Pandeirista profissional há três décadas, com passagens por formações como o Choro na Feira, o Batifundo e o Cordão do Boitatá, além de quatro discos solos gravados e um livro sobre o tema publicado, Clarice Magalhães sentia falta de um local dedicado ao instrumento no Rio de Janeiro, capaz de sediar aulas e oficinas, promover apresentações e, sobretudo, servir de ponto de encontro para músicos e apaixonados palos ritmos saídos das batidas da mão na pele.
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Em setembro do ano passado, o projeto tomou corpo com a inauguração da Casa do Pandeiro, na Travessa do Ouvidor, no Centro do Rio. O espaço integra o projeto Reviver Cultural, no qual a prefeitura subsidia a reforma e o aluguel de imóveis por um período de até 48 meses, com o objetivo de revitalizar a região a partir de iniciativas ligadas ao setor, a exemplo da QueeRIOca, na Travessa do Comércio; a Casa Tucum, na Rua do Rosário; ou a Meta Gallery, na Rua da Assembleia. Neste sábado (10), uma nova etapa terá início com a inauguração da exposição permanente “Pandeiros do Brasil: história, tradição, inovação”, dividida entre um eixo histórico e documental e obras comissionadas a artistas como Lucas Finonho, Luiz Gustavo Nostalgia e a dupla Bete Esteves e Luciana Maia, com curadoria da própria Clarice e do pesquisador Eduardo Vidili, autor da tese “A vida social do pandeiro no Rio de Janeiro (1900-1939)”.
— A história começa com um fato triste, a morte de um amigo, o Scott Feiner (em 2023, aos 55 anos), e da vontade de homenageá-lo surge a ideia de ter um espaço, para não ficar tudo no virtual — conta Clarice, lembrando o músico americano, um entusiasta do pandeiro que viveu no Rio de 2001 a 2014. — Scott era um exemplo dessa versatilidade do instrumento, um cara do jazz de Nova York que se apaixona pelo pandeiro aqui. Meu desafio é que todos se sintam representados. Tenho a minha trajetória, mas sou de classe média de Copacabana, comecei no choro. Quero que todo mundo, do samba, das rodas, o músico que passa tocando pandeiro na orla, sinta que aqui é realmente a sua casa.
Além de celebrar o instrumento, o espaço destaca mestres que influenciaram e mudaram a sua história, a exemplo de Jackson do Pandeiro, Jorginho do Pandeiro, Bira Presidente (fundador do Cacique de Ramos e do Fundo de Quintal) e Larissa Umaytá. Alfredo de Alcântara, pandeirista-malabarista do grupo Oito Batutas (liderado por Pixinguinha, cuja estátua na Travessa do Ouvidor está quase ao lado da casa), é lembrado no primeiro registro do instrumento na imprensa brasileira, no Correio da Manhã, em 1927, e também batiza a biblioteca especializada do local. Os braços do cantor e ritmista Barão do Pandeiro serviram de molde à escultura criada por Natália Gerschcovich para o espaço. E o virtuoso Marcos Suzano, responsável por mudanças técnicas, no toque e na captação de som, e pela internacionalização do pandeiro, serve de inspiração para a obra “Quebradeira”, assinada por Bete Esteves e Luciana Maia.
— Partimos de imagens de uma oficina que o próprio Suzana fez aqui, com uma variedade de suportes, materiais e técnicas para representar a versatilidade do instrumento — explica Bete, que é aluna de Clarice. — Tentamos pegar detalhe como a manualidade, a marcação com o pé, que ele frisa muito, e de inovações suas, como na microfonagem, na inversão da batida, a ampliação do repertório.
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Na parte histórica, a exposição traz uma reprodução do que seria o primeiro registro do instrumento no Brasil, assinado em 1640 pelo holandês Johan Nieuhof, mostrando uma mulher escravizada com um pandeiro na mão. Surgido no Oriente Médio há cinco mil anos e levado à Europa pelos mouros, o instrumento tinha uma relação com a fertilidade e o feminino, e era tocado por mulheres, o que mudou com o passar do tempo. Clarice comenta sobre a maior participação de mulheres na percussão, nos últimos anos, diferente do que conheceu ao iniciar seus estudos, aos 16 anos.
— Quando comecei, não conhecia nenhuma pandeirista, acho que só a Bianca Calcagni. Foi um crescimento incrível de se ver, hoje as minhas turmas têm mais mulheres que homens. E hoje a gente estranha quando não vê nenhuma mulher nas rodas, nas formações. Até pouco tempo atrás, era normalizado — analisa Clarice. — O pandeiro é muito democrático, não importa gênero, idade, poder aquisitivo. É fácil de transportar e praticar, é ótimo para iniciar o aprendizado musical.
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Outra questão social levantada pela história do pandeiro é sua marginalização, por ser identificado com elementos da cultura negra, como a capoeira e o samba, até o período da República Velha, quando sua simples posse poderia render uma prisão por vadiagem. A partir da década de 1930, com Getúlio Vargas utilizando o samba como símbolo de identidade nacional, veio a aceitação. Em sua obra “Rota de fuga”, Lucas Finonho aborda o preconceito e as relações familiares ao pintar a mão de um tio percursionista, Roque, com representações de berimbaus junto às linhas das mãos.
— Minha referência familiar de pandeiro veio de polos bem diferentes. Tive uma formação cristã, na igreja ele também é usado, e, de outro lado, nos pagodes e rodas de samba na casa dos meus tios. Quis retratar essa mão negra, que bate na pele mas também apanha, que é calejada — destaca Finonho. — A capoeira traz esse aspecto de dança armada, de poder ser luta ou festa. A visão do instrumento vai depender muito de quem estiver com ele na mão. Quando eram só os negros tocando, era ameaça, vadiagem. Depois, passa a ser visto como arte.
A exposição “Pandeiros do Brasil: história, tradição, inovação” será inaugurada neste sábado, às 15h, com a presença dos curadores e artistas, contação de histórias com Barão do Pandeiro e roda de choro e samba.

