A fome em Gaza pode ser medida nas costelas salientes de uma menina de 6 anos. Na magreza dos seus braços. Nos quilos que ela e aqueles ao seu redor perderam. Nos dois tomates, duas pimentas verdes e um único pepino que uma criança carente pode comprar para alimentar sua família naquele dia. Até a semana passada, Israel bloqueou a entrada de alimentos, combustíveis e remédios na Faixa de Gaza por 80 dias, tentando pressionar o Hamas a libertar os reféns israelenses que ainda mantém presos, enquanto as negociações sobre um cessar-fogo continuam em um impasse.
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Com o crescente alarme internacional sobre o bloqueio total, Israel permitiu a entrada de ajuda financeira a partir da semana passada. Isso permitiu a reabertura de algumas padarias. Mas autoridades humanitárias disseram que isso pouco fez para aliviar as enormes necessidades de Gaza e impedir que o território se encaminhasse para a fome. Quantidades limitadas de alimentos começaram a ser distribuídas aos moradores na terça-feira, sob um plano muito criticado e apoiado por Israel.
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No norte de Gaza, isoladas do resto do território pelas tropas israelenses, centenas de milhares de pessoas são forçadas a esperar horas por comida de cozinhas de caridade que acaba rápido demais e a cavar poços para obter água para beber, por mais insalubre que isso seja.
Najwa Hussein Hajjaj, de 6 anos, perdeu 42% do seu peso corporal nos últimos dois meses, passando de cerca de 15 kg para 9 kg. Najwa precisa de refeições especialmente preparadas devido a um problema no esôfago, mas sua família mal consegue encontrar comida. Os médicos a diagnosticaram com desnutrição grave.
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As pessoas lutam para encontrar combustível para geradores de hospitais, carros e fogões. Famílias têm recorrido à queima de lenha ou até mesmo ao lixo.
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As confeitarias, assim como os supermercados, já não têm mais nada para vender há muito tempo. As padarias não têm mais combustível para assar.
Não há eletricidade e há pouca água limpa disponível em Gaza, então as pessoas cavam para encontrar qualquer água que encontrem. Depois, carregam-na em recipientes de plástico — uma tarefa ainda mais difícil para pessoas debilitadas pela desnutrição.
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Os mercados de vegetais na Cidade de Gaza eram movimentados antes da guerra. Mas, sem nada sendo importado e com as terras agrícolas de Gaza praticamente destruídas ou inacessíveis devido às ordens de evacuação, agora há poucos produtos à venda.
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As poucas frutas e verduras disponíveis são caras demais para a maioria das famílias, então, quando compram, compram por unidade, não pelo quilo, como de costume. Esta semana, tomates cultivados localmente custaram US$ 11,30 o quilo (cerca de R$ 63) e pepinos cultivados localmente custaram US$ 10 (R$ 56) o quilo em um mercado na Cidade de Gaza.
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Com a ordem do Exército israelense de deixar faixas cada vez maiores de Gaza, a população foi arrebanhada para áreas cada vez menores. Cerca de 90% da população de Gaza, de aproximadamente 2 milhões de habitantes, foi deslocada de suas casas. A maioria já foi deslocada diversas vezes desde o início da guerra em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas liderou um ataque surpresa mortal contra Israel, provocando uma retaliação militar devastadora.
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A família de Najwa foi deslocada de Shajaiye para a Cidade de Gaza e agora vive em uma tenda. As autoridades jordanianas, que souberam do caso, estão tentando retirá-la para receber atendimento médico no exterior, informou a família.
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Com as padarias fechadas por falta de farinha de trigo e combustível, as pessoas moem o macarrão e o transformam em farinha, que pode ser assada para fazer pão.
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Lentilhas também estão sendo moídas para fazer farinha para hambúrgueres ou pão. No total, as pessoas trazem entre 400 e 500 quilos de lentilhas, arroz, macarrão e outros produtos secos por dia, parte do que foi economizado quando mais ajuda chegou a Gaza, para o Moinho Jaber, na Cidade de Gaza, que os tritura. O proprietário, Ahmed Jaber, disse que algumas pessoas não tiveram escolha a não ser moer suprimentos estragados ou podres.
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Moradores da região mais ao norte de Gaza fugiram dos conflitos para uma escola, agora um abrigo, na Cidade de Gaza. Eles alinham seus baldes para reservar um turno para enchê-los sempre que a rede de água da escola começar a bombear ou quando um caminhão-pipa passar. Aqueles que chegam tarde demais perdem a chance.
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À medida que padarias fechavam e grupos de ajuda ficavam sem suprimentos para distribuir às famílias, cozinhas de caridade locais se tornaram alguns dos únicos lugares onde muitos palestinos em Gaza conseguiam encontrar comida.
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Adeel Adeeb Sukkar administrava uma cozinha na Cidade de Gaza, contando com doações de parentes no exterior para fornecer refeições gratuitas a 500 famílias desabrigadas desesperadas por dia.
No domingo, com seus estoques esgotados, ele foi forçado a fechar.

