Como é o dia a dia de um treinador da seleção brasileira feminina?
O trabalho é diário, de muitas horas. Acredito que as coisas só vêm com muito trabalho, então não tenho muito horário aqui, chego cedo, e vou embora quando realmente já esgotou e não dá mais. Fico aqui na CBF, analisando muito jogos, muitas atletas. Há um leque grande de observações. Também observamos as atletas de outros países. Fazemos o planejamento para cada convocação, para que a gente chegue com tudo muito bem detalhado. E o trabalho interno junto ao departamento de futebol feminino, para conseguirmos contribuir para o desenvolvimento geral do futebol de mulheres no país.
Você ficou muito tempo no Corinthians, em São Paulo. Agora está morando no Rio ou ainda divide seu tempo entre as duas cidades?
Moro no Rio desde que assumi a seleção. É uma cidade muito boa de morar. Tenho gostado bastante, mas também vou muito a São Paulo. Meu filho está em São Paulo, então sempre que possível estou lá. E também para acompanhar jogos em São Paulo e em outras cidades fora do país.
Com relação a essas viagens para assistir jogos, com que frequência você sai, tanto aqui no Brasil quanto para o exterior?
É bastante. A gente tem acompanhado sempre o Campeonato Brasileiro. Quando tem jogos aqui no Rio, a gente assiste. Em São Paulo, a gente está mais presente porque tem os times que brigam mais em cima na tabela. Eu divido com a minha comissão, então nem sempre sou eu, mas um representante. Todos os dias a gente se divide e acompanha jogos. Daí, eu recebo o material mais filtrado com a avaliação de cada jogadora. Depois da última Data Fifa, contra os EUA, a gente se dividiu. Fiquei duas semanas lá e no México, e foram 14 atletas monitoradas mais de perto. Fomos a sete clubes diferentes, conseguimos conhecer os treinadores, a comissão técnica, os gestores, o departamento médico. É bacana essa relação mais próxima.
E a sua rotina atual, na seleção, é melhor ou pior do que nos tempos de clube?
Sobre ser melhor ou pior a rotina, não tenho como cravar. Mas tive muita dificuldade no começo, pois sentia muita falta de dar treino. Eu gosto muito de estar no treino, fazer o contato com as jogadoras diariamente. Isso é muito importante para você construir não só a relação, mas a gestão do ambiente. Sinto falta até hoje. No começo, foi mais difícil, agora estou mais adaptado.
E qual é a principal diferença entre os dois ritmos?
Por outro lado, na seleção, a gente consegue aprofundar muito mais o trabalho, tem um tempo muito grande para se preparar para aquele objetivo. No calendário feminino atual, o clube em que eu estava, o Corinthians, acabava jogando muitas vezes duas vezes por semana. Era muito corrido.
Mas você só tem trabalhado no Rio?
É muito trabalho, bem mais trabalho que qualquer outra coisa. Às vezes, tento sair, me divertir um pouquinho, aproveitar a cidade, que é ótima. Moro pertinho da CBF, então não saio tanto aqui da Barra, mas, às vezes, vou um pouco à Zona Sul. Vou a restaurantes encontrar os amigos. Às vezes, dá tempo de um pouquinho de lazer. Onde moro tem sido um facilitador na nossa rotina de bastante trabalho.
A mudança de São Paulo para o Rio te trouxe uma qualidade de vida melhor?
Acho que sim. Estou a dez minutos da praia. Tem umas opções parecidas com São Paulo, de gastronomia, de restaurante. Vir para o Rio foi bem legal, e por não estar no campo todos os dias e morar perto do trabalho, isso ajuda um pouquinho também.
Já virou celebridade no Rio? As pessoas te reconhecem na rua?
Sim, param e tiram foto. Mas celebridade, não. Sou treinador de futebol. Quando está ganhando gosta, se perder eu já sei o que vem. Esse reconhecimento é bacana. No Corinthians, já tinha bastante, mas na seleção aumentou, e com as Olimpíadas também teve esse alcance. Espero que seja cada vez mais. Não para mim, mas para as atletas. Tenho certeza que a Copa vai trazer isso para as jogadoras.
