A Ucrânia afirmou nesta terça-feira que atingiu a ponte da Crimeia pela terceira vez, após passar meses plantando explosivos nas estruturas de sustentação submersas. A extensão dos danos ainda não está clara, mas o Serviço de Segurança da Ucrânia, a agência de inteligência conhecida como SBU, divulgou um comunicado e um vídeo que, segundo eles, mostra uma das detonações.
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“Hoje, às 4h44 (21h44 de segunda-feira em Brasília), sem vítimas civis, foi detonada a primeira carga explosiva”, informou a agência. “Os pilares de sustentação submersos foram severamente danificados ao nível do leito marinho — com o equivalente a 1.100 kg de TNT. Como resultado, a ponte está, efetivamente, em estado de emergência.”
O órgão publicou imagens que mostram uma explosão saindo da água e destroços voando, além de uma foto que revela danos em uma das laterais da ponte. A RIA Novosti, agência estatal russa, informou que a construção foi brevemente fechada por algumas horas nesta terça-feira. No entanto, um aplicativo amplamente usado na Rússia para monitorar o tráfego na ponte indicava que ela já estava reaberta no meio da tarde.
Ucrânia diz ter atacado ponte da Crimeia com explosivos instalados debaixo d’água
A ponte sobre o Estreito de Kerch, com 19 quilômetros de extensão, liga a Península da Crimeia à Rússia e é uma rota de abastecimento primária para as forças de Moscou que combatem no sul da Ucrânia. Ela também tem grande valor simbólico para o presidente russo, Vladimir Putin. Construída após a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, a ponte foi inaugurada por ele em 2018. O projeto custou cerca de US$ 3,7 bilhões.
A Ucrânia considera a ponte um alvo legítimo, já que ela é usada para transportar tropas e equipamentos militares russos durante a invasão. Em outubro de 2022, um caminhão carregado de explosivos foi detonado ao cruzar a ponte, provocando uma bola de fogo grande o suficiente para atingir tanques de combustível em um trem que passava e incendiá-lo. A explosão arrancou parte da estrada, que caiu no mar.
Os russos iniciaram os reparos, mas, dez meses depois, a ponte foi atingida novamente — dessa vez com drones marítimos que miraram os pilares de sustentação. Após cada ataque, os russos trabalharam para reparar essa artéria vital e reforçaram a defesa ao seu redor.
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Também nesta terça, a Rússia acusou a Ucrânia de estar por trás das explosões que, no último fim de semana, causaram o desabamento de duas pontes e acidentes ferroviários, deixando sete mortos e mais de 100 feridos. Em nota, a Comissão de Investigação do país declarou que “está claro que os terroristas, seguindo ordens do regime de Kiev, planejaram tudo com a máxima precisão para afetar civis”.
As explosões ocorreram na noite de sábado nas regiões russas de Kursk e Bryansk, na fronteira com a Ucrânia. Elas causaram o descarrilamento de três comboios (um de passageiros, um de carga e um de controle), deixando mortos e feridos, incluindo crianças, segundo os investigadores. Uma investigação por “atos de terrorismo” foi aberta, segundo a mesma fonte. Até o momento, a Ucrânia não reagiu às acusações.
Desde o início da ofensiva russa na Ucrânia, em fevereiro de 2022, foram registrados frequentes casos ou tentativas de sabotagem de ferrovias e outras infraestruturas na Rússia, especialmente em regiões de fronteira. No entanto, até o momento, nenhum incidente com um número tão elevado de mortos havia sido registrado.
Embora a dimensão dos danos não tenha ficado imediatamente clara, a ofensiva desta terça é o mais recente exemplo das tentativas do SBU de surpreender Moscou e demonstrar que há custos em continuar a guerra. No domingo, o órgão lançou um ousado ataque com drones contra a frota de bombardeiros com capacidade nuclear da Rússia, estacionada em diversos campos aéreos russos a milhares de quilômetros da Ucrânia.
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Vasyl Maliuk, chefe do SBU, afirmou que o ataque do fim de semana causou um prejuízo estimado em US$ 7 bilhões e atingiu 34% dos vetores estratégicos de mísseis de cruzeiro da Rússia, que vêm sendo usados para bombardear cidades ucranianas ao longo da guerra. O SBU informou que Maliuk também supervisionou o ataque desta terça-feira. Em comunicado no Telegram, ele escreveu:
“Deus ama a Trindade, e o SBU sempre leva as coisas até o fim e nunca faz a mesma coisa duas vezes. Já atingimos a Ponte da Crimeia duas vezes, em 2022 e 2023. Então hoje demos continuidade a essa tradição — desta vez, debaixo d’água”, disse Maliuk.
O ataque desta terça-feira ocorreu enquanto as forças russas continuam avançando na região norte da Ucrânia, em Sumy, colocando a capital regional ao alcance de seus drones e da artilharia, segundo autoridades ucranianas e analistas ouvidos pela rede americana CNN. Ivan Shevtsov, porta-voz do Exército ucraniano na área, disse que as forças russas também estão bombardeando constantemente a região, e que mais retiradas de civis estão sendo realizadas.
— No momento, o território que o inimigo já ocupou tem cerca de 15 quilômetros ao longo da linha de frente e cerca de 6 a 7 quilômetros de profundidade — disse Shevtsov, acrescentando que os russos estão tentando avançar rumo à cidade de Yunakivka, que fica a poucos quilômetros de suas posições atuais.
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A administração militar de Sumy informou que as tropas russas realizaram quase 150 ataques de artilharia contra 47 localidades da região nas 24 horas até a manhã de terça-feira. Por sua vez, o Ministério da Defesa da Rússia afirmou que suas forças capturaram a vila de Andriivka ao expandir a frente de combate, publicou a agência estatal TASS. Shevtsov disse que, com novos avanços, os russos poderão lançar ataques mais coordenados contra a cidade de Sumy.
“A situação no norte da região de Sumy continua se deteriorando devido à pressão constante do inimigo e ao grande número de tropas. O risco do avanço inimigo é que ele atinja uma distância de 20 a 25 quilômetros, o que permitirá que drones FPV cheguem até a cidade de Sumy”, disse o DeepState, grupo ucraniano não oficial que monitora as linhas de frente. “Outro problema é a falta de pessoal para conter o inimigo”.
(Com AFP e New York Times)

