O aquecimento global tem provocado fortes mudanças climáticas em todo o mundo. Na Europa, há picos de temperatura de mais de 40 graus Celsius e, nos Estados Unidos, especificamente no estado do Texas, fortes chuvas provocaram inundações com dezenas de mortos, uma tragédia que nós, brasileiros, infelizmente também já vivemos.
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A enchente que aconteceu no Sul do país em 2024, com o aumento do nível do Lago Guaíba, alagando quase 500 municípios e provocando a morte de mais de 180 pessoas, fez um ano há poucas semanas. Muitos registros jornalísticos foram produzidos em decorrência dos acontecimentos, mas em “Água até aqui: histórias de luta, sobrevivência e recomeço na maior tragédia climática do Rio Grande do Sul” (Arquipélago), Pablito Aguiar “traduz em traços aquilo que escapa à compreensão”, como escreve em seu posfácio a bióloga e jornalista Jaqueline Sordi, especializada em comunicação científica e ambiental.
Hoje repórter-quadrinista da plataforma Sumaúma — projeto jornalístico fundado e dirigido por Eliane Brum —, Pablito produz em seu novo livro perfis em quadrinhos de pessoas e um cavalo afetados pela enchente do ano passado. Ele dedica seis páginas de quatro quadros aos personagens reais de sua obra (só dois ganham um pouco mais de espaço), numa estrutura rígida que, por sua vez, iguala, de forma imparcial, todos eles em seus dramas pessoais, com relatos de forte emoção.
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Pablito, que vivia em Alvorada (RS) na época da tragédia e hoje vive e trabalha em Altamira (PA), diz que a ideia do projeto partiu de Eliane.
— Quando eu recebi o convite para contar histórias da enchente, estava me deslocando de Alvorada, pois havia riscos, já não havia água potável e a comida estava no fim — conta Pablito por aplicativo de mensagem. — Em local seguro, comecei as entrevistas por telefone mesmo, já que não havia como fazer de forma presencial.
O autor explica que o trabalho de apuração foi de maio a setembro do ano passado e que a cada mês entrevistava duas pessoas. Caramelo, o cavalo que passou quatro dias ilhado sobre o telhado de uma casa, à espera de ajuda, não falou com o repórter, mas ganha voz em sua história, que fecha o livro, de forma terna.
— O Caramelo acabou virando um símbolo de tudo isso — complementa ele, que costuma registrar tudo em fotos, vídeos e, claro, áudio. — Começo falando da sobrevivência e do resgate, inclusive de animais, para depois tratar da luta por moradia, com ocupações e resistência de quem perdeu tudo. Ainda teve o lixo que acumulou nas ruas, com todos os objetos das pessoas. Depois, tudo isso virou o livro, de forma natural. Mas tudo que eu faço penso que pode virar um livro depois.
No longo período de produção das entrevistas presenciais, evidentemente dificultadas pelas condições físicas de deslocamento, Pablito visitou cidades como Cachoeirinha, Canoas, Santa Maria, Cruzeiro do Sul e Arroio do Meio, além de Porto Alegre, a capital. Estar tão imerso em algo tão trágico foi, segundo ele, bem difícil.
— Foi delicado ouvir essas feridas abertas das pessoas, mas eu entendia que era jornalismo o que estava fazendo, que era o meu trabalho registrar essas histórias — explica o repórter-quadrinista, de 37 anos. — Para que a gente não esqueça e consiga lidar com esse trauma. De certa forma, para mim foi importante para compreender o que parecia incompreensível, pois parecia um pesadelo.
A água é o elemento em comum com outro título de Pablito que sai esta semana, “Marisqueiras”, sobre a comunidade de mulheres quilombolas que vivem da coleta de mariscos na Ilha de Maré, na Bahia. O autor explica mais sobre o teor de seu quadrinho, lançado de forma independente há dois anos e de volta, agora, em publicação pela Conrad.
— Falo de como a ilha está rodeada por empresas que poluem a água e o ar, trazendo com isso doenças não só para as mulheres, mas para homens e crianças que vivem naqueles quilombos — esclarece Pablito. — Muita gente não enxerga que tudo está relacionado e que precisamos cuidar do meio ambiente, da casa em que vivemos.
Pablito conclui dizendo que não faz quadrinho para um tipo de público somente, ou apenas para crianças ou para adultos. E que a força da narrativa em imagens está no poder do desenho:
—O desenho é uma ferramenta muito interessante para falar sobre temas difíceis porque atrai o leitor através desse seu carisma natural.
Autor: Pablito Aguiar. Editora: Arquipélago. Páginas: 136. Preço: R$ 79,90.