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Você trouxe a comissão técnica do Corinthians. Quão importante é essa parceria para o projeto na seleção?
É fundamental. Quando trabalhamos com pessoas competentes e de extrema confiança pelo tempo de trabalho, temos essa sincronia que o tempo traz. É algo muito fluido. A gente discute muito, levanta mais perguntas do que respostas prontas. Isso enriquece o trabalho. Essa comissão já vem desde o Centro Olímpico, alguns antes ainda. E com a Cris (atual diretora do departamento feminino da CBF), a parceria é de muita sintonia desde aquela época. É uma líder no comando de todas as seleções, e eu também tento contribuir para a evolução da base. É um ambiente muito bom de trabalho.
Essa migração de profissionais do Corinthians para a CBF, você acha que o projeto do clube foi enfraquecido?
É muito cedo para dizer se enfraqueceu ou não. Ano passado, o Corinthians ganhou três títulos muito importantes, depois perdeu o Paulista. Foi um ano positivo. E não saiu todo mundo, ficaram muitos profissionais competentes. Claro que quando se troca o treinador e depois a coordenação, vai causar um impacto, vão ter novas ideias. E isso também é positivo. É cedo para fazer esse tipo de análise.
É um sinal também de maior competitividade no futebol brasileiro?
Sem dúvida, a competitividade do futebol feminino brasileiro tem aumentado desde a época em que eu estava lá. Isso é muito bom. E é representado nas convocações com um número grande número de atletas que estão atuando no Brasil. Tem sido frequente por mérito dos clubes.
Mas o que precisa melhorar no atual Brasileiro feminino?
Tem sido competitivo. Os jogos são equilibrados, com boas chances de gol. Mas há questões a melhorar, como a qualidade dos campos e a estrutura oferecida pelas equipes. Isso impacta diretamente o nível do jogo. Também precisamos aumentar o tempo de bola rolando. Fizemos reuniões com treinadores e presidentes para discutir essas melhorias.
Ainda há muitas goleadas no Brasileirão? Isso preocupa?
Preocupa menos do que antes. Antigamente tínhamos goleadas de 16 a 0. Agora, são esporádicas. Às vezes, um clube está com elenco muito jovem ou ainda não estruturado. Mas vemos melhorias, inclusive na Série A2. Essas goleadas vão diminuir ainda mais com o tempo.
Ainda vemos dificuldades em atrair público para os jogos. Por quê?
Porque o futebol feminino é muito recente. Houve uma proibição por muitos anos. Quando voltou, foi sem estrutura. Só agora há mais divulgação e comercialização. O torcedor está conhecendo agora. Por isso, defendo formatos como o mata-mata, que trazem mais emoção e engajam mais. Mas precisamos de um pouco mais de calma. Isso é um processo. Se for olhar em números absolutos, o futebol feminino leva mais público do que, muitas vezes, o basquete, o vôlei ou outros esportes. Por ser em ginásio, parece que tem mais gente, mas não.
Qual seria, então, o formato ideal do Brasileiro feminino?
Caminhamos para um bom formato. Eu tinha dúvidas sobre o número de equipes, mas com os campeonatos de base em alta, acredito que vamos ter 20 bons elencos nos próximos anos. Defendo manter o formato com mata-mata, diferente do masculino. Isso engaja torcedores e prepara melhor as jogadoras para as competições internacionais.
E sobre a atmosfera dos jogos? O que poderia melhorar?
Eu fui ao México e vi como cada jogo lá é tratado como um grande evento. A transmissão, a organização, tudo impacta a experiência. Aqui também podemos melhorar. Não é só responsabilidade da CBF — os clubes e patrocinadores também têm que fazer sua parte.
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A instabilidade na seleção masculina afeta, de alguma forma, os processos internos da feminina?
