A corrida no asfalto é sem dúvida a mais procurada no universo dos corredores amadores e profissionais. Mas, a busca por experiências mais imersivas na natureza tem levado muita gente para a corrida de trilha e montanha.
Segundo Bernardo Fonseca, CEO da X3M, organizador do Circuito XTerra, evento pioneiro de trail no Brasil, a procura pelas provas aumentou 39% de 2023 a 2024. A expectativa de crescimento para 2025, em comparação ao ano passado, é de 77%. O Circuito XTerra é o maior do gênero off-road do mundo e está presente em 52 países.
— Há 20 anos, ninguém sabia o que era correr na trilha, sair do asfalto. À época foi uma inovação porque saímos da mesmice, do lugar comum da prática esportiva. E o mundo off-road muda sempre, a cada ano, a cada chuva, um novo trajeto surge ou se transforma — observa Bernardo, que também é corredor. — Quem corre trail procura algo além da prática da corrida, de simplesmente correr. E em algum momento, as pessoas querem algo a mais.
Bernardo conta que, geralmente, quem corre trilha já passou pelo asfalto. Acredita que esta modalidade é quase “uma continuidade da vida útil do corredor”. Não à toa, o perfil do seu público é mais experiente, entre 30 e 45 anos, e que gosta de investir em viagem.
— Poucos procuram performance, querem a experiência, explorar lugares bonitos, viajar. Não é uma prova que se pega o kit, depois a medalha e volta para casa como se fosse um treino. A trilha deixa memórias — afirma.
Para este ano, o XTerra terá uma etapa em Nova Lima (MG), dentro da Mina de Águas Claras (MAC), da Vale, localizada no Parque da Serra do Curral. Em 2024, a X3M organizou um evento teste neste local e com funcionários da Vale. Desta vez, a corrida será em novembro e para o público em geral.
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No total, o XTerra terá nove etapas, com cinco modalidades, entre elas o trail run. A estreia, em março, aconteceu em Ilha Grande e teve cerca de 60% de crescimento em relação a 2024.
A lista tem ainda etapas na Ilhabela (de 6 e 7 de junho), Amazônia (julho), Caraguatatuba (agosto), Bocaina (agosto), Aracruz (setembro), Brasília (novembro, a confirmar a data) e Búzios (novembro). São provas de 5k,10k e 21k; na Amazônia terá ainda 50k.
Enquanto o XTerra não chega, Nova Lima será sede de outra corrida já neste sábado, no Parque Estadual da Serra do Rola Moça. Trata-se da segunda etapa da World Trail Races, também um dos circuitos de trail mais importantes do país.
— Arrisco dizer que os percursos de Nova Lima são os mais bonitos do nosso calendário. Incluindo a prova curta (9k) — promete Gabriela Corrêa, head da WTR, ao citar a possibilidade de avistar cartões postais como os mirantes dos Planetas e das Três Pedras.
De acordo com Gabriela, o número de participantes nas suas corridas de trail cresceu 33% de 2023 para 2024. Para a etapa de Nova Lima, o crescimento foi 63% em relação a 2024, quando esta etapa passou a integrar o circuito. Serão 778 atletas no trail run e 230 mountain bike.
O WTR, que nasceu em 2014, tem oito etapas no total — a estreia, em março, ocorreu no Parque Nacional da Floresta da Tijuca e teve aumento de 40% de participantes.
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— Trail está no hype como se diz.
Em maio, o circuito vai para Arraial do Cabo (RJ). Depois as etapas serão em Miguel Pereira (julho), Campos do Jordão (outubro) e Petrópolis (novembro), todas com provas de trail run e mountain bike.
No ano que vem, segundo Gabriela, o WTR “sairá” do Sudeste para desembarcar no Rio Grande do Norte, em Pipa, no município de Tibau do Sul. Segundo ela, a ideia é expandir ainda mais, internacionalmente, entre 2026 e 2027.
— Tem muito espaço para crescer. As pessoas ainda estão conhecendo o trail run. E o Brasil ainda é carente de provas de alcance nacional e com consistência. Muitas nascem e dois anos depois, morrem. Isso porque trail run requer muito investimento, não é barato. E sempre tem a comparação com a corrida de rua.
Ela explica que trail é outra modalidade. As corridas são realizadas em locais turísticos e as pessoas viajam com amigos ou a família. São eventos completos, com experiências para além do esporte nas arenas, durante todo o final de semana.
— Existe um preconceito que é achar que quem corre na rua não conseguirá correr na trilha. E, um relato recorrente de quem corre a short, de 7k a 9k, onde tem os entrantes, é que foi mais fácil do que imaginavam. Quem nunca fez uma trilha na vida para ir a uma cachoeira? Os atletas não correm o tempo todo, muitos caminham. Para mim, o custo da viagem e da hospedagem, além da questão do tempo demandado, são os maiores limitadores.
Apesar desses “limitadores”, o crescimento é global. Segundo Associação Internacional de Corrida de Trilha (ITRA), de 2022 a 2023, o Campeonato Mundial de Corrida de Montanha e Trilha (WMTRC), sancionado pelo World Athletics, cresceu em número de países participantes. Foi de 49 para 68. Já há mais de 70 países e cerca de 1.700 atletas previstos para competir neste ano em Canfranc, na Espanha.
A ITRA estima que existam cerca de 20 milhões de corredores de trilha em todo o mundo, sendo praticada em mais de 195 países, em todos os continentes e com mais de 2 milhões de competidores registrados. França, China e Espanha lideram na quantidade de corredores e organizadores de provas.
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— O desafio é único, terrenos irregulares, altimetrias variadas e obstáculos naturais tornam cada prova uma nova aventura. Também há menos pressão por performance como no asfalto. No asfalto se fala muito em pace, na trilha isso não existe. Nunca um 10k na trilha é igual a outro — opina Marcos Campos, representante da ITRA e organizador das corridas TUTAN (Transmantiqueira Ultra Trail Agulhas Negras). — Acho que essa descontração, essa proposta de aproveitar o percurso, é que atrai tanta gente.
O TUTAN, que está na sexta edição, é anual e para a edição de 2025, que será entre 1.º e 4 de maio, em Itatiaia, teve mais que o dobro de inscritos se comparado ao ano passado. Saltou de 850 atletas para 2.030. A competição reunirá corredores de diferentes níveis em percursos de 12k 21k, 42k, 63k, 70k e 100k.
— Na trilha, a interação entre os atletas profissionais e amadores é muito maior. Há partes do percurso que não dá para correr, é para andar mesmo. E as pessoas se juntam, se ajudam, trocam gel. — comenta Marco, para quem a trilha é apaixonante. — Geralmente as pessoas começam a correr no asfalto por uma questão de praticidade. Nem todos têm acesso a trilhas no dia a dia. Mas, uma vez que migrou para a trilha, não tem volta.
Marco também acredita que o mercado está em expansão, assim como as corridas no asfalto. Levando em consideração dados da plataforma Ticket Sports, a maior plataforma de inscrições para eventos esportivos da América Latina, o “boom mesmo” ainda está por vir:
O aumento de oferta de corridas de trail nesta plataforma foi de 13% em 2024; passou de 186 eventos em 2023 para 210. Mas, elas representarem apenas 2% dos produtos oferecidos.
