Olá, leitores. A crítica desta semana é de “Os anos de vidro”, coleção de contos da escritora Mateus Baldi em que personagens desafiam convenções de gênero, na sensível leitura de Sérgio Tavares. Nos lançamentos, um romance que atravessa três gerações de mulheres brasileiras, grandes heroínas da Idade Média e uma homenagem ao dramaturgo Zé Celso. E tem novidade nos mais vendidos: no embalo da eleição de Ana Maria Gonçalves para a Academia Brasileira de Letras, seu romance histórico “Um defeito de cor” surgiu no 1º lugar de ficção. Boa leitura.
Editora: Nós. Páginas: 324. Preço: R$ 69,90.
por Sérgio Tavares, especial para O GLOBO
Caio Fernando Abreu confrontava a finitude quando escreveu um dos melhores contos da literatura brasileira. Em “Linda, uma história horrível”, um filho retorna à casa da mãe numa tentativa tardia de reaproximação. A homossexualidade dele motivou o desligamento afetivo e, na superfície, a visita imprevista é um acerto de contas com o passado. No entanto, à medida que os gestos transformam palavras em símbolos, carregando-se com um cúmulo de sentido, o leitor descobre que se trata de uma despedida, pois o homem está morrendo, vítima da Aids, embora não consiga romper a barreira de anos de silêncio. A força do texto está no não dito, na interiorização da linguagem, na aterradora tensão dos sentimentos contidos no corpo, que reflete a própria condição física do autor.
Em “Istmo”, um dos belos contos de “Os anos de vidro”, a escritora Mateus Baldi promove esse mesmo movimento paralinguístico entre impulso e detenção do ato, acessando um fundo emocional difuso, com implicações de traços autoficcionais. Um jovem alimenta uma fixação por um antigo professor, seguindo-o pelas ruas e procurando-o nas redes sociais. Na época da escola, cochichavam que o homem era um “viado enrustido”, e o interesse do ex-aluno está no fato de ele próprio ter sua sexualidade reprimida. Ao comprar um vestido, a delicadeza com que narra os primeiros tateios no tecido, a sensação de vestir a peça feminina como a troca de uma pele, oferece uma compreensão legítima de desejo proibido, vinculando a liberdade do prazer a um castigo incontornável: “Eu tinha trazido o abismo para dentro de casa.”
Nos 11 contos que compõem o livro, muitos personagens mostram o que não são, segredando sua intimidade na vida dupla de quem mantém a identidade dentro da casca da aparência social. “Uma verdade”, que abre o livro, traz um narrador que imagina a história de um passageiro no aeroporto, o fugitivo de um governo autoritário por conta de sua atração por outros homens, construindo um circuito em que o exilado inventado gradativamente se torna parte atuante da condução narrativa. No ótimo “Hipóxia”, o curso dos fatos vai, a todo momento, mudando de perspectiva e adicionando informações a princípio desconexas, de modo a montar um puzzle dinâmico em que relacionamentos se dissolvem em mentiras e traições, reverberando fragmento em fragmento para se chegar a um entendimento total.
Baldi demonstra domínio técnico afiado e uma escrita estimulante, de quem usa a ficção para buscar possibilidades de narrar, provando-se, também, uma gabaritada leitora. É nítida a influência do virtuosismo formal de Sérgio Sant’Anna, da sensibilidade em retratar a condição humana de Lygia Fagundes Telles, da pulsação urbana de Rubem Fonseca. A matriz dos contos se faz das dissonâncias das inter-relações afetivas às contrações sociais dos bairros cariocas, articulando variações de estilo que exercem impacto nos aspectos técnicos e temáticos. “No sábado de carnaval” e “A ética dos urubus” adotam um vocabulário marginalizado e ritmo vibrante para sublinhar os meandros da criminalidade dos morros, do sol a pino, da violência que se pasteurizou no cotidiano da cidade partida. “Uma narrativa de pressuposto” parte do sumiço de um cachorro para incorrer numa jornada existencial depois de um trauma, numa montagem de situações que ora inverte, ora espelha planos temporais.
