“Aquela foi uma quinta-feira comum. Estou no 10º período de Direito na Universidade Estadual do Rio (Uerj) e naquele dia fiz uma prova na faculdade. Depois, como qualquer jovem de 25 anos que gosta de sair, combinei com um amigo de tomar uma cerveja ali perto e, depois, nos animamos para ir a uma festa na Lagoa, Zona Sul do Rio. Repito, não era um dia especial, mas estava animado e feliz. Mas acabou sendo diferente: fui surpreendido com a barbárie e o terror. E aquela agressão ainda não terminou. Ela me impede hoje de fazer qualquer atividade normal, e, definitivamente, nenhuma coisa justifica isso.
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Conversando com esse meu amigo na mesa do bar, vi que tinha um evento e me animei de ir. Era uma noite que iria tocar muitas músicas internacionais, como reggaeton. Quem conhece o local sabe que é um lugar com festas muito boas e que até muitos turistas estrangeiros frequentam. Fui em casa, troquei de roupa e fomos para lá. Chegamos na boate por volta da meia-noite e curtimos como outra noite qualquer.
Durante a festa, fui ao bar pegar uma bebida e, ao voltar, tentei passar por um espaço que estava “fechado” com um sofá. Era bem ao lado da pista de dança e o grupo que estava do lado do móvel, o posicionou para fechar a passagem. Fui, educadamente, pedir para passar. Relembrando, até tive uma educação impar para uma situação dessa. Estiquei a mão para chamar o rapaz que estava em pé na frente do sofá e pedi: “com licença, posso passar aqui?”, perguntei. E ali já veio uma resposta ríspida e arrogante, num tom debochado: “Você não tem nem dinheiro pra passar do meu lado”, respondeu ele.
Eu não sabia, mas quem me respondeu era Pedro Vasconcelos. Aquilo me espantou. Jamais imaginei que iria escutar aquilo. Ele estava cercado de amigos e eu o respondi para me defender: “dinheiro seu ou da sua mãe?”. Ele retrucou, falando alto que havia pagado R$ 17 mil “naquela merda”. Para não arrumar confusão, só virei as costas e fui embora… Não queria dar margem para um bate-boca ainda mais numa discussão tão ridícula como aquela.
Voltei para perto do meu amigo, e comentei como o cara tinha falado tanta besteira e eu não tinha entendido nada. Alguns minutos se passaram, e percebi que o grupo que estava com ele ficava o tempo todo me encarando. Até que fui ao banheiro. Um desses homens me parou e tentou me intimidar: “você não sabe com quem está mexendo”, disse. Fiquei incomodado, mas ignorei. Não queria estimular nenhuma briga. Na noite, às vezes a gente esbarra com essas pessoas grosseiras, que agridem verbalmente, mas pensei ter sido só mais uma e que o problema tinha terminado ali.
Até que vejo o mesmo grupo em outra confusão. Não entendi muito do que se tratava, mas vi um bate-boca, alguns copos de bebida arremessados e alguns integrantes foram expulsos pelos seguranças. Ali caiu a ficha que eles queriam mesmo tumultuar e arrumar uma briga.
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Bom, mas até pensei “ainda bem que não foi comigo”. E continuei minha festa na maior tranquilidade possível, me divertindo — o que era meu intuito desde o começo.
No final da festa, eu e meu amigo decidimos ir embora. Estávamos indo embora ali no Parque dos Patins, a uns 100 metros da boate, quando olho o mesmo grupo perfilado me olhando atravessado. Alguns dentro de um carro, outros em pé. Continuei fazendo minhas coisas, até que a namorada do Pedro, Luma Melo, começa a falar bem alto: “Você não vai fazer nada? Pega ele. Bate nele”. Ainda respondi: “Sério isso? Vamos cada um para sua casa”.
Mas muito rapidamente eles me cercam e me encurralam. Ali já começo a ser agredido naquela selvageria e até convulsionei durante as agressões. Enquanto uns me batiam, ela e Bruno Krupp ficavam gritando incentivando os outros a me baterem. Durante aquela barbárie, tive minha cabeça sendo chutada mesmo desacordado. Só pensava: “eu não posso morrer” e nem consegui ter tempo de me proteger.

