Criadas no século XIX para forçar crianças indígenas a abandonar sua cultura, seu idioma nativo e sua espiritualidade, as chamadas “boarding schools” são um dos capítulos mais brutais da História dos EUA. O lema das escolas não deixava dúvida sobre o seu verdadeiro propósito: “Mate o índio nele e salve o homem”, declarou, em 1892, o militar Richard Henry Pratt, fundador da Carlisle Indian Industrial School, mais conhecida dessas instituições.
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O militar e a escola são personagens importantes de “Estrelas errantes”, segundo romance do escritor americano Tommy Orange, que acaba de chegar ao Brasil pela Rocco. A obra é ao mesmo tempo um prequela e uma sequência da aclamada estreia do autor, “Lá não existe lá”, finalista do Pulitzer de ficção em 2019. Se no romance anterior ele retratava as errâncias contemporâneas dos indígenas urbanos, agora ele transita entre passado e presente para investigar os efeitos prolongados do genocídio dos povos originários nos EUA.
O californiano de 43 anos, que se notabilizou como um dos expoentes de uma literatura nativo-americana de vanguarda, não tinha originalmente a intenção de escrever um romance histórico. Mas, quando descobriu a ainda pouca conhecida existência dessas instituições, decidiu que precisava incluí-la no novo livro.
— As pessoas realmente não sabem o que eram essas escolas, o que se fazia lá ou qual era o verdadeiro objetivo — diz Orange, em entrevista por telefone. — E até o fato de ainda as chamarmos de “escolas” é um problema, porque elas eram, na prática, campos de aprisionamento para crianças. A ideia era apagar a identidade indígena das crianças e substituí-la pela ideia de que elas poderiam se tornar americanas. Ironicamente, os povos indígenas nem tinham direito à cidadania na época.
Em uma narração polifônica que mistura primeira, segunda e terceira pessoa, “Estrelas errantes” acompanha ao longo de 150 anos a trajetória da família Red Feather/Bear Shield, cujas gerações mais recentes foram apresentadas em “Lá não existe lá”. O autor inicia com a jornada de Jude Star, um jovem que consegue fugir do Massacre de Sand Creek, ocorrido em 1864, no estado do Colorado. Prisioneiro na fortaleza de Fort Marion, ele serve de cobaia para Richard Henry Pratt, cujos experimentos de assimilação forçada servirão de base para a Carlisle Indian Industrial School.
É nessa boarding school que Charles Star, filho mestiço de Jude, cresce sofrendo com o projeto de apagamento cultural a que foi submetido. Assim como seu pai, Charles luta contra a dependência química e cai na criminalidade ao sair da escola. Ele morre ainda jovem, deixando um manuscrito no qual tenta juntar os fragmentos de sua própria história.
O manuscrito chega, décadas depois, às mãos de seus descendentes, alguns deles já conhecidos do leitor de “Lá não existe lá”. Seus netos herdam os mesmos traumas, como o vício e o sentimento de não pertencimento, mas encontram no diário do avô uma forma de reconstruir sua identidade e quebrar o ciclo de silenciamento.
— Esse desejo de pertencer é muito real para os indígenas urbanos — diz Orange. — Os povos indígenas estão formando comunidades nas cidades há pelo menos 60 ou 70 anos. Mas nós nunca vemos essas histórias, há uma insistência em manter os indígenas no passado. A narrativa colonial prefere que os povos indígenas sejam vistos como extintos. E isso gera um senso constante de não pertencimento, que não desaparece enquanto não tivermos representação suficiente nas histórias que reflitam a experiência indígena contemporânea.
Nascido em Oakland e membro da comunidade cheyenne e arapaho do estado de Oklahoma, Orange conhece de perto os dilemas dos nativos americanos. Assim como as diferentes gerações retratadas no livro, toda sua família sofreu de dependência química — ele incluso. O pai alcoólatra era orgulhoso de sua cultura cheyenne, mas não teve tempo de ensiná-la ao filho. A mãe é branca e cristã, e o fez ler a Bíblia desde cedo.
— Meu pai rezava para Jesus, mas fazia isso dentro de um tipi (tradicional tenda cônica usada pelos povos indígenas das Grandes Planícies), usando peiote (pequeno cacto com propriedades alucinógenas) como sacramento — conta Orange. — Isso acontece em todo lugar onde as pessoas foram colonizadas pelo cristianismo, forma-se um híbrido entre os dois sistemas de crença. Acho que essa apropriação é o mais próximo que se chega de uma reconciliação (entre o cristianismo e a cultura nativa).
Por outro lado, Orange não vê grandes possibilidades de reconciliação em termos de “instituições”:
— O que o cristianismo e o governo dos EUA fizeram é muito difícil de superar — lamenta. — Especialmente olhando para o que está acontecendo hoje no país, é muito difícil acreditar que algum dia haverá uma reconciliação real entre o governo dos EUA e os povos indígenas, dado o modo como esse país foi fundado.
Ao longo de diferentes gerações, os personagens do livro são educados com os cânones da literatura ocidental, encontrando em livros como “Moby Dick”, “Frankenstein” e “Flores da relva” um eco de seus próprios conflitos. Orange conta que, ao contrário de seus personagens, nunca chegou a criar uma conexão profunda com esses textos.
Na verdade, Orange só começou a se interessar por leitura após se formar em engenharia do som. E as respostas que buscava não estavam em clássicos americanos, mas em livros de outros países e idiomas. Um deles foi a “A hora da estrela”, da ucrano-brasileira Clarice Lispector.
— Clarice foi fundamental na minha formação — conta Orange. — A voz dela é tão original, tão destemida… Atravessa a fronteira entre ficção, filosofia e até textos espirituais. Quando comecei a ler, eu estava buscando sentido. Lia muitos textos religiosos e queria que alguém falasse sobre a natureza da realidade. A Clarice confronta tudo o que a ficção pode fazer, explora essa realidade mística que está disponível à consciência. Ela faz tudo o que a escrita pode fazer, de um jeito muito honesto e, muitas vezes, acessível.
Título: ‘Estrelas errantes’. Autor: Tommy Orange. Tradução: Bruna Miranda. Editora: Rocco. Páginas: 336. Preço: R$ 89,90.

