Como um pai pode expressar a dor da perda de um filho? Manoel Marins, pai da jovem Juliana, que morreu após cair às margens de um vulcão, na Indonésia, enquanto fazia uma trilha, buscou na música algumas palavras para homenagear a filha. Em post feito no Instagram nesta quarta-feira (25), Manoel legendou uma foto de Juliana com a letra da canção “Pedaço de mim”, de Chico Buarque.
- ‘O Urso’: O que você precisa lembrar para assistir à quarta temporada
- Entenda: Cinquenta anos após ‘Tubarão’, ciência questiona fama de ‘devorador de humanos’, mas aponta mistérios
Juliana Marins, de 26 anos, foi encontrada morta na terça (24) após cair de uma trilha no segundo maior vulcão na Indonésia. O corpo da jovem foi resgatado após quase 15 horas de trabalho de agentes da Agência Nacional de Busca e Resgate (Basarnas) daquele país. A família de Juliana criticou a demora na tentativa de resgatá-la, ressaltando que a brasileira foi vítima de negligência.
Chico Buarque compôs “Pedaço de mim” em 1977. A música foi gravada em 1978 e lançada num LP do artista em 1979, fazendo parte do musical “Ópera do Malandro”. A canção teve como inspiração a dor de uma mãe: a estilista Zuzu Angel, que era amiga de Chico. Zuzu perdeu seu filho, Stuart Angel Jones, desaparecido e morto pela repressão da ditadura militar em 1971.
Em entrevista concedida à rádio USP, em 1985, Chico Buarque falou sobre o sua relação com Zuzu, e como acompanhou de perto o sofrimento da amiga diante do desaparecimento de seu filho. “Eu conheci muito a Zuzu. Ela foi uma mulher que durante anos depois da morte do Stuart não fez outra coisa senão se dedicar a denunciar os assassinos do filho, a reivindicar o direito de saber aonde é que estava o corpo dele. Ela ia de porta em porta mesmo. E lá em casa ela ia com muita frequência, como em outras casas também. Ela sabia, inclusive, das ameaças que pairavam sobre ela e dizia que tinha certeza que se alguma coisa acontecesse com ela a culpa seria dos mesmos assassinos do filho, que ela citava nominalmente”, disse Chico.
- Zuzu Angel: A ‘mãe coragem’ que enfrentou ditadura após morte do filho sob tortura
A estilista Zuzu Angel (1921–1976) se tornou símbolo da luta contra a ditadura militar. Mineira nascida em Curvelo, ganhou destaque na moda ressaltando elementos da cultura brasileira para passarelas internacionais. Ela morreu em 1976, em um acidente de carro considerado suspeito — e mais tarde reconhecido oficialmente como um atentado político.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/K/I/1pKDFzRTABa5gQpWb46w/40815056-13111996-reproducao-pa-stuart-angel..jpg)
O funeral de Zuzu Angel reuniu cerca de 200 pessoas no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Entre amigos e parentes, estavam as filhas, Hildegard e Ana Cristina, além de artistas, como o próprio Chico Buarque. O compositor sempre acreditou que a morte da amiga havia sido planejada. Uma semana antes do acidente, a estilista havia lhe entregado uma carta em que dizia: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.
Ouça a canção ‘Pedaço de mim’