Tetos, paredes e armários de madeira desabaram em montes de entulho no centro de visitantes da prisão. Papéis queimados e arquivos de casos coloridos estavam espalhados entre tijolos quebrados e fios emaranhados no prédio da administração. Cacos de vidro cobriam camas e equipamentos de pacientes na enfermaria.
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A prisão de Evin, em Teerã, capital do Irã, destaca-se como um símbolo singular de opressão, com sua notória reputação que transcende as fronteiras do país. Por cinco décadas, os governantes iranianos, desde o xá até os clérigos, usaram Evin como local para punir dissidentes com detenção, interrogatório, tortura e execução. Os ataques, porém, transformaram-na de um símbolo odiado de opressão em um novo grito de guerra contra Israel, mesmo entre os críticos internos do regime iraniano.
Quando Israel atingiu a prisão com mísseis em 23 de junho, o ataque gerou condenação generalizada e fúria no Irã, mesmo entre os oponentes do governo autoritário.
Os ataques foram os mais mortais dos 12 dias de guerra entre Israel e Irã. O Irã, por sua vez, afirmou que 79 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas no ataque de Evin, mas espera-se que o número de vítimas aumente.
Entre os mortos e feridos estavam familiares de prisioneiros, assistentes sociais, um advogado, médicos e enfermeiros, uma criança de 5 anos, soldados adolescentes que vigiavam as portas como parte do serviço militar obrigatório, funcionários administrativos e moradores da área, de acordo com relatos da mídia iraniana, ativistas e grupos de direitos humanos.
Cerca de 100 detentos transgêneros estão desaparecidos após a destruição de suas alas da prisão, e as autoridades dizem que eles são presumivelmente mortos, disse Reza Shafakhah, um renomado advogado de direitos humanos, que acrescentou que o governo frequentemente trata a transgeneridade como crime. O promotor-chefe da prisão, Ali Ghanaatkar, desprezado pelos críticos do governo por sua forma de lidar com presos políticos, e um de seus assistentes também foram mortos.
O Exército de Israel se recusou a comentar sobre o propósito do ataque a Evin. Autoridades israelenses descreveram o ataque a Evin como “simbólico”. Nas redes sociais, o Ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, sugeriu que se tratava tanto de retaliação aos ataques de mísseis iranianos contra estruturas civis quanto, de alguma forma, de um ato de libertação.
Mas no Irã, prisioneiros, familiares, ativistas e advogados disseram que a ação de Israel demonstrou total desrespeito pela vida e segurança dos prisioneiros. Eles afirmaram que o horário do ataque, ao meio-dia, durante um dia útil, também fez com que a prisão estivesse lotada de visitantes, advogados, médicos e funcionários administrativos.
Narges Mohammadi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz e a mais proeminente ativista de direitos humanos do Irã, disse que o ataque israelense “realizado em plena luz do dia, na frente de familiares e visitantes, é claramente um crime de guerra”. Mohammadi passou décadas entrando e saindo de Evin e atualmente está de licença.
O empresário iraniano-americano Siamak Namazi, de 53 anos, — que foi detido em Evin por oito anos sob acusações de espionagem, que os Estados Unidos e grupos de direitos humanos descreveram como falsas — disse que os prisioneiros, assim como muitos iranianos comuns, se sentem pisoteados por dois poderes implacáveis.
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— O que ouço de prisioneiros e dos meus amigos é que eles se sentem presos entre as duas lâminas de uma tesoura: o regime maligno que os aprisiona e tortura e uma força estrangeira que joga bombas sobre suas cabeças em nome da liberdade — avaliou Namazi.
A Anistia Internacional apelou ao Irã para que liberte imediatamente prisioneiros políticos e afirmou em sua conta nas redes sociais que o ataque israelense a Evin poderia constituir um crime de guerra. O porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Thameen Al Kheetan, classificou o ataque como “uma grave violação do direito internacional humanitário”.
