Em uma eleição crucial para o futuro do premier japonês, Shigeru Ishiba, em um momento econômico e diplomático desafiador para o país, o avanço do partido ultranacionalista Sanseito foi o grande destaque. A sigla, que tinha apenas uma cadeira na Câmara Alta do Parlamento, passou para 14, e se firmou como a quarta maior força de oposição. O discurso marcado pelo nacionalismo exacerbado, com toques conspiracionistas e contra a imigração, guarda semelhanças com a trajetória do presidente americano, Donald Trump, até em seu lema: “Japão em primeiro lugar”.
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A ideia para o partido surgiu após uma decepção nas urnas. Seu líder, Sohei Kamiya, um veterano das Forças de Defesa, perdeu uma eleição para a Câmara Baixa do Parlamento em 2012, apesar do apoio do ex-premier Shinzo Abe, uma referência para os nacionalistas japoneses e morto em 2022. Nos anos seguintes, ele se manteve como uma figura marginal no meio político, mas começou a ganhar adeptos com um discurso abertamente inspirado no trumpismo.
— Com o globalismo, as empresas multinacionais mudaram as políticas do Japão para seus próprios interesses — declarou Kamiya em um comício recente. — Se não resistirmos a essa pressão estrangeira, o Japão se tornará uma colônia.
Em 2020, em meio à pandemia da Covid-19, o Sanseito foi oficialmente lançado, e usou as redes sociais e vídeos no YouTube para lançar teorias conspiratórias, atacar o uso de máscaras e criticar as vacinas contra a doença que matou dezenas de milhares de pessoas no país.
Aos poucos, o discurso ganhou tons nacionalistas, representados no que é o lema informal do partido, “Japão em primeiro lugar”, versão local do movimento Maga, “Façam os EUA Grandes Novamente”, de Trump. Repetindo um enredo conhecido no Ocidente, a imigração e o aumento do número de estrangeiros visitando o país foram apresentados como as causas dos problemas nacionais, incluindo a inflação, hoje em níveis elevados para os padrões japoneses.
— Neste momento, a vida dos japoneses está cada vez mais difícil — disse Kamiya, há alguns dias – Cada vez mais estrangeiros estão vindo (para o Japão).
Hoje, cerca de 4 milhões de estrangeiros vivem no Japão, e o país tem batido recordes de visitantes estrangeiros: em 2024, foram 37 milhões, de acordo com a Organização Nacional do Turismo. Durante a campanha para a Câmara Alta, Kamiya defendeu limitar o número de estrangeiros residentes e visitantes, restringir as regras para obtenção da nacionalidade e impedir que pessoas que obtiveram a cidadania japonesa ocupem cargos públicos.
O líder do Sanseito nega as alegações de xenofobia.
— Não pretendemos de forma alguma excluir trabalhadores estrangeiros que estão aqui legalmente, que estão trabalhando legalmente lado a lado com os japoneses, com empregos — afirmou Kamiya, em entrevista coletiva recente. — A ideia de que pessoas que querem discriminar e expulsar estrangeiros (do Japão) estão migrando para o Sanseito é, na minha opinião, um pouco equivocada. Não somos esse tipo de partido.
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No começo do ano, Kamiya foi criticado após atacar políticas de igualdade de gênero, afirmando que elas evitam que as mulheres tenham mais filhos, e disse que as japonesas deveriam pensar menos no trabalho e mais na maternidade. Ele é favorável a normas mais duras de segurança interna, defende maiores investimentos em Defesa e disse ver com bons olhos a possibilidade de abrigar armas nucleares dos EUA em seu território, ecoando ideias de seu “guru”, Shinzo Abe.
Segundo pesquisas de boca de urna, os homens jovens são o principal público do Sanseito, e Kamiya credita isso às suas declarações “de sangue quente”, que segundo ele ecoam com mais força no eleitorado masculino. Mas os números também mostram avanços entre homens mais velhos e da classe trabalhadora, o que de certa forma ajuda a explicar o sucesso da sigla na votação de domingo.
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Muitos japoneses expressaram nas urnas o cansaço e a frustração com o Partido Liberal Democrático (PLD), que domina a política japonesa, mas que é cada vez mais questionado pelo estado da economia, por seus recorrentes escândalos internos e, de acordo com novos eleitores do Sanseito, por não ser conservador o suficiente. O PLD perdeu a maioria nas duas Casas do Parlamento, o premier Shigeru Ishiba pode perder o cargo, e a extrema direita conseguiu um lugar no Legislativo que parecia improvável até pouco tempo.
— Acho que há anos as pessoas dizem que o Japão não tem uma direita populista ou uma extrema direita populista. Mas acho que [o resultado] provou que existe a possibilidade de isso acontecer no Japão, e provavelmente veio para ficar — disse à BBC Jeffrey Hall, professor de Estudos Japoneses na Universidade Kanda, destacando que a votação de domingo não é uma garantia de médio ou longo prazo de sucesso para o Sanseito. — Se os eleitores perceberem que um partido que apoiaram não está correspondendo às suas expectativas, eles voltarão às opções estabelecidas ou buscarão alternativas mais recentes.