O americano Robert Francis Prevost foi escolhido como o novo Papa na tarde desta quinta-feira e adotou o nome de Leão XIV para seu pontificado. O último pontífice a escolher o mesmo nome foi o italiano Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci, eleito em 1878, que decidiu ser chamado de Leão XIII. Em 5 de maio de 1888 — apenas uma semana antes da assinatura da Lei Áurea —, Leão XIII enviou uma carta aos bispos do Brasil, na qual defendia a liberdade dos escravizados. A carta foi publicada pelo professor Plinio Correa de Oliveira, especializado em Catolicismo, em 1938.
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Logo na introdução, Leão XIII parabeniza o Brasil pelo avanço na abolição da escravidão e reafirma seu compromisso com a promoção da liberdade e da dignidade humana, em concordância com os ensinamentos de Jesus Cristo. Citando Santo Agostinho, o pontífice condena a escravidão como uma das mais profundas misérias da humanidade, incompatível com a ordem natural e divina.
Ao longo do texto, o Papa valoriza a atuação histórica da Igreja que, segundo ele, sempre buscou defender a dignidade humana. Leão XIII ressalta que não deve haver escravidão entre os irmãos em Cristo, pois todos são regenerados pela mesma graça e são. Ele fundamenta esse pensamento nas Escrituras, mencionando as palavras de São Paulo a Timóteo.
— Os que vivem sob o jugo da escravidão tenham os seus senhores como dignos de toda honra. Aqueles que têm por senhores fiéis, não os desprezem, porque são fiéis muito amados e porque são irmãos. Mas sirvam-nos ainda mais, participantes dos benefícios — cita o Papa Leão XIII.
Em outro trecho, o pontífice lamenta profundamente a morte de milhares de africanos vítimas do tráfico escravagista e alerta para o papel fundamental da igreja em lutar para que isso nunca volte a acontecer. Ele também exalta a figura do padre espanhol Pedro Claver, que dedicou 40 anos ao cuidado de escravizados africanos.
— Se os missionários copiarem e reproduzirem em si a caridade e a paciência deste apóstolo, tornar-se-ão seguramente dignos ministros da salvação, consoladores mensageiros da paz. E ser-lhes-á dado, mediante Deus, converter a desolação, a barbárie e a ferocidade em feliz prosperidade da religião e da civilização — escreve o pontífice.
Ao final da carta, Leão XIII manifesta “grande alegria” pela abolição no Brasil e afirma que o nome do Império será celebrado por “todas as nações civilizadas do mundo”. Ele reforça, contudo, que é necessário extinguir qualquer resquício da escravidão.
— O meu maior desejo é ver prontamente abolidos nos seus Estados qualquer vestígio de escravatura — declarou o Papa.
Por fim, o pontífice faz um apelo para que a Igreja atue com vigor na transição para a nova realidade, orientando tanto os antigos senhores quanto os libertos, visando garantir justiça, reconciliação e paz social no Brasil.

