Nascido na Guatemala em 2015 com o propósito de “restaurar o verdadeiro potencial masculino” e hoje com mais de 100 mil adeptos no mundo, o movimento cristão Legendários se espalha no Brasil com o impulsionamento de celebridades e políticos. Ao menos 17 cidades — inclusive as capitais Campo Grande, Cuiabá e Vitória — e dois estados — Mato Grosso e Paraná — já instituíram como lei o Dia dos Legendários. Além disso, integrantes com maior influência econômica deste movimento que só tem homens passaram a incorporar práticas ligadas ao universo financeiro como uma forma de prosperidade, para atrair novos participantes.
- ‘Grau’ mortal: Ilegais, manobras com motos se multiplicam e têm até aulas nas redes sociais
- Peregrinação de fé: Veja as cidades brasileiras por onde a Cruz da Primeira Missa passará
No Brasil desde 2017, quando chegou em Balneário Camboriú (SC), o movimento não está ligado a uma religião específica, embora a maior parte dos eventos esteja vinculada a grandes denominações evangélicas. Para se tornar um legendário, os homens precisam passar 72 horas em uma montanha, sem contato com o mundo exterior, e superar desafios físicos e espirituais. Levar uma Bíblia é um requisito obrigatório. O objetivo é alcançar uma “nova relação” com Deus, com a promessa de que os participantes se tornarão melhores maridos e pais. O preço para subir a montanha como legendário custa em média R$ 1,5 mil, de acordo com a localidade.
Os participantes são instruídos a não contarem para outras pessoas o que acontece nas trilhas. Em março, foi promovida a primeira edição na Europa, em Portugal. Em maio, está marcada a estreia do movimento no Japão. Versões temáticas já foram implementadas, como trilhas exclusivas para solteiros ou apenas para barbeiros — na esteira da adesão de uma celebridade da profissão, Seu Elias, aos Legendários.
Famosos como o influenciador Thiago Nigro, Neymar da Silva Santos, pai do jogador de futebol, o coach e ex-candidato a prefeito de São Paulo Pablo Marçal e o empresário Kaká Diniz, marido da cantora Simone Mendes, estão entre os participantes. A última celebridade a anunciar sua participação foi o ex-BBB Eliezer, que subiu uma montanha em agradecimento à cura de Ravi, seu filho com a influenciadora Viih Tube, que passou 19 dias internado com um problema grave no intestino. “Não deboche nem critique a fé do outro. Fé se vive. Fé transforma. Fé não se explica”, publicou Eliezer esta semana no Instagram, respondendo às críticas por ter se tornado um legendário.
As leis municipais e estaduais que criaram a data para homenagear o movimento foram propostas na sua maioria por políticos cristãos de partidos mais à direita. O primeiro projeto foi apresentado em Dourados (MS) pelo vereador, pastor e legendário Sérgio Nogueira (PP-MS). A lei entrou em vigor em 18 de março de 2024, instituindo 19 de maio como o dia para celebrar o movimento que “tem levado a formar homens inquebrantáveis diante do pecado”, diz o texto do vereador.
Os municípios escolhem datas distintas para a celebração. Em Campo Grande, Cuiabá e Vitória, as datas foram aprovadas entre novembro e dezembro, a partir de propostas de Gilmar da Cruz (PSD-MS), Dr. Luiz Fernando Amorim (União-MT) e Davi Esmael (Republicanos-ES), todos eles legendários. Em Cuiabá, a conquista foi recebida por Amorim como uma homenagem aos homens que “vêm resgatando os princípios masculinos bíblicos”.
Belo Horizonte pode ser a próxima capital a ter um dia especial para homenagear o Legendários. Na terça-feira (15), o vereador e legendário Wanderley Porto apresentou um projeto de lei para que o 23 de julho passe a ser o Dia Municipal dos Legendários. Na justificativa do projeto, Wanderley diz que seria um “reconhecimento oficial do impacto positivo desse movimento na cidade” e a iniciativa “reforçará o compromisso de Belo Horizonte com o respeito à diversidade religiosa e à promoção de valores que beneficiam toda a sociedade”.
Mesmo em municípios onde ainda não há essa lei, os legendários passaram a ser recebidos pelas prefeituras, se colocando à disposição para auxiliar em ações sociais.
