O impacto de ver 50 mil pessoas reunidas em São Paulo, no Allianz Parque, sábado passado, na abertura da primeira turnê d’os Paralamas do Sucesso em arenas (a de comemoração dos 40 anos de história da banda), deixou o baterista João Barone, de 62 anos, sem fôlego. Depois de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia e dos Titãs fazerem shows sob medida para as multidões…
— Acabou que chegou a nossa vez de dar uma volta nessa Ferrari! — celebra ele, que na noite deste sábado sobe com os seus amigos de (quase) uma vida inteira Herbert Vianna (vocais e guitarra) e Bi Ribeiro (baixo) ao palco montado na Farmasi Arena carioca. — Passados os 40 anos, é a primeira vez que a gente faz esses eventos grandiosos sem estar num festival.
Se, em São Paulo, a produção foi da 30e (empresa responsável também pelas turnês de Gil e dos Titãs), no Rio, os riscos ficam por conta da banda e de Zé Fortes, empresário dos Paralamas desde o começo da carreira, quando todos eles ainda eram estudantes universitários. A turnê solo (com a qual correrão arenas do país até o fim do ano) vem na esteira do sucesso do show “Clássicos”, com o qual eles participaram do Rock in Rio e do Lollapalooza.
— Foi impressionante, (nesses shows) parecia que a gente tinha reapresentado a banda para o público, muita gente que estava ali nem conhecia tanto os Paralamas e passou a conhecer — diz Barone. — A gente já tinha sentido a mesma coisa ali no meio dos anos 90 (com o álbum ao vivo “Vamo batê lata”, de 1995, que ainda estourou a faixa de estúdio “Uma brasileira”), foi como se a gente tivesse trocado o couro. A autoestima fica lá no espaço, estamos prontos para mais 40 anos!
- Marisa Maiô: Vídeos feitos por IA, que ironizam programas de auditório da TV, viram febre nas redes sociais
- Alceu Valença e Carminho: Atrações de festival de fado, cantores falam da relação musical e histórica entre Brasil e Portugal
Bi arrisca uma explicação para essa segunda troca de couro dos Paralamas:
— Esse público novo cresceu ouvindo a gente, Titãs e Barão Vermelho em casa, com os pais.
— E agora eles estão com idade e liberdade para sair de casa e ir sozinhos para os shows. Em São Paulo, eu estava muito naquela ânsia de chegar lá, trocar gestos e olhares com a molecada… E, muitas vezes, vi reações às quais a gente não estava acostumado. Eles cantavam músicas inteiras, até algumas que não foram os singles do disco, os lados B. Cantavam com força e convicção… Foi emocionante.
Zé Fortes, o quarto paralama, acrescenta:
— Agora que vocês falaram isso eu me lembrei de que num show eu vi três gerações de uma mesma família: um avô de 60 e poucos anos, com nem nós, um filho dos seus 38 e um neto de 15!
O que se vai ver hoje, adianta a banda, é o show “Clássicos”, com a inclusão de músicas que não costumavam tocar, como “Uns dias”, “Mensagem de amor”, “Quase um segundo” e “Seguindo estrelas”. Trinta e seis canções, 2h10 de apresentação, com show de abertura de Dado Villa-Lobos e André Frateschi (com músicas da Legião Urbana e da carreira solo de Dado).
— Cheguem cedo e bem hidratados porque o show é longo, vocês vão suar muito — recomenda Herbert ao público.
O trio não esconde a emoção de levar seu show para arenas ao Rio, cidade onde começou sua carreira, apresentando-se no bar Western, no Humaitá (que ficava onde hoje está a Casa do Mago), depois galgando degraus para o Circo Voador, o Morro da Urca (“A primeira vez que a gente subiu de bondinho foi inigualável”, recorda-se Herbert) e, enfim, o Rock in Rio (na primeira edição, que completou 40 anos em janeiro).
Esse passado eles andaram celebrando nos últimos meses, com a reedição em vinil do álbum de estreia, “Cinema mudo” (1983), e um show para celebrar os 40 anos do segundo LP, “O passo do Lui” (1984), no festival Doce Maravilha de 2024.
— O primeiro disco era muito a gente suplicando para tocar em bares pequenos, era bem o princípio. Aí, com “O passo do Lui” é que a gente passou a ter uma certa sensação de flutuação — conta Herbert.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2024/Q/4/lCQqbYTxycfg3WNbZBoQ/108488940-ri-rio-de-janeiro-15-09-2024-rock-in-rio-40-anos-paralamas-do-sucesso-no-palco-mun.jpg)
Ano passado, muitos discos, shows e viagens pelo mundo depois, a banda viu sua história representada em “Vital, o musical dos Paralamas” (atualmente em cartaz em São Paulo) e celebrada no programa “Som Brasil”, da TV Globo — atestados de que chegaram ao Olimpo da MPB. Mas não se deitaram nos louros.
— É um desafio ainda achar uma certa significância perante o público, hoje em dia tudo é tão fugaz, as celebridades chegam e vão… — observa Barone. — A gente não quer brigar com o nível de sucesso que um dia já teve, e que talvez nunca mais tenha. Isso tudo está acontecendo não porque a gente esteja lançando um trabalho novo, é apenas um reconhecimento do conjunto da obra.
Ano que vem, os amigos esperam ter um tempo para se reunir e levar um som, como nos velhos tempos — no dia da entrevista, eles tinham se reunido numa dessas ocasiões raras fora da agenda, para gravar participação no próximo disco do cantor Lucas Santtana. Herbert comemora o fato de “ainda ter insegurança e muita ansiedade para criar”, mas vai com calma em relação à possibilidade de um novo disco dos Paralamas.
— Diria que eu estou tentando controlar qualquer nível de ansiedade de “ah, quantas coisas eu tenho, qual é o próximo projeto, em quanto tempo a gente vai fazer” e me deixar levar por coisas diárias assim de contemplação, meditação. Mas as minhas filhas ainda reclamam que no meu quarto tem um número indecente de guitarras! — graceja.
E as vidas seguem. Bi, de 64 anos, casou-se novamente, foi morar em Salvador (Herbert, de 64, e Barone seguem no Rio). Todos com filhos crescidos e (no caso do baterista) netos.
— A nossa vida mesmo são os Paralamas, o resto é uma agradável conciliação — brinca João Barone.

