O primeiro e mais conhecido disco de Wanda Sá, “Wanda vagamente” (1964), tem na capa a cantora, então com 20 anos, caminhando na praia com o violão na mão. Seis décadas depois, ela refez a imagem para a capa e para as fotos de divulgação de “Wanda Sá 80 anos” (Biscoito Fino), álbum que remete à data redonda completada em 2024. Por causa de atrasos, o trabalho está saindo agora, em torno dos 81 que ela completou na terça-feira passada (1º).
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Wanda pode ser considerada a mais fiel intérprete da bossa nova que existe no país. Desde o início da carreira, dedica-se quase exclusivamente a esse repertório.
— Sempre só fiz isso — atesta. — Sofro pressão para gravar coisas diferentes, mas gosto dessa música, sei tocar bem, gosto dos acordes. Não sou só cantora, sou violonista também.
Ela faz uma comparação para defender sua escolha:
— Tem gente que canta só samba. Eu canto só bossa nova. E não vejo pessoas do samba procurando outros gêneros para gravar.
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Ao menos parcialmente, deu resultado a pressão que Wanda diz sofrer. Das 11 faixas do novo álbum, oito são inéditas feitas no estilo da bossa nova. A produtora Regina Oreiro, idealizadora do projeto, correu atrás de músicas que dessem ares diferentes ao que a cantora costuma interpretar.
— Nunca pensei em repertório novo — conta Wanda. — Não me identifico com o que está sendo feito por aí, embora meus filhos me atualizem.
Ainda assim, ela destaca ter entre os autores das músicas um artista popular de outra geração, Nando Reis. Ele é o letrista de “Juntinho” — melodia de João Donato (1934-2023) e gravação de Wanda ao lado de Bebel Gilberto — e também de “Só desalento”, parceria com Marcos Valle.
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Na lista de autores há nomes da primeira turma da bossa nova, a começar por Donato. Outro é Carlos Lyra (1933-2023), cuja inédita “Tom do amor” foi letrada por Ronaldo Bastos. E não faltou Roberto Menescal, companheiro de Wanda em diversos trabalhos.
— Menescal tinha outras músicas, mas fez questão de compor uma especialmente para o disco — ressalta ela, referindo-se a “Não pergunte demais”, que tem versos de Abel Silva.
E tem os contemporâneos de Wanda, habitualmente chamados de “filhos da bossa nova”. Além de Marcos Valle, há, por exemplo, Jards Macalé, que também fez “A voz de sal” (com Romulo Fróes, mais um de geração mais nova) para o álbum.
Joyce Moreno está presente — inclusive, na gravação — em “Se solta, coração”, letra de Paulo Cesar Pinheiro. E Francis Hime aparece com uma das poucas não inéditas do trabalho: “A tarde”, letra de Olivia Hime.
A própria Wanda é a letrista de “Valsa nova”, cuja melodia é de seu filho Bena Lobo. Enviada de Portugal, onde ele morou por nove anos, virou mote para a mãe falar da saudade que sentia. Dos três filhos, Bebel também participa do álbum em “Tom do amor”.
— Vejo gente falando: “A música é minha vida.” Não é a minha. Tenho outras prioridades, como os filhos, que amo profundamente — diz Wanda.
Ela se dedicou a Mariana, Bernardo e Isabel (os três em torno dos 50 anos hoje) na infância deles. Interrompeu a carreira nesse período. Seu sonho era ter vivido mais tempo nos Estados Unidos. Foi para lá em 1964, acompanhando Sergio Mendes, e ficou dois anos. Depois voltou com o então marido, Edu Lobo, que tinha ido estudar no país. Ele preferiu voltar, segundo ela:
— Edu nunca se adaptou muito. Tinha saudade do Brasil, de ler o Pasquim, tomar guaraná e comer requeijão. Eu queria ter ficado.
Outra prioridade é a fé. Há cerca de 40 anos, Wanda virou pentecostal — classificação que não adota mais, embora continue religiosa. Ela encerra o novo álbum com “Ame ao Senhor” (Guilherme Kerr Neto e Sergio Pimenta).
— Eu me converti num grupo só de músicos e levada pelo João Donato. Depois, fui estudar a Bíblia — recorda.
“Wanda Sá 80 anos” ainda tem “There will never be another you” (Warren e Gordon), cuja gravação de Chet Baker marcou os primeiros bossa-novistas.
— Adriano Souza, meu pianista, disse que, quando Tom (Jobim) morreu, estava no piano dele a partitura dessa música. Se Tom estava apaixonado por ela, mais apaixonada ainda eu fiquei — conta ela.
