No mês passado, uma das figuras mais conhecidas do tráfico no Rio de Janeiro, Thiago da Silva Folly — o TH, alvo de 16 mandados de prisão e apontado como responsável por mortes de agentes da segurança pública — , foi morta durante uma operação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) no Complexo da Maré. Junto a ele, também foram mortos seus seguranças, Daniel Falcão dos Santos, o Gotinha, e outro identificado como Carlinhos.
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A operação — considerada um sucesso estratégico — reacende o debate sobre o uso legítimo da força e os impactos sociais dessas ações. Apesar de os danos colaterais terem sido mínimos nesse caso, a lembrança é inevitável: ruas bloqueadas, escolas fechadas e serviços suspensos transformam o território em zona de guerra. O episódio evidencia a importância de um planejamento operacional orientado pela gestão de riscos e pela mitigação de impactos — sobretudo em áreas vulneráveis, onde o risco é, acima de tudo, humano.
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A gestão de riscos deve ser usada de forma estratégica na formulação, na execução e na avaliação de operações policiais, buscando equilibrar eficiência operacional e respeito aos direitos fundamentais. Operações de segurança pública não seguem a lógica das decisões estratégicas do setor privado, pois as forças policiais enfrentam contextos caóticos, imprevisíveis e com variáveis humanas em constante transformação. Por isso a gestão de riscos torna-se ainda mais essencial, dada a complexidade das decisões e o impacto direto sobre vidas e comunidades inteiras.
A operação que resultou na morte de TH é exemplo de planejamento e gestão eficaz: depois de mais de um ano de monitoramento, as forças de segurança conseguiram neutralizar um dos principais líderes do tráfico sem danos significativos à população. Em contraste, outras ações sem preparo causam impactos severos às comunidades, reforçando a importância de estratégias baseadas em inteligência e mitigação de riscos.
Segundo levantamento da ONG Redes da Maré, das operações policiais no Complexo da Maré em 2024, 88% ocorreram perto de escolas, suspendendo as aulas por 37 dias e afetando 7.302 alunos. Além disso, 90% das ações foram próximas a unidades de saúde, interrompendo serviços por 30 dias e adiando cerca de 8.715 atendimentos.
Não se espera que o Bope realize ele próprio mapeamento e análise de riscos. Essa é uma atribuição da gestão da segurança pública, responsável por integrar o planejamento estratégico à realidade operacional. Gestão de riscos não é sinônimo de lentidão, mas de inteligência: antecipar cenários, agir com precisão e preservar vidas.
Incorporar a gestão de riscos como eixo da governança em segurança pública é essencial para modernizar políticas de enfrentamento ao crime em contextos urbanos complexos. Ao equilibrar a urgência das ações com o dever institucional de proteger a população, ela amplia a legitimidade, a eficácia e a responsabilidade social das operações. Só assim será possível construir um sistema de segurança eficiente e ético.
*Jacqueline Beltrami de Jesus é advogada