Por volta do meio-dia de 23 de junho, um dia escaldante de verão, Leila Jaffarzadeh, de 35 anos, mãe de uma menina de 1 ano, chegou a Evin segurando uma sacola de documentos. As autoridades concordaram em conceder liberdade condicional a seu marido, Milad Khedmati, preso por acusações financeiras.
Jaffarzadeh estava ao telefone com o marido ao se aproximar do centro de visitantes quando as primeiras explosões atingiram a prisão. Ela gritou, dizendo a ele: “Eles estão bombardeando, bombardeando, bombardeando, bombardeando”, e então a linha caiu. A mulher, segundo seu cunhado, morreu após estilhaços perfurarem seu cérebro.
Ao chegar ao local, Hossein Khedmati, o cunhado de Jaffarzadeh, disse ter visto fumaça, chamas e carnificina em todas as direções — corpos quebrados e mortos, roupas rasgadas e sapatos soltos espalhados nos escombros. Equipes de emergência transportaram os feridos em macas para ambulâncias. Khedmati encontrou a cunhada num saco para cadáveres.
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— Não consigo imaginar que Leila não esteja mais conosco e que Nila crescerá sem a mãe — disse ele. — Contar ao meu irmão que a esposa dele estava morta foi a coisa mais difícil que já fiz na vida.
Zahra Ebadi, assistente social da prisão, não conseguiu encontrar uma creche naquele dia, então levou seu filho de 5 anos, Mehrad, para o trabalho. Ele estava brincando na área de visitantes enquanto sua mãe terminava a papelada em um escritório, segundo sua prima, Tahereh Pajouhesh, entrevistada pelo jornal Shargh Daily.
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Após a primeira explosão, Ebadi correu para encontrar o filho, mas outra explosão a matou, disse Pajouhesh. Um colega agarrou Mehrad para protegê-lo, mas os destroços esmagaram e mataram os dois. Quatro outras assistentes sociais também foram mortas, de acordo com relatos da mídia iraniana.
Mina, de 53 anos, disse que estava falando por telefone com o filho, que cumpre pena de cinco anos em Evin por ativismo político. A ligação foi interrompida abruptamente. Ela ligou novamente, várias vezes. Quando ele finalmente atendeu, disse que a prisão havia sido atacada. Mina pediu que seu sobrenome e o nome do filho não fossem publicados por medo de represálias.
— Minhas pernas ficaram dormentes e meu corpo começou a tremer. Não sei como cheguei a Evin — lembrou Mina. — Os seguranças não me deixaram passar. Outros familiares também estavam lá. Acabei chegando ao local do ataque gritando e berrando. Ela disse ter contado pelo menos 15 cadáveres no chão.
A mídia iraniana noticiou que, pelo menos, dois locais da prisão foram atingidos diretamente: o centro de visitantes de três andares perto da entrada principal, que também abrigava o gabinete do promotor, e a clínica hospitalar com 47 leitos dentro do complexo.
Na última sexta-feira, a Forensic Architecture, agência de pesquisa especializada em investigações visuais, informou que sua análise de imagens de satélite mostrou, pelo menos, seis ataques em Evin, quatro confirmados por fotos tiradas no local, incluindo ataques a vários dormitórios da prisão. A biblioteca, o mercado, o depósito de alimentos e a ala 209, controlada pelas forças de inteligência, também foram destruídos.
— Os prisioneiros viviam em constante medo, acreditando que cada momento poderia ser o último — disse Nasrine Setoudeh, uma renomada advogada e ex-prisioneira de Evin, cujo marido e colega ativista político, Reza Khandan, estava detido lá. — Reza levou uma hora para ligar e confirmar que estava seguro. Aquela hora pareceu uma eternidade.
