A tradicional cooperação técnica que vimos desenvolvendo com instituições norte-americanas, governamentais e acadêmicas, nos mais diversos domínios da pesquisa e da inovação, nas últimas décadas, se soma à admiração pela qualidade de produtos gerados, na formação de mestres, doutores e pós doutores, e aí residiu, até muito recentemente, uma perspectiva de crescimento.
Assistimos, portanto, com imensa tristeza e frustração colegas brasileiros que deixaram aqui seus vínculos institucionais em troca de uma vida melhor e possibilidade de desenvolver seus trabalhos, sendo levados ou ao desemprego, ou à uma diáspora de volta, ou em busca de outros países e serviços, por força dos cortes e financiamentos, além das barreiras migratórias ali impostas. O último relatório da Capes (MEC) registra o número de 96 pesquisadores brasileiros que desistiram de seus doutorados nos Estados Unidos neste ano, mesmo com acesso a bolsas assegurado, e que entretanto optaram por adiar ou mudar seu destino em razão da insegurança.
De par com esse fato, para muitos de nós, médicos, é simbólico um hábito tão incorporado à rotina, de consultar a publicação semanal (MMWR), visando estar sempre em dia com o que ocorre no planeta em termos de surtos, patógenos, e outras informações relevantes em saúde, ter sido bruscamente rompido pela descontinuação desse periódico nos últimos meses.
Na mesma semana em que assistimos notícias que parecem vir de outro mundo, da absurda taxação de 50% sobre a exportação de produtos brasileiros para os Estados Unidos, recebemos uma correspondência de denúncia elaborada por autores da Boston School of Law e da Harvard Medical School, publicada na revista The Lancet, relatando, com fontes confiáveis e uma boa análise, mesmo reconhecendo alguma limitação metodológica, a clara manipulação de dados em saúde, dentro do governo federal norte-americano. Foram reunidas informações do Departamento Federal de Saúde, dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças(CDC), e rede dos Veteranos, e selecionados aqueles que haviam sofrido modificações entre 20 de janeiro e março de 2025. Observou-se que, num total de 232 conjuntos de dados que foram incluídos na análise 114 (49%) foram substantivamente alterados, e entre esses em 93% o termo gênero foi alterado para sexo. Esta não é uma alteração trivial, uma vez que esses dados são utilizados para determinar intervenções em saúde e seus resultados, o que implica em degradar a qualidade de alguma informação subliminar e mesmo comprometer a consistência destes. E pensar que isso ocorre, em tempos de integridade de dados gerando informações confiáveis para toda a sociedade, sob a retórica de “transparência radical” como alardeado pelo secretário Robert Kennedy Jr.
Nesse momento de fenômenos naturais, aquecimento global, tantas preocupações com o meio ambiente degradado e em risco de alcançar ponto de não retorno em algumas áreas, somos testemunhas de negação do óbvio, que por vezes contamina os mais vulneráveis socialmente. Tamanha regressão civilizatória e desamor, se revelam ainda nos paradoxos entre descobertas científicas, que em teoria deveriam servir para aumentar a expectativa e qualidade de vida no planeta, e de modo mais contundente, nas doenças da contemporaneidade como guerras, exclusão, desnutrição, obesidade, uso de fármacos em profusão, diabetes em mais de 10% da população e com tendência de aumento, a exigir medidas e contingências para as quais não se está preparado, nem no mundo desenvolvido nem no mais excluído, por razões diversas.
Se em saúde, pensando na velha máxima de que “prevenir é melhor que remediar”, as vacinas e a prevenção seriam o Santo Graal deste terceiro milênio, pensando nas velhas doenças e nas novas epidemias, permanece, mais claro do que nunca, que a supremacia de produção e a luta por acesso serão ainda os dois eixos de freios e contrapesos pelos próximos tempos.