Em Divinópolis (MG), o prefeito reeleito e legendário Gleidson Azevedo (Novo-MG) tomou posse na Câmara Municipal com a roupa do grupo: uma camisa laranja de botão e mangas curtas, com brasões e a frase “desfrute o caminho” nas costas. Nesta semana, nas redes sociais, Gleidson publicou um vídeo em que reclama das críticas ao movimento, afirmando que “quando é de Deus, começa a perseguição”. Assim como Azevedo, Lucas Zanatta (PL-SP), prefeito de Araçatuba (SP), participa do movimento e passou a receber outros integrantes do grupo na prefeitura para “andar lado a lado” com ele e “transformar a cidade”.
De acordo com o pastor Valdemar Figueredo, doutor em Ciência Política e idealizador do Observatório da Cena Política Evangélica, grupos políticos e empresariais podem tomar a frente do movimento para ampliar sua influência. Quando essa aproximação é em cidades menores, a dimensão fica ainda mais relevante, por conta da influência política exercida, afirma.
— Esses grupos, seja por afinidade, seja por estrutura, acabam por absorver esses movimentos — avalia Figueredo — Um prefeito tomar posse vestido de legendário é um código, uma certeza de que ele não está falando para poucos, de que não está se comunicando com um grupo insignificante. Isso não vai se voltar contra ele porque existe uma estrutura de redes que se conectam, não apenas na questão religiosa.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/W/e/hgmez1QReAsaeZ8DP57w/prefeitodivinopolis.jpeg)
Quando os projetos não são sugeridos por vereadores legendários, chegam aos políticos a partir do pedido de assessores parlamentares e de amigos que fazem parte da organização. Em Porto Alegre, a tentativa de também instituir a data especial tramita desde o mês passado, em proposta protocolada pela vereadora Fernanda Barth (PL-RS), que conheceu o movimento por um amigo. Segundo Barth, o objetivo é destacar a importância de fortalecer os valores familiares.
Para Paulo Gracino Júnior, teólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB), essa ligação tem a ver com a adesão de personalidades famosas que também têm interesses políticos, como Pablo Marçal. Sem se atrelar a uma única igreja e com a propagação de ideais masculinistas — justificados por passagens bíblicas que mostram o vigor do homem — eles conseguem alcançar mais pessoas.
— O homem que adere esses movimentos masculinistas acredita que o lugar natural dele, que é de provedor, forte, viril, que acolhe os filhos e a mulher, que cuida da família, está sendo questionado — destaca.
Ligação com mundo financeiro
As pistas, como são chamadas as trilhas de cada evento, são abertas nas cidades como uma espécie de franquia, e os valores podem ir de R$ 1,2 mil a R$ 1,8 mil. A quantia é justificada pelos organizadores como necessária para bancar os custos operacionais. Segundo os líderes do “Top 1003”, a trilha feita no fim de semana passado em Balneário Camboriú, realizada pela Igreja Embaixada, contou com 300 homens.
Os retiros também podem ser organizados em eventos privados, como o promovido em janeiro em Orlando, na Flórida, quando os legendários foram recebidos após a trilha em uma edição do Poder do Network. A conferência é realizada pelo empresário e legendário Bruno Avelar e é voltada para empreendedores, investidores e profissionais de marketing. “A gente fala muito de Deus nesse evento, sem religiosidade, eu não sou pastor”, disse Avelar em um vídeo publicado nas suas redes sociais.
Entre os 15 convidados para palestrar, 9 eram legendários: Deive Leonardo, Joel Jota, Nezio Monteiro, Tiago Brunet, Tiago Fonseca, Pablo Marçal, Paulo Kazak, Seu Elias e o guatemalteco Chepe Putzu — o fundador do movimento, graduado em administração e mestre em marketing. Com a exceção de Putzu e do empresário e barbeiro Seu Elias, todos os citados entraram para o grupo durante o evento. O influenciador evangélico Deive Leonardo, inclusive, se apresentou com a vestimenta que utilizou durante o fim de semana de trilha. O empresário Marcus Marques, que também palestrou, se tornou um legendário no último mês.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/z/6/SnIXZCQz6GylIh6GoBIw/arte-4-.png)
A prática divide opiniões. Nas redes sociais, milhares de comentários de participantes destacam os benefícios do Legendários: desceram da montanha transformados como novos homens, com mais fé e buscando melhorar na vida familiar. Além disso, mulheres que integram o movimento “Esposas de Legendários” fazem questão de publicar testemunhos sobre a ida de seus maridos ao retiro. “Meu marido voltou manso”, “nosso casamento foi restaurado” e “voltou carinhoso, me abraça durante a noite” são alguns dos relatos.
