Era um dia de semana comum, com pouca gente na Praia de Itacoatiara, em Niterói, uma das mais perigosas do Brasil, e onde o bombeiro militar Henrique Bruto atua como guarda-vidas. O mar estava agitado, com aviso de ressaca, e bandeiras vermelhas espalhadas na areia. Uma visitante, que fazia fotos na pedra do Pampo, foi atingida por uma onda violenta e arrastada pela correnteza. Sem pensar, ele pulou na água e salvou a vida dela. Não sem dificuldade: outro bombeiro, Bruno Lassé, também entrou na água para ajudar no resgate dos dois. Situações extremas como essa, em que muitas vezes é preciso arriscar a própria vida para salvar outra, são rotina de socorristas, cujo dia foi celebrado na última sexta-feira.
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O afogamento aconteceu na mais perigosa da Praia de Itacoatiara, que cedia o campeonato de surf de ondas grandes do Brasil. A vítima estava num ponto ainda mais delicado, no encontro da Pedra do Pampo com a Pedra da Baleinha, conhecida como “moedor”: a laje é muito rasa, tem muitas pedras soltas, ouriços e mexilhões. Bruto observou que a vítima já tinha se machucado muito ao passar por esse local e aparentava estar nos últimos momentos de vida, pelos movimentos dos braços na água.
— Eu pulei no meio das pedras, o mar me puxou para o “moedor”, eu coloquei minha mão na laje, ficou cheia de ouriço, orei e pedi a Deus que me guiasse até ela. Depois outra onda bateu em mim e me jogou para cima de outra laje e cortei o joelho. Fui gritando e orando, até identificar onde a vítima estava. Quando achei, ela já estava muito fraca, mole, e não conseguia segurar o flutuador. Até que o soldado Bruno saltou na água e me ajudou a prendê-la na boia. Saímos da zona de impacto das ondas, e o helicóptero nos buscou — relatou o cabo Bruto, como é conhecido.
Para ele, ser guarda-vida é mais do que profissão:
— Eu senti uma vocação divina, que essa era minha missão de ajudar o próximo e salvar vidas. Eu faço isso com paixão e com entrega, porque eu entendo que tudo que eu faço na minha vida é para Deus. Se todas as vidas importam para Deus, então todas importam para mim também — afirma Bruto.
Socorrista do Corpo de Bombeiros há 17 anos, a capitão Danielle Amorim hoje trabalha no Grupamento de Operações Aéreas (GOA) da corporação. No helicóptero, já fez diversos tipos de resgate, desde afogamentos até chegar a vítimas em locais de difícil acesso, como em grandes desastres. Ela não esquece quando salvou uma criança recém-nascida que ainda estava na placenta e foi jogada no lixo, num saco plástico, atrás de uma obra de um shopping em Campo Grande.
— Quando chegamos no local, o bebê estava hipotérmico, já em franca parada respiratória, evoluindo para uma parada cardíaca. Fiquei muito envolvida. A gente conseguiu reanimar a criança, ventilamos, aquecemos, fizemos as manobras e ela voltou. Foi um momento muito importante, muito marcante. Existia um grupo muito grande de pessoas em volta assistindo, curiosas, torcendo. Foi tudo muito rápido. Quando a gente conseguiu estabilizar a criança, que todos viram que a criança estava viva, foi uma grande comoção — relembra a socorrista.
Tem as histórias de quem, além de salvar vidas, ajuda a trazê-las ao mundo. A socorrista Gabriela Meireles fez um parto no meio da Transolímpica, em janeiro de 2022. Na última quinta-feira, ela reencontrou Nathan, hoje com 3 anos, e a mãe dele, Michelle Ribeiro.
— Todos os socorristas brincaram comigo, falando que eu era obstetra e nunca tinha realizado um parto na ViaRio. Mas quando Michelle chegou, com dilatação total e perto de dar à luz, vi que era aquele o momento. Fizemos o procedimento rapidamente e a encaminhamos à maternidade do Albert Schweitzer — relembra Gabriela.
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A gestante estava no carro do irmão, a caminho da maternidade, mas parou porque sentiu que era a hora.
— Pedi para parar porque o Natan estava realmente para nascer. Logo em seguida ouvi a doutora Gabriela me falando que o parto seria na própria via, e pouco depois meu filho estava nos meus braços — conta Michelle.
Às vezes, o caso é de um ato espontâneo de solidariedade, como o que viralizou nas redes sociais no mês passado. Num vídeo gravado na UPA da Cidade de Deus, um socorrista do Samu descalça as botas e tira as próprias meias para colocá-las nos pés de um paciente que estava com frio, deitado numa maca à espera de atendimento. O condutor socorrista é Márcio “Cojak” Luiz Gomes da Silva.
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— A Samu Rio está aí para salvar e ajudar não importa quem. Não esperava essa repercussão toda. Fiz isso porque gosto de ajudar as pessoas — disse Cojak ao GLOBO na ocasião.