O cenário é de terra arrasada. Tel al-Sultan era um dos bairros mais vibrantes da cidade de Rafah, na Faixa de Gaza. Suas ruas densamente povoadas abrigavam a única maternidade da cidade e um centro de atendimento a crianças órfãs. Imagens de satélite, porém, mostram, em 13 de julho deste ano, prédios demolidos e quarteirões inteiros devastados, em uma “destruição planejada”. A maternidade é um dos poucos prédios que ainda estão de pé em Tel al-Sultan. No início da guerra, a maior parte da destruição de edifícios foi causada por bombas ou estruturas minadas. Agora, a destruição tem sido controlada e realizada por meios mecânicos, com empresas privadas e profissionais contratados pelo Ministério da Defesa de Israel, segundo o jornal israelense Haaretz e a rede britânica BBC.
De acordo com um mapeamento feito em meses recentes por Adi Ben-Nun, diretor do Centro de Sistemas de Informação Geográfica da Universidade Hebraica, encomendado pelo Haaretz, cerca de 160 mil construções – cerca de 70% de todas as estruturas do enclave – sofreram danos severos (pelo menos 25% estão totalmente destruídos), tornando-as inabitáveis.
Segundo seu mapeamento, feito com base em imagens de satélite de Gaza usando um algoritmo para avaliar a escala da destruição, Rafah — que abrigava cerca de 275 mil habitantes antes da guerra — teve aproximadamente 89% de suas construções completa ou parcialmente destruídas. Os dados mostram que, desde abril, uma média de 2 mil construções foram destruídas em Rafah, no sul do enclave, a cada mês.
Outra análise dos danos, realizada pelos acadêmicos Corey Scher e Jamon Van Den Hoek, também descobriu que a destruição em Gaza, desde abril, concentrou-se mais na região de Rafah. Segundo a BBC, explosões controladas, escavadeiras e tratores destruíram áreas inteiras. Nas últimas semanas, o governo israelense revelou planos para construir o que chamou de “cidade humanitária” sobre as ruínas de Rafah, sugerindo concentrar 600 mil palestinos na região, sem direito a deixar o local, que seria cercado por militares — plano apontado pelo ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert como algo que configuraria um “campo de concentração”.
O mapeamento de Ben-Nun acrescenta que, na província de Khan Younis, cerca de 63% dos edifícios foram destruídos, enquanto no norte de Gaza – que inclui as cidades de Beit Hanoun, Beit Lahiya e o campo de refugiados de Jabaliya – 84% das estruturas foram destruídas. Na Cidade de Gaza, 78% dos edifícios foram destruídos. A única área onde a destruição é estimada em menos de 50%, segundo ele, é Deir al-Balah, no centro de Gaza, onde cerca de 43% dos edifícios foram danificados ou demolidos.
Os números apresentados por Ben-Nun superam os publicados anteriormente sobre o assunto. Segundo dados do Centro de Satélites das Nações Unidas, até abril do ano passado, mais de 50% dos edifícios na Faixa de Gaza haviam sido completamente destruídos ou significativamente danificados, com danos visíveis em outros 15%.
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Em uma reunião a portas fechadas, amplamente divulgada pela mídia israelense, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que as Forças Armadas de Israel estavam “destruindo cada vez mais casas”, deixando os palestinos “sem ter para onde voltar”. Em maio, o diário israelense Maariv noticiou que Netanyahu disse à Comissão de Relações Exteriores e Segurança do Parlamento que “o único resultado esperado será o desejo dos moradores de Gaza de emigrar para fora do enclave”.
— Estamos destruindo cada vez mais lares. Eles não têm para onde retornar — disse o premier na ocasião.
Estimativas da ONU indicam que, além de prédios residenciais, os militares de Israel destruíram pelo menos 2.308 instituições e instalações educacionais, desde jardins de infância até universidades. De acordo com esses números, todas as universidades em Gaza foram total ou parcialmente destruídas, e 501 das 554 escolas do enclave estão inutilizáveis. Além disso, ainda segundo o Haaretz, 81% das estradas e ruas em Gaza foram danificadas ou destruídas.
