Poucos frequentadores de ópera ainda vestem smoking ou luvas até o cotovelo para uma apresentação, já que muitos teatros flexibilizaram seus códigos de vestimenta. Mas regatas, chinelos e shorts? É aí que o Teatro alla Scala, a famosa casa de ópera de Milão conhecida como La Scala, traça o limite.
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O teatro está reforçando a exigência de seu código de vestimenta neste verão, lembrando os frequentadores por meio de placas no saguão para se vestirem “de acordo com o decoro do teatro”. Quem estiver inadequadamente vestido não poderá entrar, conforme determina a política da casa — que também está impressa nos ingressos — e não receberá reembolso.
“Para não excluir ninguém, é necessário estabelecer algumas regras mínimas”, escreveu Paolo Besana, porta-voz da La Scala, por e-mail.
A La Scala é a mais recente casa de ópera europeia a se ver em um dilema sartorial enquanto tenta atrair um público mais jovem e, ao mesmo tempo, manter o charme de uma experiência sofisticada.
“Para quem vai à ópera ocasionalmente, é — por definição — um evento especial”, disse John Allison, editor da Opera With Opera News, que afirmou não se importar em ir de jeans. “Isso pode ser interpretado como cada um quiser.”
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Alguns acham que a preocupação é exagerada. “As únicas roupas que importam em qualquer casa de ópera ou teatro são as que estão no palco”, escreveu Andrew Mellor, um crítico itinerante, em uma mensagem no Instagram.
Outros dizem que a principal consideração é o respeito. “Uma casa de ópera não é uma praia”, disse Manuel Brug, crítico musical do jornal alemão Die Welt. Mas, ele acrescentou: “Não me importo se alguém está de jeans e tênis, desde que sejam adequados.”
Em outras partes da Europa, a Ópera Estatal de Viena avisa que pode proibir a entrada de pessoas usando chinelos, “shorts muito curtos” ou camisetas sem mangas, e acrescenta: “Muitos dos nossos convidados aproveitam a ocasião para se vestir com elegância.”
No Reino Unido, a English National Opera desencoraja apenas o uso de chapéus grandes, que podem bloquear a visão de outras pessoas. O Royal Ballet e a Royal Opera pedem que os espectadores estejam “completamente vestidos”, cubram os pés e o torso e evitem roupas com palavras ou imagens ofensivas. Até mesmo o Festival de Glyndebourne está se afastando de sua reputação de traje de gala. “Não há regras”, diz a orientação, com uma ressalva: “Dado o risco do clima britânico, é aconselhável levar uma camada extra de roupa.”
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A Staatsoper de Berlim é mais rigorosa, lembrando aos frequentadores que, embora o local não tenha um código de vestimenta, “a arte merece respeito, e isso também pode ser demonstrado com uma roupa adequada.”
Os frequentadores da Metropolitan Opera, em Nova York, seguiram na direção oposta nos últimos anos, com influenciadores desfilando looks nas escadarias do teatro. A companhia também mantém a conta no Instagram Last Night at the Met, que celebra os visuais do público.
Essa diferença, segundo Vivien Schweitzer, autora de “A Mad Love: An Introduction to Opera”, pode ser parcialmente explicada por um fator importante: o ar-condicionado.
“Pode ter menos a ver com o código de vestimenta e mais com a temperatura congelante dentro do teatro”, disse ela, “enquanto em muitos teatros europeus no verão, você simplesmente derrete.”
A La Scala eliminou a exigência de paletó e gravata no verão escaldante de 2015, quando Milão sediou uma exposição mundial. Naquela época, segundo Besana, essa regra antiga já vinha sendo “cada vez mais ignorada”.
Na última década, os padrões voltaram a cair, segundo um “guia de sobrevivência” da La Scala publicado em sua revista interna, que a companhia postou no Facebook na segunda-feira (7).
“Sabemos que, na Itália, as regras não são abolidas, substituídas ou alteradas”, lamentou o autor, Alberto Mattioli. “Elas simplesmente evaporam.”
A La Scala talvez enfrente um desafio único entre as grandes casas de ópera europeias por ser um destino turístico tão popular em Milão. Isso significa que atende a turistas que talvez nunca tenham ido a uma ópera ou que já passaram um longo e suado dia visitando a cidade. Pode ser também que o ex-diretor artístico e executivo, Dominique Meyer, tenha sido mais flexível com as diretrizes porque queria que todos se sentissem bem-vindos.
Durante seus anos de juventude em Paris, ele lembrou em uma entrevista, era “pobre, mas limpo” e adorava frequentar a ópera. Uma vez, uma mulher o viu e disse: “Eu não sabia que os operários podiam vir.”
“Sempre me lembro disso”, disse Meyer, que assumiu a direção da La Scala em 2020 e deixou o cargo no início de 2025. Sobre o público atual, ele acrescentou: “Se eles amam a ópera e a música, também podem usar roupas simples. Eu não me importo.”
Quem não estiver de acordo com o código de vestimenta não precisa necessariamente perder o espetáculo. Os recepcionistas da La Scala são conhecidos por aconselhar os “infratores” de uma forma bem milanesa: dizendo para irem às compras.
Ainda assim, Besana afirmou que a maioria dos espectadores se veste adequadamente e apontou que o uso de celulares durante as apresentações é um problema bem maior.
“Não se deve ter a impressão de que hordas de pessoas vêm à La Scala de roupa íntima”, escreveu ele em uma mensagem no WhatsApp. “Estamos falando de talvez 0,05%, menos de uma pessoa por noite.”
“Não precisamos de uma revolução”, acrescentou. “Apenas uma pequena correção.”