É comum muitos dos relatos parecerem do avesso, deslocados num espaço de suposições, como se contaminados pela confusão dos personagens que neles transitam, sempre na iminência de cederem a um estímulo ou a uma oportunidade de se despirem de suas incertezas.
“Cavalo” é uma espécie de peça-símbolo da antologia, aglutinando inúmeros componentes que dão sentido a outros textos. Uma andança por Copacabana leva a narradora ao encontro de um grupo de transexuais, deparando-se com lições que se refletem em seu processo de transição de gênero. Mais uma vez, a oscilação entre a voz ficcional e a da própria autora cria uma ideia de unidade, puxada por uma temática que se revela predominante. Baldi, porém, nunca a usa de modo didático ou panfletário, dizendo de si para ilustrar a densidade de sua literatura. Uma medida que encheria Caio Fernando Abreu de orgulho.
Sérgio Tavares é escritor e crítico literário
‘O devorador: Zé Celso, vida e arte’, organizado por Claudio Leal
Editora: Sesc. Páginas: 520. Preço: R$ 130.
Ensaios e depoimentos sobre o fundador do Teatro Oficina, morto em 2023, tanto de estudiosos de sua obra quanto de grandes nomes da cultura brasileira, de Caetano Veloso a Rogério Sganzerla. Na quarta, 19h30, no Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova 45, São Paulo), haverá um bate-papo entre Claudio Leal (organizador do livro), Marcelo Drummond e Camila Mota, com intervenções musicais de Renato Braz e José Miguel Wisnik.
‘Se eu soubesse contar infinitos’, de Mayra S. Mayor
Editora: Rocco. Páginas: 128. Preço: R$ 74,90.
Neste romance, a autora de “Bordados imperfeitos” e “Meu mar te espera” tece uma trama tocante sobre três gerações de mulheres — avó, filha, neta — e suas relações com abandono, redenção e maternidade, o tempo e os traumas que amarram a família. Como pano de fundo da narrativa que vai e volta no tempo, a História do Brasil contemporâneo, desde a ditadura militar até a Operação Lava-Jato.
‘ABC do amor’, de Renato Noguera
Editora: Oficina Raquel. Páginas: 248. Preço: R$ 68.
Referência nacional no pensamento de perspectiva afro, o filósofo e professor convida os leitores a um “letramento afetivo” a partir da poesia e da filosofia. A partir de 103 palavras ou expressões (“Abraço”, “Amor-próprio”, “Amizade”, “Amor como ato político” e por aí vai, até Z), ele traz breves ensaios sobre a experiência amorosa, defendendo o poder revolucionário dos relacionamentos.
‘Femina’, de Janina Ramirez
Tradução: Ana Maria Fiorin. Editora: Crítica. Páginas: 416. Preço: R$ 114,90.
Com o subtítulo de “Uma nova história da Idade Média, através das mulheres que ficaram de fora dela”, a historiadora britânica revela o impacto de figuras femininas como Jadwiga, primeira rainha da Europa; Margery Kempe, pioneira da autobiografia em inglês; Hildegarda de Bingen, a maior sábia e polímata medieval; e Birka, uma guerreira viking cujo esqueleto chegou a ser atribuído a um homem.
‘Charlie, the cat’, de José Joglemir
Autor: José Joglemir. Editora: Tatu-Bola. Páginas: 48. Preço: R$ 39,90.
Variando um pouco a temática fofolete dos livros de colorir, o ilustrador e criador do perfil Capivarinha Pantaneira (com 300 mil seguidores) parte da pergunta “o que os gatos fazem enquanto seus donos não estão em casa?” para imaginar os bichanos enquanto passa algumas horas sozinho, seja praticando ioga na sala, tomando um banho relaxante de banheira ou indo até a feira fazer compras.
