O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) avança no plano de remoção da Favela do Moinho, uma das últimas do Centro de São Paulo, mas moradores ouvidos pelo GLOBO se queixam das alternativas dadas pelo poder público para deixarem o local onde vivem há décadas. Nesta terça-feira (15), um protesto de moradores da área contra as medidas do governo foi encerrado por bombas da Polícia Militar. O governo planeja instalar um parque e a futura estação de trem Bom Retiro, mas para isso precisará se acertar com a União, proprietária da maior parte do terreno onde vivem hoje 831 famílias, de acordo com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU).
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A CDHU informa que 531 famílias da Moinho já fizeram o cadastro para receberem uma nova moradia. A maioria será transferida para imóveis construídos pelo governo ou em parcerias público-privadas. Ainda não há data para a entrega dessas unidades. Enquanto esperam, os moradores removidos receberão um auxílio-aluguel de R$ 800, valor dividido pelo estado com a prefeitura.
Uma parte menor dos moradores, de acordo com o governo estadual, optou por receber uma carta de crédito, que varia entre R$ 200 mil e R$ 250 mil, a depender do bairro onde fica o imóvel pretendido. Mas os moradores ouvidos pelo GLOBO reclamam da maneira como o processo é feito — alegam que as pessoas estão sendo pressionadas e se queixam de falta de diálogo com o governo Tarcísio.
Desde os nove anos no Moinho, Alessandra Cunha, hoje com 40, viu o local mudar. Com sua família, estava na primeira leva de moradores que se instalaram na área sob o viaduto que separa as avenidas Rudge e Rio Branco, no Centro. Quando chegou, conta, tudo era mato. Ajudou a erguer moradias em mutirões, viu os barracos de madeira darem lugar às casas de alvenaria, derrubou muro construído pelo poder público, ajudou a apagar incêndios que destruíram parte da favela e a conseguir na Justiça o direito de usucapião da terra. Hoje, reconhece que a batalha pela regularização fundiária do Moinho está perdida, mas pede um destino melhor para os moradores.
— Em agosto, houve uma megaoperação da polícia e a partir daí a CDHU começou a entrar na comunidade. Em nenhum momento o governo Tarcísio deu alguma garantia. Não se sabe em quanto tempo vai ficar pronto o empreendimento, se vai ficar perto, nada. E as pessoas estão sendo pressionadas a assinar — contou ao GLOBO.
Alessandra lembrou que outros moradores de favelas passaram por remoções e enfrentaram um périplo até assegurarem a moradia permanente. Uma comunidade neste caso é a Favela da Ilha Verde, na Vila Leopoldina, em que as unidades habitacionais só foram entregues em 2020, 13 anos depois da remoção.
Moradores contaram que o prazo dado pelo governo Tarcísio para algumas famílias da Moinho é de dois anos até as novas moradias ficaram prontas. Em nota, a CDHU não se comprometeu com um prazo. E informou que, além do auxílio-moradia, foi oferecido auxílio-mudança de R$ 2,4 mil para as famílias que saírem.
O advogado Vitor Nery, do Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns, da PUC-SP, que representa a comunidade na negociação com o estado, afirma que a regularização fundiária da área seria o ideal. Ele tem defendido melhorias nas propostas já feitas pela CDHU, como a garantia do atendimento habitacional “chave a chave”, em que a família só será removida quando receber a chave do imóvel do poder público. Essas e outras reivindicações foram encaminhadas ao governo do estado e estão sendo tratadas também com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU).
— Os imóveis da CDHU não estão prontos. Podem demorar um ano, dois, quatro A gente pede que o documento seja atrelado ao imóvel que a pessoa escolher. Para ela sair do Moinho e saber que vai no empreendimento que ela escolheu, e não em qualquer um — diz Nery.
Alessandra Cunha pondera que a carta de crédito, que seria a alternativa imediata para que as pessoas tenham moradia permanente, tampouco soluciona o problema, pois o valor não custeia um apartamento ou casa para uma família.
— Por esse valor, de R$ 200 mil ou R$ 250 mil, só quitinete. E a pessoa está saindo da sua casa para abraçar uma dívida. As pessoas investiram para construir suas casas, aí vão ter que escolher pagar mais 30 anos de uma casa? A gente quer o chave a chave com a gratuidade, sair de uma casa para outra — acrescenta.
Planos do governo enfrentam percalços
O governo pretende implantar no local o Parque do Moinho e, depois, uma estação de trem das linhas 10 (Turquesa) e 11 (Coral), da CPTM, conforme adiantou O GLOBO no ano passado. Mas a simples remoção das pessoas não significa que o terreno estará pronto para uso imediato, já que a União é dona da maior parte da área e a cessão do terreno ainda está sendo negociada.
Segundo a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), a transferência do terreno “está condicionada à garantia do direito à moradia das famílias que vivem no local”, e ainda não á previsão para fechar o acordo.
O órgão federal informou ainda que o processo depende de “ajustes e complementações, por parte da CDHU no plano de reassentamento”, que foi enviado somente neste mês. “A SPU também aguarda a entrega do detalhamento do projeto a ser implantado na área pelo Governo de SP, a fim de que seja definido o instrumento de destinação a ser utilizado. Somente após esse acordo será possível avançar nos trâmites administrativos para a formalização do contrato de cessão”, destacou.