Não afeta nada. Existem os departamentos de seleções, há uma integração aqui com todos que trabalham na CBF. De maneira nenhuma isso tem atrapalhado. Torcemos para que as coisas andem bem no masculino, não só na principal, como a base também. O presidente e os outros diretores me recebem quando preciso falar.
E você tem alguma preferência de quem deve ser o técnico da seleção? Deu algum pitaco?
Eu tenho, mas não dá para falar publicamente (risos). Não dei. Aproveito a presença dele para falar muito de futebol feminino. Ele tem agenda bem corrida, então eu aproveito meu tempo para tratar disso. Eu vejo uma oportunidade na próxima Copa, independente do novo treinador, de mostrar o nosso talento. Meu papel é torcer.
Mas há essa troca entre os ambientes das seleções brasileiras?
Sim. Valorizo muito essa troca. Já conversei com Dorival e Diniz, por exemplo. Essa aproximação é positiva, e a ideia é que a gente normalize isso. Queremos mais integração entre profissionais e atletas dos dois ambientes, porque todos estão aqui na mesma intenção de fazer o futebol brasileiro.
Agora sobre a seleção feminina. Em que prateleira você a coloca?
Quando falamos de histórico, EUA está acima de todos. Temos Alemanha, Espanha, Japão. No momento atual, não tenho dúvidas de que a gente está na mesma prateleira e vamos jogar com a mesma chance de vencer. Acho que temos 10 seleções, que estão ali no ranking da Fifa, muito niveladas.
Na América do Sul, Brasil e Colômbia estão muito acima das outras seleções na disputa da Copa América, no Equador?
Nosso objetivo é ser campeão e garantir a vaga para Los Angeles 2028. Brasil e Colômbia estão num patamar acima das outras seleções sul-americanas e são favoritas na Copa América (disputada entre julho e agosto deste ano). Mesmo que sejamos favoritos, sabemos que será difícil, já joguei em Quito pela Libertadores. A competição é em jogo único na semifinal e final, e tudo pode acontecer.
Você mencionou experiência em Quito. Isso ajuda na preparação?
Sim, conheço bem as dificuldades de logística, arbitragem sul-americana, campos e altitude. Já joguei Libertadores lá. Estamos nos preparando para isso. Mas volto a dizer: Brasil e Colômbia são os favoritos hoje.
E em relação à base e à construção de uma identidade? Em que estágio está o trabalho da seleção feminina?
Estamos no mais alto nível. São poucas seleções no mundo que tem algo parecido em termos de identidade, na clareza na forma de jogar, do ambiente, de estrutura na Granja Comary. Nas Olimpíadas, só a seleção americana tinha um número maior de profissionais do que nós. Também vejo nas categorias de base, temos mais profissionais envolvidos. Nesse sentido, não estamos atrás de ninguém.
Qual é a identidade que vocês estão tentando construir?
É uma identidade baseada em mentalidade, ambiente cooperativo, competitivo e seguro. Queremos que as jogadoras se sintam confiantes para jogar ofensivamente e representem bem o Brasil. Muitas jogadoras vêm para cá e performam melhor que nos clubes. Isso mostra que o ambiente e o modelo de jogo funcionam.
Mas o desenvolvimento do futebol feminino no país continua atrás…
Sim, realmente a gente está atrás. E conheço também a história, o porquê de cada país, especialmente a Europa, ter se desenvolvido muito rápido. Por essa massificação, o incentivo a ter mais meninas praticando e depois o campeonato de base formando as jogadoras. Há um projeto para o desenvolvimento do futebol de mulheres nesses países.
Há preocupação com jogadoras promissoras que atuam fora do país, como Juju e Giovana, que receberam propostas para se naturalizar?
