Don Draper, o publicitário de “Mad men”, é lembrado até hoje, mas saiu de cena há dez anos, quando a cultuada produção terminou. A partir do próximo dia 11, seu intérprete, Jon Hamm, será visto na AppleTV+ em “Seus amigos e vizinhos”. De 2015 em diante, ele conseguiu escapar da armadilha que transforma um papel marcante numa camisa de força para tantos atores. Provou suas capacidades na comédia (fez “Curb your enthusiasm”, ao lado de Larry David), no drama (em “The morning show”, como um bilionário das techs) e como um vilão (o xerife Roy Tillman na quinta temporada de “Fargo”, um tipo quase farsesco, e um milionário do ramo do petróleo no Texas em “Landman”). Hamm reconhece, porém, que foi criterioso na construção de sua trajetória. Mas garante que isso não significa, de maneira alguma, que renegue um grande sucesso.
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— Eu adoro olhar para trás, para “Mad men”, e ver que ela ainda interessa e agora é vista por novas gerações. Ser associado a um personagem de sucesso, afinal de contas, é um “bom problema” — pondera sorrindo, em entrevista por videochamada, de Nova York. — E, sim, eu escolho meus trabalhos com muito cuidado sempre. Mas as razões que me atraem para aceitar convites são as mais variadas. Fiz “The morning show” para poder trabalhar com Jennifer Aniston, por exemplo. Era um desejo antigo. Na série atual, eu também quis estar no elenco com Amanda Pett (que interpreta a ex-mulher de seu personagem). E eu participei do projeto da série desde o início (ele também é produtor executivo). Sentei com Jonathan Tropper (o criador) para falar dela antes mesmo de a história existir.
Tropper — que transita entre a literatura e a criação para a TV e o cinema — conta que só fez o roteiro depois que Hamm topou ser o personagem central:
— Sequer nos conhecíamos pessoalmente. Marquei um almoço com ele e expus minha ideia. Quando ele embarcou, escrevi o piloto e apresentamos juntos à Apple.
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O ator participou ativamente de tudo:
— Falávamos muito e eu estava sempre disponível para trocar ideias. “Seus amigos e vizinhos” é um drama familiar com suspense e humor. Hamm vive Andrew Cooper, um gestor de fundos de investimento recém-divorciado com dois filhos adolescentes. Mora em Westmont Village, um daqueles subúrbios da elite nova-iorquina.
A instabilidade afetiva em que mergulhou depois do casamento desfeito é contrabalançada pela segurança econômica derivada de uma carreira ascendente. Mas isso também rui quando ele perde o emprego. Desesperado por dinheiro, rouba o relógio da coleção de um vizinho. Esse ato inicialmente circunstancial o empurra para o caminho do crime — sem mais detalhes para evitar o spoiler.
— Essa é a história triste e absurda de um sujeito que faz uma primeira concessão e acaba atravessando uma linha moral importante. Seus limites éticos se expandem — analisa Hamm.
O personagem passa por um drama, mas o ator frisa que “Seus amigos e vizinhos” não perde a leveza, e isso é uma escolha:
— Vivi o suficiente para entender que o humor está presente em tudo na vida. Existe uma dose de comédia até nos momentos mais terríveis. Eu defendi que os personagens não deveriam parecer arrogantes e que tudo se mantivesse amarrado à realidade de alguma maneira — frisa.
Além do drama pessoal, a série lança um olhar mais amplo sobre o painel social na forma como retrata o ambiente onde o enredo se desenrola. O dinheiro é um fator central para todos os personagens, e o roteiro destaca isso.
Hamm conta que conhece bem esse mundo e, na juventude, viveu perto de uma comunidade como a da ficção, em Saint Louis (no estado do Missouri), onde cresceu (“Sou familiarizado com esse tipo de lugar. Minha casa não era assim, mas eu morava nas imediações de uma cidadezinha dessas e tinha amigos lá.”)
Perguntado se na vida real é um bom vizinho, ele ri:
— Sou sim. Pode perguntar por aí. Você vai ver.
Para Tropper, trata-se de um retrato bem realista de um universo. Para criá-lo, ele diz que recorreu à experiência própria.
— Eu vivi em lugares como Westmont Village — explica Tropper. — Esses personagens não querem apenas ter muito dinheiro. Eles precisam dar sinais de riqueza. Querem o uísque escocês mais caro, mas, depois que realizam esse desejo, sentem necessidade de ir para a Escócia fabricar seu próprio uísque. E por aí vai. Ficam entediados. Há um elemento de sátira na série, mas ela não é um deboche. Esses são seres humanos, e o enredo tem empatia por eles.
Antes mesmo da estreia, a AppleTV+ já anunciou a segunda temporada, e Tropper vislumbra uma terceira leva de episódios. Diz que tem “o arco em mente”.