As famílias de quatro presos políticos divulgaram relatos detalhados dos detentos sobre os ataques e suas consequências, em declarações compartilhadas com o The New York Times e nas redes sociais. São eles: Abolfazl Ghadyani e Mehdi Mahmoudian, dois proeminentes dissidentes políticos; Mostafa Tajzadeh, ex-ministro do Interior e crítico ferrenho do governo; e Khandan, marido de Setoudeh.
Além disso, outros 13 prisioneiros fizeram uma declaração conjunta, outros divulgaram relatos mais gerais e quatro prisioneiras contaram à BBC Persa sobre os eventos dentro da seção feminina. As quatro mulheres afirmaram que por mais de três horas não houve chegada de ajuda externa e que as linhas telefônicas foram cortadas.
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As descrições do que aconteceu em Evin são baseadas em entrevistas com mais de uma dúzia de familiares de prisioneiros, advogados que os representam, ex-prisioneiros em contato com os atuais, testemunhos escritos de prisioneiros atuais, fotos e vídeos de jornalistas independentes e reportagens da mídia iraniana.
Todos descreveram um caos repentino e abrangente: prédios balançaram, paredes ruíram, janelas se estilhaçaram, portas arrancaram das dobradiças, fumaça e poeira turvaram o ar e pessoas ficaram ensanguentadas, gritando por ajuda.
Um grupo de prisioneiros correu para o pátio e encontrou a clínica em chamas. O armazém de alimentos e produtos de higiene pessoal foi devastado. Prisioneiros do prédio de confinamento solitário e seus guardas vagavam para fora, atordoados, pelas portas destruídas.
Tajzadeh contou à esposa, Fakhri Mohtashamipour, que estava andando de um lado para o outro no corredor, em seu exercício diário, quando as primeiras bombas detonaram e que teria morrido se estivesse dentro de sua cela, que foi destruída. Ela contou em uma entrevista que ele conseguiu um rápido telefonema para ela naquela noite, dizendo que a prisão havia ficado sem energia elétrica, água e gás, e os prisioneiros foram forçados a se amontoar no escuro, em um prédio semidestruído.
Nas primeiras horas, os prisioneiros ajudaram nos esforços de recuperação. Eles relataram ter evacuado sobreviventes da clínica e ter escavado os escombros com as mãos, encontrando cerca de 20 corpos. De acordo com um depoimento de Mahmoudian e Ghadyani, entre os gravemente feridos estava uma médica, que eles identificaram apenas como Makarem, uma especialista em doenças infecciosas que perdeu um braço e uma perna.
À tarde, eles disseram, as forças de segurança invadiram a prisão e, sob a mira de armas, forçaram os homens que ajudavam nas operações de resgate a voltarem para dentro. Mais tarde, prisioneiros foram algemados em pares pelos pulsos e tornozelos e retirados, novamente sob a mira de armas.
Eles escalaram no escuro as ruínas da prisão, passando por fios emaranhados, tijolos quebrados e cadáveres. Algumas pessoas desmaiaram e outras choraram. Levaram mais de uma hora para chegar aos ônibus de evacuação que os aguardavam.
O comboio de ônibus, escoltado por veículos de segurança, finalmente partiu, serpenteando em meio a ataques aéreos até a prisão de Fashafouyeh, uma instalação nos arredores de Teerã, conhecida por suas condições insalubres e superlotadas. Khandan disse que eles chegaram cerca de 20 horas após o ataque, sem ter recebido comida ou água.
Prisioneiras também foram evacuadas à força, algemadas em pares e transferidas para a prisão de Gharchak, uma instalação superlotada nos arredores de Teerã na manhã seguinte. Fariba Kamalabadi, uma líder da fé Bahá’í que cumpre pena de 20 anos, disse à sua família que as condições para as mulheres haviam se deteriorado.
— Gostaria que tivéssemos morrido com os mísseis — disse sua filha à BBC Persa.
Shafakhah, o advogado que representa alguns dos presos políticos, disse “que a prisão de Evin será fechada para sempre, mas a opressão não se limita a um local, eles continuarão em outros lugares”.