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E um parenteses. Percebi haver claramente uma relação de liderança do Pedro aos demais. Eles demonstravam querer agradar a ele, desde aquele momento da boate até na forma de agressões. Deixaram ele ser o principal. Vários me chutaram, mas houve momentos que só assistiram a ele me agredir. Comemoravam que eu estava perto de morrer. Eles se sentiram bem tentando me matar. E no final, ele ainda roubou meu boné, como uma demonstração de poder.
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Vaquinha para ir a hospital
Só acordei no hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, horas depois. Estava muito atordoado e sozinho. A equipe médica me disse onde eu tava e que tinha sido vítima de agressão. Tomei duas bolsas de morfina, mas não foi o bastante para acabar com a dor. Me deram alta e fui pra casa ainda muito ferido acompanhado da minha irmã.
Eu estava com uma dor completamente insuportável e era difícil processar tudo. Naquela mesma tarde em casa decidimos que o melhor era ir novamente a um hospital, dessa vez particular. E mais um problema: o plano de saúde estava atrasado. Minha família fez uma espécie de vaquinha e conseguiu os R$ 6 mil emprestados que eram necessários para quitar a dívida de três meses que estava em aberto. Fui levado, atendido, medicado mais uma vez e voltei para casa.
Conversei pouco com minha família porque nos dias seguintes não conseguia ficar mais que uma hora acordado. Só bebia água e comia coisas gelatinosas porque me forçavam. A na cabeça e mandíbula eram muito fortes e, para aguentar, tomei um forte medicamento que me apagava. Só comecei a recobrar a consciência depois de cinco dias.
E foi quando as informações começam a ser despejadas em cima de mim. A dor física era insuportável, e a emocional na mesma proporção. Minha mãe ficava ao meu lado e chorava muito pensando que eu iria morrer a qualquer momento. Ela sofreu muito todo esse tempo, ficou sem chão. É como se toda minha família também tivesse sido agredida, com medo que eu não resistisse.
Então o vídeo da barbárie começou a circular. Pedi para quem me amasse não vê-lo. Para blindar-los das cenas mesmo. Mas minha mãe de assistiu ao clicar em um link com as imagens sem saber. Minha família não tinha muito a ideia do quão grave havia sido as agressões. Acho que até imaginavam que eu poderia estar exagerando. Mas qualquer um que olha o que aconteceu percebe como foi uma tortura grande. E após assistir, vi minha mãe mal mais uma vez, precisando ser medicada. Até hoje a gente evita em tocar no assunto de como tudo aconteceu.
É muito doloroso revisitar isso. Ao assistir, cada segundo que se passava do vídeo, era como eu sentisse cada um daqueles golpes de novo. Mas com a tecnologia, logo os agressores começaram a ser identificados pela Polícia.
Admito que eu temia ser só mais uma vítima e ser deixado de lado com os poderosos vencendo. Mas o trabalho da polícia foi muito bem feito. Ao perceber isso, o senso de justiça cresceu no meu coração. Percebi que eu precisava lutar e descobri que muitos daqueles agressores já eram criminosos anteriormente envolvidos em outros casos brutais e super tristes. E isso foi me motivando a buscar o que é certo.
Me alivia saber que a justiça está sendo feito e a impunidade não vai prevalecer. Os médicos que estão me atendendo falam que eu ter sobrevivido é um milagre. E acho importante agora eu fazer o sacrifício de falar. Por ser o caminho talvez mais simples, as pessoas não lutam pela justiça, deixam as coisas para lá e continuam sofrendo.
Não sei se meu caso se tornará um marco contra esses episódios de brutalidade, mas gostaria que fosse Espero um pedido de perdão, mas não quero vingança ou outro tipo de violência contra eles, somente justiça e que sejam penalizados.”
*Em depoimento à Felipe Grinberg

