Há 20 anos, o cenário nas margens da Baía de Guanabara em Magé era de terra arrasada. A região, afetada por décadas de degradação e, sobretudo, pelo desastre ambiental de 18 de janeiro de 2000 — quando 1,3 milhão de litros de óleo combustível e graxa vazaram de um duto da Petrobras —, tornou-se um símbolo de ocaso ambiental. A mancha química que atingiu a orla do município na Baixada Fluminense contaminou a terra, dizimando o seu amplo manguezal.
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De lá para cá, porém, um grupo de pescadores de Magé, em um trabalho de formiguinha, replantou o ecossistema costeiro, dando origem à área verde de 113,7 hectares onde, mês passado, foi inaugurado o Parque Natural Municipal Barão de Mauá. A recuperação do local virou um exemplo de resistência, educação ambiental e transformação.
O trabalho foi todo realizado por moradores como Adeimantus Carlos da Silva, o Mantu, que dedicou 24 de seus 46 anos de vida ao parque. O gestor ambiental cresceu vendo a biodiversidade do mangue definhar. Ele é um dos líderes da comunidade pesqueira que iniciou, nos anos 2000, a retirada de lixo, o plantio de mudas nativas e a reocupação da área. Hoje, Mantu coordena atividades com estudantes no parque, ensina crianças a identificar espécies nativas e mantém viva a memória do território.
— Quando começamos, muita gente achou que era só plantar e ir embora. Mas a gente ficou. A gente cuidou. E, agora, tem árvore de novo, tem passarinho, tem caranguejo. O mangue está respirando — descreve o guia, com orgulho.
O vazamento ocorreu em um oleoduto que ligava a Refinaria Duque de Caxias (Reduc) ao Terminal Ilha d’Água. Foi um dos maiores desastres ambientais do Brasil. A mancha de óleo se espalhou por 40 quilômetros quadrados da baía. O episódio afetou a pesca e a saúde da população. A Petrobras foi multada e selou acordo de indenização com mais de 12 mil pescadores.
Arenildo Vieira Navega, de 52 anos, é caranguejeiro. Nascido em Campos e criado em Magé, viu de perto a região agonizar após o vazamento. Mas também a viu renascer, pouco a pouco, pelas mãos dos pescadores.
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— Muita gente não acreditava, mas o ser humano é capaz de coisas extraordinárias. Hoje, além de ser um berçário natural, esse lugar também traz renda. A pesca na baía vem sofrendo muito com a ação predatória. É esse projeto que coloca comida na mesa dos caranguejeiros — afirma Navega. — O caranguejo se alimenta da folha do mangue. Se não tem folha, não tem vida.
O manguezal morto renasceu como uma floresta jovem, composta por mais de 50 mil mudas de espécies nativas cultivadas no viveiro comunitário do parque, como mangue-vermelho, mangue-branco e mangue-negro. A fauna é rica, com mais de cem espécies catalogadas de aves, mamíferos, répteis e crustáceos.
O parque tem uma passarela de 915 metros que permite a imersão no mangue, além de uma torre de observação com 11 metros de altura e um deck na praia. A estrutura facilita o acesso de pesquisadores de instituições de ensino como a UFRJ, A UFF e a Uerj, que vêm estudando a área.
— Representantes de outras prefeituras do estado também já estiveram no parque com a intenção de levar a tecnologia implementada aqui para revitalizar outros mangues — diz o secretário de Meio Ambiente de Magé, Carlos Henrique Rios Lemos.
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Mas o esforço local continua. O lixo que as pessoas jogam na baía vai parar no mangue. A limpeza da área é impulsionada pelo projeto Águas da Guanabara. Em três anos, com ajuda de pescadores, a ação removeu 1,2 mil toneladas de resíduos. O trabalho também incluiu a realização de exposições sobre a importância da preservação do ambiente marinho.
— Além de limpar nosso lugar de trabalho, o Águas da Guanabara nos ajudou a formar uma consciência coletiva sobre a importância da preservação na área — afirmou Elaine Cristina, presidente da Colônia Z9, que integra o projeto.
Em outubro do ano passado, o Estado do Rio foi a única unidade da Federação a registrar aumento em sua cobertura florestal desde 1985. Houve expansão na área de Mata Atlântica de 30% para 32% do território, o que equivale a um ganho do tamanho de 87 mil campos de futebol, segundo dados do MapBiomas.
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Pesquisador do MapBiomas, Marcos Rosa atribui o resultado positivo a projetos e políticas públicas de reflorestamento.
— As novas áreas verdes não absorvem tanto carbono quanto uma floresta antiga, mas protegem a água, melhorando a qualidade das nascentes — diz ele.
Após o derramamento de óleo em 2000, o trabalho de restauro envolveu a abertura de valas e canais para facilitar a entrada e saída da água do mar, além do plantio de mudas e da retirada de detritos. A técnica foi desenvolvida por tentativa e erro, buscando-se recuperar o manguezal.
— A criação de valas e canais permitiu a reintrodução da maré no ecossistema, um fator crucial para o ambiente respirar adequadamente — explica Mantu.
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Para o ambientalista e geógrafo Mario Moscatelli, que há décadas estuda a degradação da Baía de Guanabara, o trabalho em Magé é uma rara exceção positiva num cenário ainda crítico:
— A baía como um todo está longe de ter uma recuperação significativa. A maior parte dos rios continua poluída, o tratamento de esgoto é insuficiente, e a política ambiental do estado é errática. Mas o que vemos em Magé mostra que, quando há articulação local, a natureza responde. A recuperação ambiental precisa considerar o fator humano. Sem a comunidade, teria sido inviável — conclui Moscatelli.
