Nos últimos anos, é cada dia mais comum ver gente reclamando de “viver a História”. Uma das palavras mais desgastadas é “histórico”. Tudo é histórico, qualquer evento com meia dúzia de pessoas que ninguém sabe onde aconteceu é relatado nas redes sociais como algo na prateleira do “nunca antes na História desse país”. Ora, se tudo é histórico, então nada é histórico. E mais: é histórico para quem? Não somos nós que definimos isso enquanto vivemos os fatos.
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Nada contra comemorar pequenas vitórias, a psicologia até recomenda. Os problemas são a proporção que isso toma e o reflexo facilmente observável. Passamos por um momento em que todo mundo quer ser herói e mudar o mundo, mas, obviamente, sem ter de pagar o preço que a vida exige.
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Isso ocorre na extrema esquerda e na extrema direita, que se retroalimentam e se copiam. Em 2019, depois da eleição de Jair Bolsonaro, um deputado afirmou que não voltaria ao Brasil e ficaria na Europa por causa das consequências que a vitória da extrema direita poderia gerar.
A mesma coisa aconteceu no outro campo político. Com a eleição de Lula, outro deputado também saiu do Brasil para se preservar — desta vez, foi para os Estados Unidos. O autoexílio é a manifestação mais sintomática deste cenário: a pessoa vive num país desenvolvido, faz palestras, dá opiniões sobre o Brasil e busca fidelizar seu eleitorado, tendo cada um sua ditadura para combater.
Nas redes sociais, nos coletivos ou noutras formas de associação, o jovem revolucionário (seja lá de que idade for) realmente acredita que é Martin Luther King, Tiradentes, Dorothy Stang, Rosa Parks, Gandhi, Maria Quitéria ou Maria Felipa.
Entretanto essas figuras foram perseguidas, presas, assassinadas ou silenciadas em vida — muitas só tiveram seu valor amplamente reconhecido após a morte. Não buscaram palco, curtidas ou aprovação instantânea. Pelo contrário, escolheram o caminho mais difícil: a integridade. É exatamente a disposição para o sacrifício e a fidelidade aos próprios princípios, mesmo diante da impopularidade ou do risco extremo, que as tornam dignas de ser lembradas como símbolos históricos.
Essa coragem toda só aparece em quem precisa apostar algo relevante. É justamente aí que reside o ponto central da questão. A coragem verdadeira aparece quando há algo real a perder. Heróis e mártires são raros porque são pessoas que, diante da possibilidade de perder tudo, ainda assim escolhem lutar. Fazem isso porque acreditam em algo maior que si próprios.
No mundo de hoje, marcado pelo culto à vaidade, pela política do espetáculo e pelo excesso de palavras vazias, o que sobra é uma avalanche de gestos performáticos e discursos grandiosos que, no fundo, escondem enorme ausência de substância. Daí por que ser tão raro haver heróis e mártires; por isso eventos são considerados históricos. Palavras vazias, cheias de ego e vaidade, só geram chacota, retrocesso e ilusão.

