Quem passa pela Rua Augusto Severo a caminho da Rua do Catete não perde o tempo. Há 120 anos, o Relógio da Glória integra a paisagem daquele trecho da Zona Sul. Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), o equipamento com quatro faces que exibe algarismos romanos fica sobre uma coluna esculpida em granito e mantém até hoje seu mecanismo original.
Para comemorar o aniversário, a Secretaria municipal de Conservação (Seconserva) fez um serviço de manutenção no relógio, concluído nesta semana. Além de limpeza e pintura, foram feitos uma revisão na caixa de ferro fundido onde fica a engrenagem do equipamento e reparos no mecanismo em geral. Como não há peças de reposição à venda, quando ocorre alguma avaria, é preciso restaurar o componente à mão ou ir atrás de torneiros que consigam fazer uma réplica do elemento quebrado.
José Mendes Neto, de 63 anos, técnico em restauro de relógios — que brinca que sua profissão “está em extinção” —, já cuida do Relógio da Glória há 25 anos. Ele herdou a profissão de seu pai, o português Manoel Francisco Mendes, que, ao chegar no Brasil, trabalhou de graça numa relojoaria só para aprender o ofício, que ensinou ao filho.
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Mendes explica que, na prática, o relógio funciona sem qualquer programação eletrônica. Duas vezes por semana, ele precisa ir até o local e dar corda (literalmente), além de ajustar qualquer atraso ou adiantamento, já que este não é um equipamento de precisão.
— No ato de dar corda, nós colocamos uma chave num eixo. Você vai enrolando esse eixo e suspendendo o peso, de cerca de 60 quilos, e a corda é acionada por intermédio de um cabo de aço. À medida que o relógio está funcionando, o peso vai descendo: isso dá uns quatro dias de autonomia — conta o relojoeiro, que acumula 48 anos de carreira. — Com todo esse tempo de profissão, ainda tem dias que chego a me emocionar ao conseguir fazer uma restauração.
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A Seconserva informa que um contrato específico para essa manutenção está em fase final de contratação. Mendes lembra que o ofício sempre garante surpresas. No próprio Relógio da Glória, certa vez, uma barata entrou na engrenagem e foi a responsável por fazer o equipamento parar. Este é o único relógio público sob os cuidados da prefeitura a manter o mecanismo original: relógios no Largo da Carioca, no Centro; na Cacuia, na Ilha do Governador; e outros três conjuntos no Méier já utilizam máquinas eletrônicas para funcionar.
— Esse não é apenas um relógio. É um símbolo de identidade, de pertencimento, e um marco da urbanização moderna da cidade. Restaurar o Relógio da Glória é devolver ao carioca um pedaço da sua própria história — observa Diego Vaz, secretário municipal de Conservação.
No Rio, no entanto, ainda é possível encontrar outros relógios que mantêm o mecanismo original, como o caso da Fiocruz e o da Ilha Fiscal, ambos sob os cuidados de José Mendes.
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Inaugurado em 15 de abril de 1905, o Relógio da Glória demarcava a localização da antiga Praia da Glória. Os trilhos do bonde e os paralelepípedos da rua do início do século XX — eternizados em fotos em preto e branco — deram lugar ao asfalto e ao vai e vem de ônibus, carros e motos. Já o metrô, que tem uma estação a menos de cem metros dali, passa por baixo.
Símbolo de outros tempos — quando o então prefeito Pereira Passos ficou conhecido como Haussmann (nome do prefeito de Paris) dos Trópicos, por promover uma reforma urbana inspirada na que foi realizada na capital francesa —, a instalação do Relógio da Glória fez parte de um conjunto de melhorias, que incluíam iluminação pública e tratamento de esgotos. Com material francês, mas com máquina instalada pelo relojoeiro alemão Frederich Krussman, o equipamento integra a balaustrada da Rua da Glória.
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