O corpo da carnavalesca Maria Augusta, que morreu na sexta-feira (11) aos 83 anos, será velado nesta sábado (12) a partir das 11h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. O sepultamento está marcado para as 15h. Maria Augusta morreu de falência múltipla dos órgãos. Ela estava internada desde junho no Hospital São Lucas, em Copacabana.
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O jornalista Bruno Chateaubriand, amigo e companheiro dela no júri do Estandarte de Ouro, conta que a carnavalesca descobriu um câncer na bexiga no início do ano, foi operada após o carnaval e iniciou o tratamento com imunoterapia, que provocou efeitos colaterais. Mas, segundo o jornalista, ela participou ativamente do carnaval de 2025, inclusive como julgadora do Estandarte.
“Ainda não consegui imaginar como serão meus dias de escola de samba, de desfiles na Sapucaí, sem Maria Augusta. Perdê-la é como perder um pedaço da história de todas as escolas de samba do Rio de Janeiro. (…) Ela era firme na defesa das tradições e do bom gosto. Hoje é um dia triste para mim. Mas, como sabemos que este é apenas um plano (entre tantos outros) tenho certeza de que, do outro lado, ela estará próxima ao setor das escolas de samba, estará ao lado de todos os artistas. Que sua passagem seja leve e tranquila. Te amo, minha eterna e amada Augusta”, escreveu Bruno Chateaubriand.
Em 1969, a jovem Maria Augusta Rodrigues, aluna da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ, foi chamada para ajudar seu professor, o carnavalesco Fernando Pamplona, a decorar o Copacabana Palace para o seu baile de carnaval. Ao fim da festa no tradicional hotel de Copacabana, coube ao também carnavalesco Arlindo Rodrigues, que trabalhava com Pamplona, fazer o convite que revolucionou a vida de Maria Augusta, então com 27 anos.
— O Arlindo Rodrigues disse que eles estavam indo para o barracão do Salgueiro, pois o carnaval estava atrasado, e perguntou se eu queria ir junto. “Quero”, respondi. E fomos. Um caminhão havia levado toda a parte decorativa do baile, que seria reaproveitada pela escola. Quando chegamos lá, Arlindo apontou para uma alegoria toda branca e me disse: “Aquele carro é seu, vai decorar!” — recordou a carnavalesca, professora, comentarista e jurada do Prêmio Estandarte de Ouro, em entrevista ao GLOBO em 2015.
Maria Augusta “é uma das poucas mulheres com nome gravado no panteão dos grandes criadores do carnaval, ambiente dominado por homens, com doses de misoginia”, lembra a jornalista Flávia Oliveira no capítulo sobre “A artista da cor” do livro “Pra tudo se acabar na quarta-feira”, sobre os grandes criadores do carnaval, lançado este ano.
Foi ao lado dos mestres Pamplona e Arlindo que ela deu seus primeiros passos na folia carioca. Arlindo era exigente com as cores e a encarregou da preparação das tintas, lembra Flávia Oliveira. “Nasciam ali a professora de Teoria da Cor da EBA/UFRJ e a carnavalesca conhecida pelos matizes fortes e sofisticados”, diz a jornalista, acrescentando que Maria Augusta acabou identificada como a artista do “luxo da cor”, que se contrapõe ao “luxo do brilho”, atribuído especialmente a Joãosinho Trinta.
No Salgueiro, foram três enredos campeões: “Bahia de Todos os Deuses” (1969), “Festa para um Rei Negro” (1971) e “O Rei de França na Ilha de Assombração” (1974). O último foi conquistado ao lado de Joãosinho Trinta, com quem assinou o enredo.
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Nos anos 1970, trocou a vermelho e branco da Tijuca pela União da Ilha. Na nova escola, fez carnavais inesquecíveis, embora não tenha ganhado títulos. Com simplicidade, no lugar do luxo e de alegorias imensas, o enredo “Domingo” (1977) é considerado um dos mais criativos da história dos carnavais. Em 1978, criou o memorável “O Amanhã”.
Maria Augusta deu à Ilha o estilo “bom, bonito e barato” de uma escola simpática e leve. Sem falar que “Domingo” e “O Amanhã” renderam sambas antológicos, feitos a partir dos seus enredos.
— A obra é a intuição — repetiu ela em entrevistas.
Nascida em São João da Barra, no Norte Fluminense, ainda criança frequentava com a mãe as festas populares da região. Filha de xangô, descobriu primeiro a umbanda e, depois, o candomblé. Passou a usar contas de proteção no pescoço e quase sempre roupas brancas.
Além de Salgueiro e União da Ilha, Maria Augusta passou por Paraíso do Tuiuti, Tradição e Beija-Flor. Em 2022, quando o Estandarte de Ouro comemorou 50 anos, foi homenageada pelo prêmio. Este ano, ela foi enredo da escola mirim Aprendizes do Salgueiro (“Uni-duni-tê, o Aprendizes escolheu você!”).
Presidente do júri do Estandarte de Ouro, o jornalista Marcelo de Mello conta que Maria Augusta tinha um bordão que virou meme entre os amigos e nas redes sociais e que sintetiza bem quem era: “Isso é uma coisa muito séria”, dizia volta e meia nas conversas sobre escolas de samba. Recorda que ela “estudava profundamente os enredos, pensava muito no que via na Sapucaí, era reflexiva numa festa em que a maioria quer se descontrair”:
— Aprendi com ela que o vermelho, dependendo da iluminação, pode se tornar uma cor sem viço; que porta-bandeira precisa estar com o queixo alto e o pavilhão bem para cima, por uma questão de altivez; que as esculturas das alegorias não podem estar fora da proporção; e que, se uma escola não tem dinheiro para brilho, que use várias cores para dar a impressão de exuberância sem gastar muito, mas sem exagero no colorido, para que, da arquibancada, o conjunto não pareça um borrão.
Ela lutava contra um câncer. Ontem, aos 83 anos, morreu de falência múltipla dos órgãos.
A morte repercutiu nas redes. A Liesa, escolas de samba e sambista se manifestaram. O governador Cláudio Castro e o prefeito Eduardo Paes emitiram notas de pesar.