Temos tratado esse assunto. Há alguns casos de jogadoras muito jovens, que não é nem bom ficar divulgando isso, porque há uma concorrência, sim, com outros países. Não esses dois citados. Elas são muito identificadas com a seleção. Visitei a Giovana nos EUA, é muito promissora e não vejo a mínima chance de a perdermos. Mas temos que cuidar dessa parte, mostrar a ela o plano que temos. Não podemos manipular ou influenciar a decisão de cada pessoa. Hoje o mundo está globalizado, também há jogadoras que nasceram em outros países, de pais brasileiros. E podemos trazer. Vejo tudo isso com naturalidade.
Foi difícil conquistar a confiança das jogadoras da seleção?
Sim, é sempre difícil ter a confiança de quem você ainda não trabalhou. São muitas atletas, inclusive várias que eu nunca havia tido contato antes. Mas, com o tempo de carreira e a credibilidade que construímos no futebol feminino, elas já chegaram mais abertas. Hoje entendem que esse é um ambiente seguro e que aqui trabalhamos com verdade, olho no olho, querendo sempre o melhor para cada um. Esse ambiente se reflete no campo, com jogadoras mais seguras, confiantes e identificadas com o projeto.
A dificuldade passa por ser homem num ambiente feminino?
Com certeza. Eu entendo bem a realidade da mulher no futebol, num país ainda muito machista, com altos índices de violência contra a mulher. Essas atletas começaram a jogar muito cedo, muitas vezes sozinhas, tomando muitas pancadas. E essas pancadas em 99% foram dadas por homens. Mas essa credibilidade que eu e minha comissão conquistamos durante esses anos, facilita.
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Você acredita que essa confiança foi decisiva durante os Jogos Olímpicos de Paris? O Brasil não fez uma boa primeira fase…
Eu tenho uma visão um pouco diferente da narrativa que se deu nas Olimpíadas. Caímos no grupo mais difícil da história das Olimpíadas — Nigéria, Japão e Espanha. No jogo contra o Japão, estávamos nos classificando até os minutos finais. Se tivéssemos segurado o resultado, a narrativa seria completamente diferente. Mas a fase mata-mata, foi muito melhor. É natural nesse tipo de competição a evolução ao longo dos jogos. Vencemos França e Espanha com atuações históricas. A cobrança depois do jogo contra o Japão foi forte, porque sabíamos que poderíamos ter feito diferente. Mas isso faz crescer.
E como surgiu a ideia do colar de pérolas que você distribuiu para as jogadoras?
Isso começou na preparação, com uma palestra de uma filósofa que admiro. Ela falou sobre unidade, usando a metáfora de um colar de pérolas — onde cada pérola representa uma jogadora, com sua dureza e brilho, unidas por um fio condutor. Virou um símbolo para o grupo. Pedi para comprarem um colar para cada jogadora antes da viagem a Paris, e esperei para usar em alguma dinâmica. Pela minha experiência e sensibilidade, senti que não era o momento certo. Só foi depois da classificação para a final. Na manhã do jogo, entreguei e falei algo positivo para cada jogadora. E elas levaram para o pódio. Eu nem sabia disso. Elas foram ao vestiário buscar. Muitas delas guardam com a medalha.
E olhando para o futuro, podemos esperar Marta e Giovanna juntas na próxima Copa do Mundo?
Não sei das duas nem de nenhuma outra. É difícil prever o futebol. O que posso garantir é que temos um enorme orgulho da Marta, o maior ícone do futebol feminino, e que temos que ter calma com a Giovanna. Comparações com a Marta não ajudam — não haverá outra Marta. Precisamos reconhecer as jogadoras pelo que são, como grandes talentos, cada uma com sua história. Espero ter um leque cada vez maior para poder escolher bem esse grupo até a Copa do Mundo. Independentemente dos nomes, posso garantir que o Brasil vai ter uma equipe muito competitiva, que vai lutar muito e vai jogar dentro das suas características para vencer.
Na próxima Data Fifa (convocação na terça-feira para os jogos contra o Japão, em São Paulo), podemos esperar a Marta na lista?
Isso ainda não está decidido.

