Muito antes de se tornar um cineasta conhecido por obras como “Ilha das Flores” (1989), “O homem que copiava” (2003) e “Saneamento básico, o filme” (2007), o gaúcho Jorge Furtado sonhava em ser psicanalista. Leitor ávido desde a adolescência, ele se interessava por estudos de Jung e Freud e por tudo mais que explorasse a mente humana. Chegou a cursar quatro anos de Medicina na intenção de depois virar psicanalista, mas abandonou o curso após perceber que “não tinha vocação”. Passados 45 anos desde que deixou a faculdade, o interesse não passou, mas mudou de forma. O diretor e roteirista acaba de chegar aos cinemas com “Virgínia e Adelaide”, drama codirigido com Yasmin Thayná sobre duas mulheres pioneiras da psicanálise no Brasil: Virgínia Bicudo e Adelaide Koch, vividas por Gabriela Correa e Sophie Charlotte.
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A trama acompanha Virgínia, uma professora universitária negra que se dedica aos estudos sobre racismo no Brasil. Ela se torna a primeira paciente da alemã Adelaide, médica e psicanalista judia que se mudou para São Paulo após fugir da Alemanha nazista. Depois, ela própria vira psicanalista. Juntas, Virgínia e Adelaide viram nomes decisivos na fundação da psicanálise no país.
— Esse filme surgiu da minha surpresa e da minha ignorância quando descobri, em 2018, que a primeira psicanalista brasileira havia sido uma mulher negra nos anos 1930. Fui estudar e procurar saber mais sobre Virgínia e me espantei ainda mais pelo tamanho do trabalho dela, primeiro como socióloga e depois como psicanalista — conta Furtado, de 65 anos, em entrevista ao GLOBO via Zoom. — Virgínia teve uma importância enorme, mas foi esquecida, silenciada e apagada. Pesquisando sobre ela, cheguei a outra história incrível, de Adelaide. Esse encontro de duas mulheres racializadas que sofreram todo tipo de preconceito e perseguição me pareceu importante de ser contado.
Furtado diz que achou fundamental ter uma mulher negra ao seu lado na direção. Natural de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a cineasta Yasmin Thayná, de 32 anos, ficou conhecida no circuito de festivais com curtas como “Kbela” (2015) e “Fartura” (2019).
— O cinema é a arte do encontro. É a única das sete artes que é necessariamente coletiva. Mesmo quando escrevo e dirijo um filme sozinho, ele só é possível pelo trabalho de muitas outras pessoas — destaca.
Furtado se prepara para iniciar as filmagens de um novo longa.
— Vou fazer uma comédia romântica que, por enquanto, se chama “Muito prazer” (título provisório), sobre um cara que herda um motel e o encontro dele com uma moradora do local — adianta.
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Será a primeira comédia dirigida por Furtado a chegar aos cinemas desde 2007, com “Saneamento básico, o filme”. Não que ele tenha relegado o humor nos últimos anos. Ele foi um dos roteiristas de “O auto da Compadecida 2” e seguiu trabalhando em comédias na TV, com a série da Globo “Doce de mãe” (2014) e o telefilme “A fábrica de sonhos” (2025), e no streaming, com o longa “Vai dar nada” (2022), para o Paramount+.
No próximo dia 29, o curta “Ilha das Flores” e o longa “Saneamento básico, o filme” retornarão aos cinemas como parte do projeto Sessão Vitrine Petrobras, que contempla lançamentos de filmes que são destaques em festivais e relançamento de clássicos, agora digitalizados em 4K. As obras de Furtado romperam bolhas e seguem atuais. O curta é figurinha carimbada em salas de ensino médio e superior em todo mundo, enquanto que o longa se tornou fenômeno nas redes sociais a partir de memes e cortes com cenas clássicas.