1. ‘Um defeito de cor’, Ana Maria Gonçalves (Record)
2. ‘Jantar secreto’, Raphael Montes (Companhia das Letras)
3. ‘A empregada’, Freida McFadden (Arqueiro)
4. ‘Um amor problemático de verão’, Ali Hazelwood (Arqueiro)
5. ‘verity’, Colleen Hoover (Galera Record)
6. ‘Casas estranhas’, Uketsu (Intrínseca)
7. ‘Jujutsu Kaisen – Batalha de Feiticeiros Vol. 01’, Gege Akutami (Panini)
8. ‘A hora da estrela (Edição comemorativa)’, Clarice Lispector (Rocco)
9. ‘Noites brancas’, Fiódor Dostoiévski (Editora 34)
10. ‘Tudo é rio’, Carla Madeira (Record)
1. ‘Do dia para a noite’, Bobbie Goods (Harper Collins)
2. ‘Dias frios’, Bobbie Goods (Harper Collins)
3. ‘Dias quentes’, Bobbie Goods (Harper Collins)
4. ‘Isso e aquilo’, Bobbie Goods (Harper Collins)
5. ‘Capivaras and friend – rosa bebê’ (Camelot Editora)
6. ‘Capivaras and friend – rosa choque’ (Camelot Editora)
7. ‘Capivaras and friend – rosa’ (Camelot Editora)
8. ‘Capivaras and friend – azul bebê’ (Camelot Editora)
9. ‘Capivaras and friend – azul’ (Camelot Editora)
10. ‘Café com deus pai 2025’, Junior Rostirola (Vélos)
1. ‘Mais esperto que o diabo’, Napoleon Hill (Citadel)
2. ‘Mais esperto que o diabo 2’, Napoleon Hill (Citadel)
3. ‘O homem que comprou o tempo’, Thiago Nigro (Citadel)
4. ‘Arrume a suca cama’, William H. McRaven (Academia)
5. ‘Hábitos atômicos’, James Clear (Alta Life)
6. ‘Quebrando o hábito de ser você mesmo’, Joe Dispenza (Citadel)
7. ‘O poder do egoísmo consciente’, Vivaldo neto (gente autoridade)
8. ‘Do caos à consciência’, Kleiton Franciscatto (Gente Autoridade)
9. ‘A morte é um dia que vale a pena viver, Ana Claudia Quintana Arantes (Sextante)
10. ‘Como fazer amigos e influenciar pessoas’, Dale Carnegie (Sextante)
1. ‘Elo Monsters Books: Flow Pack’, Enaldinho (Pixel)
2. ‘Melhor que nos filmes’, Lynn Painter (Intrínseca)
3, ‘Como desenhar coisas superfofas com bobbie goods’, Bobbie Goods (Sextante)
4. ‘CapyVibes’, Gabriel Dearo e Manu Digilio (tatu-bola)
5. ‘Um intercâmbio quase perfeito’, Mih Tanino (Maquinaria)
6. ‘Harry potter – Comfy and cozy’ (Ciranda Cultural)
7. ‘O diário de uma princesa desastrada’, Maldy Lacerda (Outro Planeta)
8. ‘Diário de um banana – um romance em quadrinhos’,
Jeff Kinney (VR Editora)
9. ‘Não é como nos filmes’, Lynn Painter (Intrínseca)
10. ‘Hello kitty and friends – Cozy coloring book’ (Editora Mood)
Ranking elaborado pelo portal Publishnews (www.publishnews.com.br) com dados apurados nas livrarias A Página, Argumento, Blooks, Cameron, Cultura, Curitiba, Escariz, Leitura, Livraria da Vila, Livraria Loyola, Lojas Americanas, LDM, Livruz, Martins Fontes SP, Nobel, Santos, Saraiva, Submarino, Travessa, Vanguarda, Vitrola e Vozes entre 7/7/2025 e 13/7/2025.