A CDHU informou que as negociações com a União estão em andamento e que tem se reunido com lideranças da favela desde o ano passado para apresentar opções de atendimento habitacional. Também explica que já realizou um chamamento público para empreendimentos no centro expandido da capital “suficientes para atender à demanda”.
“Quem quiser, poderá ser destinado a unidades em outras regiões. A CDHU reforça que todas as famílias serão atendidas dentro das modalidades disponíveis no portfólio da CDHU, preferencialmente por Carta de Crédito Associativa e Carta de Crédito Individual. O reassentamento das famílias da favela do Moinho é importante pelo risco aos moradores, devido às instalações insalubres e com potencial de perigo pela precariedade de construções e ligações elétricas. Exemplo disso são dois grandes incêndios já registrados no local”, informou a CDHU.
Já a Prefeitura de São Paulo informou que, além de custear metade do auxílio-moradia de R$ 800, também faz mutirões de atualização do CadÚnico para que os moradores tenham acesso a benefícios sociais. “No mês de março, um mutirão ofereceu orientações sobre benefícios sociais e realizou cadastros. Em cinco dias de ação, foram 180 atendimentos e 125 cadastros. Neste mês, um mutirão de empregos ofereceu 400 vagas aos moradores da comunidade e, além disso, aconteceram atendimentos para fomento ao empreendedorismo”, destacou a gestão Ricardo Nunes.
Planos para acabar com a favela do Moinho, que existe desde a década de 1990 e é uma das poucas no Centro da capital paulista, não faltaram ao longo das últimas décadas. Encapsulada entre os trilhos de trem das linhas 7 (Rubi) e 8 (Diamante), a com unidade ocupa área de aproximadamente 23 mil metros quadrados e tem apenas um acesso.
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A favela assim foi batizada por ficar no local onde funcionava o Moinho Central, indústria de moagem de farinhas desativada na década de 1980. O histórico de disputas na região é grande. Houve tentativas de desapropriação, brigas entre a prefeitura e a União sobre a posse de terrenos e seguidos incêndios.
A história da favela está intrinsecamente ligada aos trilhos que a cercam. A ocupação, no início na década de 1990, se deu primeiro em um terreno que pertencia à Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Em 1999, o terreno foi leiloado para a Mottarone Serviços de Supervisão, Montagens e Comércio LTDA, para quitar dívidas tributárias da RFFSA. Mas os moradores que viviam no local alegaram usucapião da área e entraram na Justiça para permanecer lá. Houve uma disputa jurídica para entender o que de fato seria da Mottarone, da União — como se tratava de uma estatal federal, a União alegava que o terreno deveria passar a ela — e da prefeitura.
Em 2008, a associação de moradores do Moinho entrou na Justiça e conseguiu uma decisão favorável para se manter no local em meio à disputa de posse do terreno. A ação se deu porque o então prefeito, Gilberto Kassab (PSD), queria declarar a área de utilidade pública e desapropriar toda a área.
Entre 2011 e 2012, houve dois incêndios de grandes proporções na comunidade, que deixaram mortos e desabrigados. A relação dos moradores com Kassab foi marcada por conflitos. Após o primeiro incêndio, o prefeito conseguiu na Justiça uma autorização para implodir um edifício de seis andares que pegara fogo, sob o argumento de que o prédio corria risco de desabar. Em 2012, foi feita a implosão com 800 quilos de dinamite, mas parte do prédio permaneceu de pé, e foi necessária uma demolição. Outro problema foi a construção de um muro que isolava a favela, em 2011, derrubado pelos próprios moradores a marretadas em 2013. Eles justificaram que não havia rota de fuga em caso de novo incêndio.
O prefeito seguinte, Fernando Haddad (PT), adotou uma abordagem diferente: em vez de remover a favela, prometeu a regularização fundiária e urbanização do local. Mas nada aconteceu. Somente em 2022 a favela passou a contar com sistema de água e esgoto, feito pela Sabesp após cobranças do Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Operação policial e PCC
No ano passado, o Ministério Público fez uma operação no local, e se referiu à favela como “bunker” do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo o inquérito, a comunidade, que fica a apenas dois quilômetros de distância da Rua dos Protestantes, atual fluxo de uso e venda de drogas no Centro, abriga um “tribunal do crime” da facção e imóveis usados como esconderijo de drogas e armas.
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Os promotores apontaram que lá existia uma central de monitoramento dae comunicações da Polícia Militar, com o uso de antenas e aparelhos que captam a frequência da rádio usada pelas forças de segurança. Elas permitem que os criminosos se antecipem às ações policiais na área central. Essas antenas e os olheiros ficariam estrategicamente posicionados em lajes de casas que dão vista para a Alameda Dino Bueno, que circunda a comunidade. Leonardo Moja, o Leo do Moinho, foi denunciado e apontado como a liderança do PCC na região.
A relação da facção criminosa com a comunidade é citada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil há anos. Em junho de 2017, houve uma grande operação na cracolândia que também atingiu a favela, sob o mesmo argumento. Naquela ocasião, Leo do Moinho foi preso pela primeira vez. Uma pessoa morreu, segundo os policiais, após confronto. Moradores denunciaram tortura e protestaram contra a ação violenta. Na época, o então prefeito da capital, João Doria (PSDB), prometeu que iria remover a favela.