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— “Saneamento” me surpreendeu pela sua constância. Ele teve um público razoável nos cinemas, mas depois foi para TV, para o streaming, e passou a ser visto sempre. Tem uma geração que sabe o filme de cor. Se você entra no Letterboxd, todos os dias temos muitas novas pessoas descobrindo o filme. É uma loucura, entendi que é um filme durável — conta o diretor, que divide os méritos com seus “atores incríveis” (Wagner Moura, Fernanda Torres, Camila Pitanga, Lázaro Ramos, Paulo José e outros). — “Ilha das Flores” foi outro filme que ganhou vida própria. Hoje, eu vejo várias cópias do filme circulando em várias línguas e eu nem sei se o que eles estão falando é o certo (risos). Ele foi adotado em escolas do mundo inteiro, está em vários estudos sobre ecologia, economia, política. Se popularizou muito e, infelizmente, segue muitíssimo atual, porque a desigualdade, a miséria e a injustiça social ainda estão muito presentes.
Desde 1987, Furtado realiza seus projetos através da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora que mantém em sociedade com Ana Luiza Azevedo, Giba Assis Brasil e Nora Goulart. A companhia já realizou coproduções em países como o Uruguai e trabalhou com empresas internacionais de diversas partes do mundo. Nesse contexto, Furtado ironiza a notícia de que Donald Trump pretende taxar filmes estrangeiros ou obras americanas realizadas fora dos Estados Unidos:
— Talvez chegue amanhã e ele nem se lembre dessa proposta. É curioso que estamos em um momento em que discutimos se as grandes companhias de streaming devem pagar alguma coisa que não seja zero de imposto para atuar no Brasil. E é óbvio que precisam pagar. Aí nesse momento, o cara do cinema americano, hegemônico no mundo, anuncia taxas de 100% de um dia para o outro. Espero que as pessoas, e o nosso Congresso, entendam que não é para fazer uma loucura dessas, mas que o VOD e o streaming precisam ser regulados e taxados para atuar no país.
O retorno de “Ilha das Flores” e “Saneamento básico, o filme” aos cinemas acontece num cenário em que relançamentos de obras do passado têm se tornado cada vez mais frequente. No mês passado, “Cidade dos sonhos” (2001), de David Lynch, e “Onda nova” (1983), de Ícaro Martins e José Antonio Garcia, tiveram exibição em circuito comercial atraindo um bom público. No ano passado, “A hora da estrela” (1985), de Suzana Amaral, e “Durval Discos” (2002), de Anna Muylaert, também retornaram às telas como parte do projeto Sessão Vitrine Petrobras.
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— Levando estes filmes para os cinemas, você possibilita que uma nova geração tenha acesso ao cinema brasileiro. Essa experiência coletiva de poder ver filmes de patrimônio nas salas de cinema é muito importante. Você ajuda a formar um novo público com repertório da cinematografia brasileira — defende Débora Butruce, curadora dos filmes de patrimônio do projeto. — Estes filmes geralmente circulam por cinematecas e festivais, então é importante incorporar esse tipo de programação a salas comerciais.
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O GLOBO acompanhou parte do processo de digitalização de “Saneamento básico, o filme”, no laboratório da Mapa Filmes, produtora no Cosme Velho, na Zona Sul do Rio. Preservadora audiovisual e restauradora há mais de 20 anos, Butruce conta que o processo pode levar de dois a três meses ou de seis meses a um ano, conforme o estado de conservação do material.
— Já trabalhei em processo que levou, entre idas e vindas, seis anos. Depende muito do nível de intervenção que precisa fazer. No caso de “Saneamento”, um filme mais recente e em bom estado, a intervenção é menor — conta Butruce. — Nossa primeira etapa é a pesquisa e prospecção dos materiais. Depois, é feita uma análise sobre o estado de conservação, porque isso vai ditar como vai ser o processo e quanto tempo vai levar. Em seguida, temos a etapa do escaneamento. Depois, o tratamento digital, que é a restauração. Quando não tem danos causados pelo tempo ou pelo armazenamento, esse período do tratamento digital é mais curto.
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Jorge Furtado aprova o relançamento de filmes clássicos na tela de cinema:
— Com o streaming, a gente tem essa sensação de que podemos ver qualquer filme na hora em que quisermos, mas sinto que muitos jovens não têm acesso aos clássicos. Eu vejo mais filmes antigos do que novos. Acho importante que a nova geração, principalmente quem pensa em fazer cinema, busque conhecer o que veio antes.
