixadores da cidade. Em abril, haverá uma nova chamada, incluindo os estrangeiros.
— Não há incentivo financeiro — ressalta. — Mas um reconhecimento da prefeitura àqueles perfis.
A Embratur também vai abrir um concurso para criadores. Em nota, explica que “a proposta pretende estimular, com premiações em dinheiro, a publicação de vídeos em redes sociais com dicas sobre os destinos brasileiros em línguas estrangeiras”.
Especialista em marketing digital, o inglês Nick Whincup, 34 anos, rebatizado Nick do Brasil, viajou por mais de 30 países e escolheu o Rio para viver. Seus vídeos mais populares são os que mostram curiosidades.
— Consigo identificar detalhes que não chamam atenção de quem vive aqui: a maneira como as pessoas fazem amizade até na fila do supermercado ou batem palmas na praia quando uma criança está perdida — diz.
Sua conterrânea, a professora de inglês Chloe Sinclair, de 31 anos, mostra nas redes por que trocou Londres pelo Rio: ela conta como a cidade é convidativa à prática de esportes e à alimentação saudável. A carioquice adquirida não a impede de tomar sustos.
— No Ano Novo (no Rio) paguei R$ 32 por um palmito. Fiz escândalo achando que estavam cobrando preço para gringo. Até que a garçonete pegou o cardápio e mostrou que era o valor real — diverte-se.
A França é o país da Europa que mais envia viajantes para o Rio. Nascido nos Alpes, Nino Fallard era um anônimo em sua terra natal. Mas os dois mil seguidores que tinha no Instagram quando pisou em solo carioca, em dezembro, viraram 182 mil. Ele não tira mais o chinelo do pé, nem pensa em ir embora, e é reconhecido no país de origem.
— As pessoas de fora gostam de ver como pensa um gringo que conhece aqui — diz.
Que o diga a canadense Serena Lee: o vídeo em que pede uma cerveja “litrão” num bar carioca chegou a 1,2 milhão de visualizações.
— Tenho seguidores na Finlândia, na Alemanha, em todo o mundo — conta, já de volta a Toronto, onde vive.
A francesa Eve Yeboah, influenciadora, filha de ganenses, afirma que, na Alemanha, onde mora, identifica mais preconceito racial, mas viveu um desconforto no Rio:
— Numa loja, só me atenderam quando perceberam que eu tinha sotaque.
O episódio não a afastou do Rio, onde passa três a quatro meses por ano, levando outros estrangeiros a conhecerem o que a encantou.
— A gente visita o Cristo, o Pão de Açúcar, a Escadaria Selarón, o Maracanã… Também temos aula de samba, de culinária brasileira e vamos ao Sambódromo — lista.