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À BBC, diversos especialistas jurídicos disseram que Israel pode ter cometido crimes de guerra sob a Convenção de Genebra, que proíbe a destruição de infraestrutura por uma potência ocupante.
Eitan Diamond, especialista jurídico do Centro de Direito Humanitário Internacional Diakonia, em Jerusalém, afirmou à BBC que “o direito internacional humanitário proíbe tal destruição controlada de propriedade civil durante conflitos armados, exceto em condições rigorosas de absoluta necessidade operacional militar”.
— Os moradores de Gaza não têm para onde retornar. O mundo que conheciam e suas vidas cotidianas simplesmente desapareceram — disse Adi Ben-Nun, em entrevista ao Haaretz. — A devastação se dá em todos os níveis, desde casas demolidas até instituições públicas, locais de trabalho, escolas e terras agrícolas. Tudo foi destruído.
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Demolições israelenses também são visíveis em outras partes da Faixa de Gaza. Antes da guerra, a cidade agrícola de Khuza’a, que fica a cerca de 1,5 km da fronteira de Israel, tinha uma população de 11 mil habitantes e era conhecida por suas terras férteis e plantações. Capturadas em maio, imagens de satélite mostram que muitos edifícios da cidade permaneciam de pé. Já em junho, Khuza’a foi amplamente arrasada pelas forças israelenses.
As Forças Armadas afirmam ter demolido 1.200 prédios em Khuza’a, que, segundo a organização, faziam parte de “infraestruturas terroristas” administradas pelo Hamas.
Uma história semelhante surge na cidade vizinha de Abasan al-Kabira, onde cerca de 27 mil pessoas viviam antes da guerra. Fotos tiradas em 31 de maio e 8 de julho indicam que uma extensa área foi varrida em apenas 38 dias.
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— Como amplamente documentado, o Hamas e outras organizações terroristas ocultam ativos militares em áreas civis densamente povoadas — disse um porta-voz militar à BBC. — A IDF identifica e destrói infraestrutura terrorista localizada, entre outros lugares, dentro de prédios nessas áreas.
Não há sinais de redução no ritmo das demolições. Na semana passada, a mídia israelense noticiou que as Forças Armadas receberam dos EUA dezenas de tratores, cuja entrega havia sido suspensa no governo Biden.
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A BBC ainda identificou dezenas de anúncios publicados em grupos israelenses do Facebook que ofereciam trabalho em Gaza para empreiteiros de demolição. Oficiais das Forças Armadas disseram ao Haaretz que os contratados podem ganhar até 5 mil shekels (mais de R$ 8 mil na cotação atual) por cada prédio que demolem.
A ONU estima que o peso dos entulhos de construção em Gaza totaliza cerca de 50 milhões de toneladas — aproximadamente 137 quilos de entulho por metro quadrado no enclave.
Em agosto, o instituto de pesquisa da ONU estimou que o volume de resíduos de construção em Gaza é equivalente a 14 vezes os escombros gerados por todos os conflitos armados no mundo desde 2008. Alguns meses atrás, a organização projetou que a limpeza desses escombros levaria 21 anos e custaria US$ 1,2 bilhão (mais de R$ 6 bilhões).
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Um dos profissionais de demolição é o rabino Avraham Zarbiv, que serve como operador de escavadeira D9. Zarbiv se gabou de seu papel em uma série de entrevistas, a última das quais publicada no último fim de semana no site de direita B’Sheva.
— Rafah está sendo limpa. Não há Rafah. O norte de Gaza está quase totalmente arrasado. Khan Younis é o próximo, também será arrasado. Na minha humilde opinião, Deus quer que nossa tarefa seja simplesmente limpar a terra — afirmou Zarbiv.