Um integrante de uma igreja em Minas Gerais, que não quis se identificar, disse o fomento ao empreendedorismo passou a constranger homens que não aderem ao movimento, e levou outros a “subir na montanha” motivados não só pela questão espiritual, mas também pela busca do network profissional. A ligação com investimentos pode ajudar os participantes a melhorar a condição de suas famílias, administrando e empreendendo “de acordo com a fé”.
— É difícil ver a intencionalidade desse arranjo, tudo ainda está por vir. Mas essas coisas estão perto, há uma apropriação, certamente, porque há uma identidade de linguagem, uma proximidade teológica com uma leitura fundamentalista da Bíblia — afirma o pastor Valdemar Figueredo.
Ao mesmo tempo, é possível observar o aumento da criação de “bancos cristãos” voltados para crentes e igrejas, como o Ictus Bank, que se define como o “primeiro banco cristão do Brasil”; o Christian Bank, que afirma que os “investimentos são as sementes de fé no futuro; e o Propósito Bank, que tem como valor “crescer no caminho da honra e dependência de Deus”. Nas redes sociais do Christian Bank, as propagandas são feitas pelo pastor Galdino Junior, presidente da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Ministério em Santo Amaro (ADSA) e membro dos Legendários, que promete aos clientes “aliar os investimentos aos valores cristãos”.
O sócio do Propósito Bank, o corretor de imóveis Ricardo Martins Broker, passou a integrar os legendários há cerca de um ano. De acordo com ele, a ideia de criar o banco surgiu a partir de uma tentativa de se contrapor “especialmente aos bancos maiores”, definidos pelo corretor como “progressistas”, além de buscar “injetar dinheiro no reino”. Broker possui mais de 1 milhão de seguidores nas redes sociais, e agora divide suas postagens profissionais com outras ligadas aos legendários.
Em um vídeo publicado recentemente, ele justifica o alto custo do evento como sendo ainda necessário, mas que parte do dinheiro arrecado vai para as igrejas, que podem utilizá-lo para melhorar suas respectivas infraestruturas. Para o corretor, o objetivo do Legendários é tentar diminuir o preço cobrado ao longo do tempo, implementando nas trilhas ingressos doados e criando retiros sociais em favelas. Ainda na filmagem, é possível ver Broker utilizando acessórios laranjas ou do próprio legendários, itens que, de acordo com ele, servirão de souvenirs para a arrecadação de verbas.
Confira as cidades em que a lei foi instituída:
- Dourados (MS): Lei Nº 5.186 de 18 de março de 2024;
- Santa Rosa (RS): Lei Nº 5.859 de 27 de maio de 2024;
- Cascavel (PR): Lei Nº 7.670 de 10 de julho de 2024;
- Foz do Iguaçu (PR): Lei Nº 5.463 de 14 de agosto de 2024;
- Cianorte (PR): Lei Nº 5.663 de 20 de agosto de 2024;
- Presidente Prudente (SP): Lei Nº 11.477 de 18 de setembro 2024;
- Cuiabá (MT): Lei Nº 7.175 de 26 de novembro 2024;
- Campo Grande (MS): Lei Nº 7.340 de 3 de dezembro 2024;
- Carazinho (RS): Lei Nº 9.203 de 12 de dezembro 2024;
- Tangará da Serra (MT): Lei Nº 6.718 de 12 de dezembro 2024;
- Erechim (RS): Lei Nº 7.522 de 19 de dezembro 2024;
- Maringá (PR): Lei Nº 11.891 de 23 de dezembro 2024;
- Rondonópolis (MT): Lei Nº 13.995 de 26 de dezembro 2024;
- Ijuí (RS): Lei Nº 7.661 de 26 de dezembro 2024;
- Vitória (ES): Lei Nº 10.149 de 30 de dezembro 2024;
- Maracaju (MS): Lei Nº 06 de 16 de março de 2025;
- Zortéa (SC): Lei Nº 803 de 1º de abril de 2025.
Confira os estados em que a lei foi instituída:
- Paraná: Lei Nº 22.037 de 2 de julho de 2024;
- Mato Grosso: Lei Nº 12.734 de 25 de novembro 2024.
(*estagiário sob a supervisão de Alfredo Mergulhão)

