Pessoas que sentem ter pouco controle sobre suas vidas, o que é mais frequente em populações marginalizadas, tendem a aceitar mais facilmente explicações baseadas em forças externas misteriosas Quando trabalhava no Planetário de São Paulo, recebi visita de um repórter que queria escrever sobre astrologia. O então diretor Fernando Nascimento, hoje professor na FIA Business School, explicou delicadamente que astrologia é uma pseudociência, e por isso o planetário, como um equipamento de divulgação científica, tinha a obrigação de separar ciência de crença. O repórter, contudo, estava decidido a mostrar a astrologia como cientificamente embasada.
Sugeri uma brincadeira. Perguntei seu signo solar, disse que era Libra, e reforçou que se identificava fortemente com ele. Convidei-o a ver o céu no instante do seu nascimento, aproveitando o fato de que o equipamento de projeção usado no planetário permitia recriar a posição dos astros em qualquer data dos últimos dois mil anos. Quando o técnico “rodou o céu”, como dizíamos, qual não foi a surpresa do rapaz ao saber que o Sol naquele dia estava na constelação de Virgem! Ele ficou tão abalado que no fim desistiu da matéria.
O fenômeno científico que explica esta diferença é a “precessão dos equinócios”. Trata-se de um dos movimentos feitos pelo planeta Terra. O eixo em torno do qual a Terra gira a cada 24 horas, criando o dia e a noite, não é fixo, mas “bamboleia”, como um pião, num lento ciclo de 26 mil anos. Isso faz com que a posição das estrelas no céu, tal como vistas da Terra, também vá mudando com o tempo.
A brincadeira que fizemos com o repórter no planetário hoje pode ser feita com aplicativos de celular. O aplicativo Stellarium por exemplo, mostra que uma pessoa nascida enquanto escrevo a coluna, em 29 de maio, que na astrologia “oficial” seria do signo de Gêmeos, está na verdade nascendo com o Sol em Touro.
Astrólogos “sofisticados” explicam que, na verdade, o que a astrologia leva em conta é uma divisão fixa do céu em doze partes. Os signos são os nomes dados a cada uma dessas partes, e não precisam corresponder às constelações. Mas então, por que as qualidades dos signos derivam da mitologia associada às estrelas? Não existe um mito sobre um setor de 30º do céu chamado “Escorpião”, mas há mitos sobre a constelação de Escorpião. Quem se interessar encontrará mais detalhes sobre a insustentabilidade da astrologia no livro Que Bobagem, de autoria minha e do jornalista Carlos Orsi. E por que tudo isto importa?
A Pew Research, empresa de opinião pública dos EUA, lançou em maio pesquisa sobre astrologia mostrando que, em geral, mulheres e comunidades LGBT acreditam mais nos astros, e tendem mais a levar a astrologia em conta para tomar decisões. Entram nesse grupo de “astrologicamente inclinados” também populações historicamente marginalizadas nos EUA, como hispânicos e negros. Este recorte não mudou muito desde a última pesquisa em 2017. A novidade é a inclusão da comunidade LGBT.
Há diversas especulações na psicologia sobre por que esses grupos são mais vulneráveis à superstição, envolvendo viés de disponibilidade e sensação de controle. Disponibilidade porque, culturalmente, alguns desses grupos são alvos de marketing astrológico direto: basta ver o espaço dedicado a horóscopo nas revistas femininas. E controle porque pessoas que sentem ter pouco controle sobre suas vidas, o que é mais frequente em populações marginalizadas, tendem a aceitar mais facilmente explicações baseadas em forças externas misteriosas.
Mas, afinal, que mal tem? Ler horóscopo para muitos é apenas uma brincadeira e perguntar qual o seu signo, uma cantada velha. Mas há empresas que usam astrologia no RH, pessoas que mudam data de parto para escolher o signo dos filhos, gente que gasta dinheiro consultando astrólogos antes de tomar decisões importantes. Em casos assim, é bom ter clareza sobre o que se está comprando – e sobre a irrelevância do que se está levando em conta.
