Um dos pontos que marcam a memorável campanha do Fluminense na Copa do Mundo de Clubes é a formação até então inédita de três zagueiros, adotada a partir das oitavas de final. O time de Renato Gáucho eliminou favoritos e contrariou prognósticos desde que passou a entrar em campo com o esquema de 3-5-2. Se o treinador optou por “espelhar” o sistema de marcação nas classificações sobre Inter de Milão-ITA e Al-Hilal-SAU, ele, agora, precisa lidar com suspensões em meio a um Chelsea taticamente distinto dos últimos adversários para buscar uma vaga na final.
Durante a fase de grupos, o Flu chegou a fazer mudanças pontuais por posição de um jogo para o outro, mas utilizou o esquema da primeira metade da temporada: o 4-3-3. Além dos laterais em cada lado, Thiago Silva e Freytes formaram a dupla de zaga. Fora do empate com o Mamelodi Sundowns-AFS por dores musculares, o capitão deu lugar a Ignácio, que foi eleito o melhor daquela partida. Desde então, o camisa 4 não saiu mais do time e foi a peça que faltava para completar o trio de jogadores na defesa.
Com as equipes italiana e saudita jogando com um trio na zaga, Renato acertou em cheio ao montar uma estratégia a partir da nova formação. Além de facilitar as funções defensivas de seus jogadores com uma marcação encaixada (ala com ala, três meias com três meias), o analista de desempenho Eduardo Barthem explica que ela garantiu mais proteção ao veterano Thiago Silva, que passou a atuar centralizado na linha de três, com possibilidade de coberturas curtas aos outros dois companheiros.
Outra vantagem do esquema de três zagueiros é a segurança na bola aérea. A defesa tricolor recebeu nada menos que 58 cruzamentos somando as partidas contra Inter de Milão e Al Hilal. Ignácio (1,92 m), Freytes (1,82 m) e Thiago (1,81 m) só deixaram passar 11 deles.
Fora da semifinal com dois cartões amarelos, o argentino deixa dúvidas sobre quem será seu substituto nessa formação. Pelos treinamentos, Renê (1,74 m) e Thiago Santos (1,81 m), de estilos completamente diferentes, brigam pela posição. Apesar da menor estatura, o lateral pode ganhar a vaga por ser canhoto. Se for realmente improvisado como zagueiro, Fuentes deve fazer novamente a ala esquerda.
— Freytes é um zagueiro canhoto; já o Thiago Santos é destro e tem certa dificuldade com a perna esquerda, principalmente quando pressionado. Hoje em dia, as pressões na saída de bola aumentaram, então o jogador tem menos tempo para ajeitar o corpo e acertar um passe sob pressão. E o Thiago já demonstrou alguns problemas quando pressionado na saída de bola. Com a entrada do Renê, acho que o time sentiria menos isso, mas perderia na questão de estatura dentro da área para se defender em alguns escanteios — analisa Rodrigo Coutinho, comentarista do Grupo Globo.
Já no meio-campo, o também suspenso Martinelli deve dar lugar naturalmente a Hércules, artilheiro da equipe na competição com dois gols. Na ala direita, caso Samuel Xavier não se recupere de desgaste muscular, Guga pode começar jogando.
Em caso de uma improvável volta ao tradicional 4-3-3, Eduardo Barthem considera que o Fluminense poderia colocar mais um ponta de velocidade ao abrir mão de um dos três defensores para incomodar justamente uma das maiores vulnerabilidades do Chelsea: a marcação no contra-ataque.
Se os ingleses deixam a desejar na transição defensiva, o ataque é a principal arma da equipe. Além de jogadores rápidos nas beiradas do campo, Cole Palmer comanda as ações ofensivas com sua talentosa perna esquerda. O camisa 10 gosta de atacar os espaços entre linhas, assim como foi em seu gol na vitória por 2 a 1 contra o Palmeiras, pelas quartas de final.
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— O Palmeiras tentou marcar o Palmer no 4-3-3 do Chelsea com encaixes individuais, mas faltou combate, que é tirar um dos zagueiros para persegui-lo entre linhas. Se o Renato quiser manter o esquema com três zagueiros, eu vejo que um deles, tanto pela esquerda quanto pela direita, com o Thiago Silva mais protegido no meio, vai ter mais liberdade para sair da linha e fazer esse enfrentamento próximo, já que ele não pode receber com tempo e espaço na frente da área, porque, em dois ou três toques, pode chegar ao gol — ressalta Barthem.
E Renato já fez essa leitura tática antes do jogo:
— Se o meu zagueiro não sair marcando, o atacante vai receber essa bola, vai virar e, com certeza, vai trazer problemas para a gente. É natural que um dos zagueiros do lado saia na caça porque sabe que tem a sobra do líbero.