O presidente Donald Trump tem um novo retrato fotográfico oficial — o quarto desde 2017, dois produzidos durante transições administrativas e dois nos primeiros meses de seus mandatos não consecutivos. Percorremos um longo caminho desde o retrato Lansdowne de George Washington, no qual o general da Virgínia aparece em pé junto à sua mesa, com uma rígida reserva republicana.
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A nova imagem oficial, feita pelo fotógrafo do governo Daniel Torok, apresenta o presidente em close fechado e em um ambiente obscuro. A iluminação é excessiva, o tom é sombrio, mas, comparada à anterior, o humor do retratado na verdade parece ter melhorado.
No retrato anterior, divulgado durante a transição presidencial em janeiro de 2025, Torok usou uma iluminação drástica de baixo para cima, conferindo a Trump a aparência de um vilão de filme de terror. O ex-presidente que se tornava presidente eleito estava com o semblante carrancudo e os olhos semicerrados, imitando claramente sua foto de ficha criminal tirada na prisão do Condado de Fulton, em Atlanta.
O novo retrato, por outro lado, exibe uma incongruência tonal clássica de Trump; apesar da escuridão, há um toque de humor. A iluminação agora é mais frontal. Os ombros de Trump estão relaxados, sua expressão suavizada. Sua feição neutra é atenuada por um leve calor no olhar — uma pose clássica que a geração mais jovem, seguindo a supermodelo Tyra Banks, chamaria de “smizing” (sorrir com os olhos).
O que causa desconforto no retrato não é tanto a pose, mas a composição; a lente está muito mais próxima do sujeito do que em retratos presidenciais anteriores, e o enquadramento é extremo. Na fotografia oficial feita para o primeiro mandato de Trump, ele aparecia levemente fora do centro, sorrindo, com bastante espaço acima da cabeça, ocupando menos da metade da largura da imagem. Os retratos de Joe Biden, Barack Obama e George W. Bush foram compostos de maneira semelhante.
Agora Trump está centralizado, ocupando cerca de três quartos da imagem, e a lente está posicionada um pouco abaixo e muito próxima para ser confortável. Lembra aqueles momentos existencialmente desconcertantes em que você abre o aplicativo da câmera no celular e a lente frontal é ativada; lá está você, grande demais, abatido demais. Neste novo retrato, Trump parece ter concordado em deixar visíveis as bolsas sob os olhos, que o retrato da transição — com iluminação de baixo — havia eliminado, seja por maquiagem ou Photoshop.
O ambiente é vazio, sombrio e teatral como a sala de reuniões do programa “O Aprendiz”, sem o pórtico da Casa Branca ou os moldes dourados que apareciam ao fundo dos retratos anteriores. Os únicos símbolos estão no corpo do presidente. A bandeira americana, tradicionalmente posicionada atrás do presidente, aparece apenas no broche na lapela esquerda do paletó. A tradicional gravata vermelha (no primeiro mandato ele usava azul) está presa com um nó Windsor grosso, e a seda brilha como uma zircônia cúbica.
Quando assumiu o poder em janeiro de 2017, Trump parecia um estranho — e também tinha essa aparência. Uma ostentação reluzente, herdada dos tabloides nova-iorquinos dos anos 1980 e da televisão de realidade dos anos 2000, o marcava visualmente como distante não apenas da antiga elite política de Washington, mas também da iconografia conservadora da América média — a família nuclear, a cerca branca — que ainda moldava o conservadorismo americano naquela época.
Ano após ano, no entanto, o gosto do presidente tornou-se o do público. O brilho crepuscular do retrato combina com os cenários das últimas convenções nacionais do Partido Republicano, com o dourado e o preto substituindo o vermelho, branco e azul, e dá continuidade a uma estética de brilho obsidiana que remonta à Trump Tower — o arranha-céu escuro e dominante que paira sobre a Quinta Avenida desde 1983 como um frasco gigante de Drakkar Noir.
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Em 2025, a estética trumpista se espalhou bem além da política, invadindo o mundo da tecnologia e dos esportes, os restaurantes e a vida noturna, influenciadores vendendo criptomoedas e vídeos verticais sobre suplementos de academia. Visual e estilisticamente, Trump não mudou — mas nós mudamos, e sempre acreditei que os adversários políticos que zombavam ou ignoravam o apelo estético do presidente o faziam por sua própria conta e risco. Ao desafiar os gostos da elite tradicional e demonstrar indiferença às expectativas visuais dos outros, há uma curiosa imagem de força.
O mais interessante no novo retrato é a obscuridade das bordas, o foco suave ao estilo Gloria Swanson. Trump projetou levemente a cabeça para frente, e a iluminação intensa no rosto contrasta com as bochechas e ombros bastante desfocados. O broche com a bandeira está enevoado, sem estrelas visíveis, e a camisa azul clara e a gravata parecem mais geradas por computador do que captadas por lente.
Independentemente das técnicas reais usadas na produção, a fotografia exibe diversos traços típicos de imagens geradas por inteligência artificial: composição simétrica, detalhes imprecisos, desfoque nas bordas e profundidade de campo rasa. Se os traços estéticos do primeiro mandato de Trump vieram da televisão, este segundo mandato extrai sua imagem mais do Vale do Silício — até mesmo os canais oficiais de comunicação da Casa Branca já apresentaram o presidente vestido com a batina e mitra papal, e recriaram migrantes algemados e chorando como personagens de anime.
Entre Washington e San Francisco surgiu um regime tecnocultural de criação de imagens, do qual Trump é tanto mestre técnico consciente quanto inconsciente. O retrato, nesse sentido, não é tanto um retorno ao brilho dos anos 1980, mas sim um reflexo da superprodução dos anos 2020: um artefato de um admirável mundo novo onde as imagens podem ser sempre regeneradas — e até a presidência não tem mais história.

